O centro de São Paulo, uma região refém do crack

Área próxima ao marco zero da cidade que abriga mais de 1.000 usuários da droga, consumida a céu aberto, é alvo de nova investida do poder público

Homem acende um cachimbo de crack no centro.
Homem acende um cachimbo de crack no centro.Bosco Martín

Na tarde da última terça-feira, equipes da limpeza urbana chegavam ao quadrilátero formado pelas ruas Helvétia e as alamedas Barão de Piracicaba, Cleveland e Ribeiro da Silva, a cerca de três quilômetros da praça da Sé, o marco zero de São Paulo.

Elas tinham como missão desmontar 178 barracos construídos com madeira velha, lona e diversos outros restos de entulho montados desde o ano passado por usuários de crack em busca de um abrigo do sol, da chuva e das abordagens policiais, muitas vezes violentas.

A pequena favela abrigava cerca de 400 pessoas, que foram cadastradas nas últimas semanas pelas equipes de saúde e assistência social da Prefeitura de São Paulo e inscritas no programa “Braços Abertos”, que ofereceu a eles um quarto em um hotel da região, capacitação, vagas de tratamento e quatro horas diárias de trabalho remuneradas com 15 reais por dia (além da diária do hotel, paga pelo governo municipal diretamente à Organização Não-Governamental que coordena o projeto).

A derrubada dos barracos marcava o início de mais uma tentativa do poder público de tentar desocupar o quadrilátero que abriga a região conhecida como cracolândia, onde vivem entre 500 e 600 pessoas, segundo as estatísticas oficiais, que consomem o crack livremente, 24 horas por dia, em plena rua.

A elas se somam todos os dias ao menos outros 1.000 dependentes que transitam pelo local em busca da droga, vendida ali com facilidade, por um preço que varia de 10 reais a pedra inteira a 1 real um pequeno pedaço. Há quem chegue a consumir 50 pedras em um único dia, queimadas em cachimbos improvisados, feitos com pedaços de latas de alumínio e tubos de PVC.

Essa região de São Paulo é refém do crack há pelo menos 20 anos, quando usuários da droga, a grande maioria pobres que não tinham como comprar a cocaína e recorriam ao seu subproduto, muito mais barato, passaram a ser assassinados nas periferias, muitas vezes pelos próprios traficantes, ao praticarem furtos ou roubos dentro das próprias comunidades e chamarem a atenção da polícia.

Eles passaram a se concentrar, então, no centro de São Paulo e encontraram segurança na região próxima à estação da Luz, conhecida como “boca do lixo”, onde a prostituição e o tráfico de drogas aconteciam ignoradas pelo poder público.

A aglomeração de pessoas que usavam a droga livremente foi incorporada à rotina da cidade e naturalizada. Até que nos últimos anos a especulação imobiliária bateu às portas da região e a “boca do lixo” passou a ser vista pelo poder público como um problema a ser resolvido. A cracolândia começou a atrapalhar os planos de revitalização da área.

Nos últimos três anos, o poder público organizou operações espetaculosas no local. A mais polêmica delas aconteceu em janeiro de 2012, quando o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) tentou desocupar as ruas do quadrilátero à força. Policiais Militares, munidos de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo, circulavam pela região alvejando os usuários que insistiam em continuar ali. A orientação era proibir que eles deitassem nas calçadas e espalhá-los. Com isso, dizia o governo, seria possível identificar os traficantes e, sem o acesso fácil às drogas, seria mais fácil abordar os usuários e convencê-los a recorrer ao tratamento.

A ação, no entanto, fracassou. E foi criticada por muitos especialistas por afastar os viciados das equipes de saúde que atuavam nas ruas da região com uma estratégia de criar vínculos com os usuários e levá-los aos centros de recuperação.

Com a ação da polícia, os dependentes se espalharam pela cidade e criaram mini-cracolândias. Em seis meses, a grande maioria retornou para o mesmo local, apesar das rondas da Polícia Militar que ainda continuavam. Outros, foram para a periferia. Existem hoje em São Paulo ao menos 30 cracolândias mapeadas, segundo o secretário Municipal da Saúde, José de Filippi Júnior.

“A gente é humilhado todos os dias. Os policiais jogam as viaturas na gente enquanto dormimos na calçada. Quase morri, com um tiro que acertou a minha cabeça”, conta Narciso Dourado Filho, 46 anos, 22 deles na cracolândia.

Narciso é dono de um dos barracos alvos da ação da prefeitura, montado com entulhos achados na área depois da demolição de alguns prédios desapropriados e demolidos pelo próprio poder público. No pequeno espaço onde ele vive, cujo chão é forrado por colchões velhos, dormem a companheira Vanessa, de 29 anos, viciada em crack há 16, e dois homens que ele conheceu ali. Todos ganharam uma vaga em um hotel e vão começar a trabalhar com a varrição de ruas.

O novo projeto da prefeitura é visto com descrença por alguns especialistas. “Eles vão pegar o dinheiro e gastar com o crack”, acredita o psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ronaldo Laranjeira, que coordena um programa do governo do Estado chamado Recomeço, que em janeiro do ano passado criou um plantão jurídico em uma unidade de tratamento próxima à cracolândia para realizar internações à força de usuários da droga.

Outros especialistas, entretanto, elogiam a nova tentativa. Primeiro por não ter retirado os dependentes à força. Os moradores da “favelinha” foram abordados previamente pela prefeitura e concordaram em deixar o local em troca do novo abrigo. Depois, por oferecer capacitação e um trabalho, como parte da abordagem de convencimento dos dependentes ao tratamento. E terceiro por não forçar ninguém a deixar a droga, já que tem uma filosofia de redução de danos.

No entanto, a cracolândia já dá sinais de que vai persistir. Um grande número de usuários, que não foi contemplado pelo programa por não ter montado barracas na rua, concentrava-se na última quarta-feira em uma ruazinha bem no meio do quadrilátero, ao lado da equipe que fazia a remoção dos barracos e dos políticos que visitavam o local.

A poucos passos do secretario da Saúde, que dava uma entrevista à imprensa, Djalma Vieira de Andrade, 44, lamentava não fazer parte do grupo que naquela noite dormiria sob um teto. “Também quero sair dessa vida, também quero um emprego. Por que eu não mereço ter a mesma chance?”

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