São Paulo quer acabar com os “hotéis do crack”

Ofensiva quer fechar 18 cortiços e cinco ocupações que não têm autorização para funcionar

Usuários na cracolândia, em foto de setembro de 2013.
Usuários na cracolândia, em foto de setembro de 2013. Paulo Whitaker (REUTERS)

“Se for para ficar duas horas, custa 15 reais. Mas a pedra tem de ser nossa”. O aviso é dado por um funcionário de um hotel na alameda Dino Bueno, no coração da cracolândia paulistana, ao ser questionado sobre o valor da diária no local. A pedra citada por ele é a de crack, ao custo de 10 reais o pedaço que tem menos de 2 centímetros. O hotel da Dino Bueno é um dos 18 apontados pelo governo paulista como ponto de consumo e venda de crack no centro da maior cidade do país.

O nome “hotel”, contudo, é praticamente só uma fachada. A aparência é de um cortiço, com quartos onde mal cabem uma cama e uma cadeira. Em alguns, nem iluminação existe. São poucas as pessoas que usam esses locais para passar a noite dormindo de verdade. A maioria quer evitar expor seu vício pelo crack nas ruas, como fazem quase todos os viciados que circulam dia e noite pela região central da cidade.

As últimas estimativas apontam que entre 800 e 1.000 dependentes químicos circulam diariamente por um quadrilátero onde há prédios históricos, lojas de peças para motos, igrejas, praças públicas, teatro, uma estação de trem e uma escola.

Após uma atrapalhada operação, em janeiro de 2012, que envolveu centenas de policiais, o uso de balas de borracha e de bomba de efeito moral para dispersar os dependentes químicos, tanto a prefeitura quanto o Estado tentam encontrar outras formas de reduzir uma mancha social no centro, conforme dizem alguns especialistas.

Essa traumática ação de 2012 acabou espalhando o problema que antes era localizado em um canto de São Paulo por outras 30 minicracolândias. Aos poucos, com a redução da repressão das forças de segurança, esses viciados voltaram para o centro da cidade.

Com esse retorno, a maneira de atuação mudou. A mais nova iniciativa é a ofensiva contra 18 hotéis e cinco ocupações irregulares onde a droga é vendida e consumida 24 horas ao dia. Um levantamento do serviço de inteligência das polícias mostra que esses hotéis não têm autorização de funcionamento. Alguns são dirigidos por pessoas que já foram presas e tiveram, nas penitenciárias, contato com outros criminosos com quem acabaram conseguindo estabelecer a conexão com fornecedores de crack.

A avaliação do governo é que, se esses ambientes não forem fechados, o trabalho da polícia acaba sendo o de enxugar gelo. Localiza o pequeno traficante e o prende. Acontece que, conforme policiais do Denarc (departamento de narcóticos), em menos de 30 minutos esse vendedor da droga acaba sendo substituído por outro.

Ao acabar com um local irregular, evita-se que parte da droga fique acumulada no entorno da cracolândia e facilite a distribuição do crack. Para a polícia, baixar as portas desses 18 hotéis, de fato, não é a única solução para o problema, mas é uma das várias que ajudariam a acabar com a epidemia.

O temor de autoridades da área de saúde pública é que, com o fechamento dos hotéis, poderá haver uma nova dispersão dos usuários, o que dificulta o contato e quase impossibilita que o viciado seja convencido a se tratar.

As outras alternativas para reduzir a presença de viciados na cracolândia, segundo os especialistas, seriam aumentar a rede de tratamento e oferecer condições de trabalho e habitação para os dependentes químicos que vivem nas ruas.

Diante dessa demanda, tanto o governador Geraldo Alckmin (PSDB) quanto o prefeito Fernando Haddad (PT) dizem que estão trabalhando em conjunto para oferecer opções de tratamento e acolhimento dos usuários. Na semana passada, os dois se reuniram para combinar novas ações principalmente após o surgimento de uma pequena favela nas proximidades desses hotéis irregulares.

“Aquela favela surgiu depois da demolição dos prédios ocupados pelos dependentes químicos [em janeiro de 2012]. A partir do momento em que se demoliu os prédios, se criou a favela. Se formos fechar, sem tomar as providências de apoio, só iremos aumentar a ocupação”, afirmou o prefeito Haddad.

Uma das ações, segundo o governador Alckmin, foi encaminhar 28 pessoas para casas terapêuticas, onde elas passam por um tratamento não medicamentoso. Em um ano, foram mais de 500. O problema é que boa parte delas retorna às ruas pouco tempo depois de serem internadas. É um trabalho que parece não ter fim.

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