Maduro começa a perder o controle dos grupos armados na Venezuela

Quadrilhas para-policiais que apoiam o Governo atemorizam a oposição enquanto os protestos se espalham por Caracas

Protesto da quarta-feira em Caracas.
Protesto da quarta-feira em Caracas.leo ramírez / afp

A noite de quarta-feira foi mais longa que o normal na Venezuela. As informações das redes sociais, a única plataforma capaz de driblar o grotesco cerco à informação na televisão implantado pelo Governo de Nicolás Maduro, anunciavam importantes distúrbios em alguns setores de Caracas. Este jornal obteve depoimentos de primeira mão dos fatos ocorridos nos setores residenciais de Horizonte, região leste de Caracas, e Santa Fé, no sudeste da capital venezuelana. Tudo indica que o regime chavista começou a perder o controle dos grupos armados que apoiam a autodenominada revolução bolivariana.

A partir dessas vozes é possível reconstruir o ocorrido porque repete o mesmo padrão. No final da tarde da quarta-feira, como nos dias anteriores, os manifestantes opositores fecharam as ruas de seus condomínios erguendo pequenas barricadas de lixo e troncos que depois incendiaram. O cansaço ou uma repressão moderada acabavam com os protestos. Mas a quarta-feira foi diferente. Enquanto o presidente Maduro falava em todos os canais do país, começou uma dura repressão, pouco comum até hoje, com a atuação combinada das equipes anti-motins da Polícia Nacional Bolivariana, a Guarda Nacional Bolivariana e os membros de base do chavismo agrupados sob o eufemismo de coletivos.

Os coletivos são, na realidade, quadrilhas para-policiais que apoiam o Governo e atemorizam a oposição. Muitos deles se apresentam como promotores culturais ou esportivos nas zonas populares de Caracas, como o setor 23 de Enero. Mas quando se incrementam as tensões com a oposição atuam como força de choque civil. Isso aconteceu na noite da quarta-feira em Horizonte, quando chegaram em motocicletas para tentar abrir o trecho da avenida Rómulo Gallegos, uma das vias mais importantes da cidade, que passa pela frente desse setor, lotado de prédios de apartamentos residenciais. Uma testemunha contou a este diário como faziam rugir suas motos para assustar os vizinhos e disparavam ao ar. Alguns motoristas assaltavam os opositores que se separavam do grupo. Os vizinhos lhes jogavam pedras e garrafas dos prédios. Outros disparavam. Pouco depois a Guarda Nacional atuou e foi recebida do mesmo jeito. Então aconteceu o pior. Um funcionário público apontou para o edifício Vista, de onde supostamente lhes jogavam garrafas, e atirou uma bomba lacrimogênea que entrou por uma janela e incendiou um escritório do terceiro andar que funciona como depósito de uma empresa que vende equipamentos de telefonia celular, Dilo C.A. Então os disparos acabaram.

Em Santa Fé os vizinhos fecharam a rodovia de Prados del Este, que comunica o sudeste da capital com o centro, das 6:00 da tarde da quarta-feira. Mais tarde, o protesto tornou-se violento. Alguns vândalos tentaram queimar um cachorro com a intenção de fazer crescer as barricadas formadas com restos de lixo. Também queriam impedir o passo de uma ambulância, que trasladava a um ferido para uma clínica, e agrediram o motorista. Após esses episódios, vários motoqueiros vestidos de preto dispersaram com disparos ao ar a quem fechava a via. Dos prédios vizinhos respondiam com pedras e garrafas. Nessa região, os vizinhos relataram disparos de armas de fogo.

Mas os protestos não se limitaram aos setores de classe média. Na freguesia La Candelaria, no centro de Caracas, um homem captou o momento no qual uma patrulha da Guarda Nacional abordava várias pessoas que colocavam obstáculos no trânsito. Mais tarde um dos manifestantes foi ferido enquanto fugia com um disparo no pé. Mais para o norte, na avenida Panteón, um homem identificado como Roberto González recebeu um disparo na virilha. Seu estado é delicado.

A atuação combinada das forças de segurança com os grupos civis sugere que as operações têm uma unidade de comando. Na quarta-feira Maduro se descolou desses grupos civis. “Eu dei a ordem de parar a essas pessoas que se chamam de chavistas para atemorizar a classe média”, disse em uma mensagem na tevê. Como prova disso, o governante venezuelano se referiu a uma concentração de trabalhadores chavistas das empresas estatais do ferro e alumínio, atacada a tiros em Puerto Ordaz, estado Bolívar, no sul do país. O ministro de Educação, Héctor Rodríguez, que acompanhou a manifestação mostrou fotografias de pessoas que atiraram dos telhados vizinhos ao lugar onde se manifestavam.

O deputado Miguel Pizarro informou à agência Efe que 138 pessoas foram presas pelos distúrbios da quarta-feira em Caracas. Embora a capital amanheceu com suas vias vazias, nas tardes o panorama costuma mudar. A tensão na Venezuela está-se incrementando.

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