ZEINAL BAVA | PRESIDENTE-EXECUTIVO DA OI E DA PT PORTUGAL

“O Brasil é um mercado muito atraente para as telecomunicações”

Zeinal Bava diz que a banda larga pode duplicar sua penetração no país “Houve paixão na negociação da Vivo porque não somos máquinas”

Zeinal Bava, presidente-executivo da OI e da PT Portugal.
Zeinal Bava, presidente-executivo da OI e da PT Portugal.

Zeinal Bava nasceu em Maputo, capital de Moçambique, em 1965, quando a cidade ainda se chamava Lourenço Marques. Quando a colônia portuguesa se tornou independente, em 1975, sua família emigrou para Portugal. Bava estudou engenharia eletrônica e eletrotécnica em Londres e iniciou sua carreira profissional em um banco de investimentos. Em 1999, entrou para o grupo Portugal Telecom (PT), onde ocupou cargos importantes até ser nomeado presidente-executivo, em 2008. Após a venda da sua participação na brasileira Vivo para a Telefónica, a PT entrou no capital da também brasileira Oi, que em junho passado o nomeou presidente-executivo. Sua nomeação foi recebida com uma forte alta na Bolsa. Seus numerosos prêmios como melhor executivo do setor na Europa lhe valeram o apelido de “Messi das telecomunicações”, embora ele se declare admirador de Cristiano Ronaldo. Agora, se dedica a levar adiante a fusão da Oi com a Portugal Telecom, que criará o líder das telecomunicações nos mercados de língua portuguesa, com presença na Europa, América e África.

Pergunta. A economia brasileira está despertando algumas dúvidas após anos de muito sucesso...

Resposta. Os analistas de mercado consideram que o Brasil tem desafios importantes, já que estava crescendo em 4% a 4,5% ao ano e agora se espera que cresça 2% a 2,5%. Há temores de uma redução na qualificação de crédito, a inflação está subindo, e a taxa de juros pode subir. Mas os investidores veem o Brasil como um mercado muito atraente, com 200 milhões de pessoas, com uma classe média crescente, 60 milhões de domicílios, uma democracia consolidada, com bancos muito sólidos, um mercado aberto do ponto de vista social e cultural e muito rico em recursos naturais. Além do mais, tem a Copa do Mundo, que lhe dá grande visibilidade. É uma economia que faz parte dos Bric e continua crescendo, ainda que menos. Na economia global, o Brasil é um mercado muito atraente para investir e com muito por desenvolver, como por exemplo nas telecomunicações e na tecnologia, para melhorar a produtividade, com mais banda larga, mais smartphones, a nuvem...

P. Portugal, enquanto isso, vive uma longa crise.

R. Houve muitos sacrifícios, mas os indicadores econômicos sugerem que as medidas começam a dar resultados. As pequenas e médias empresas portuguesas estão cada vez mais competitivas, e as exportações continuam surpreendendo positivamente todos os meses. As companhias transformaram seus modelos de negócio, os bancos resolveram a maior parte da sua deterioração, as contas públicas, sem contar os juros, já estão equilibradas, e tivemos dois trimestres de crescimento, ainda que pouco. Isso permite pensar que estamos começando um novo ciclo e olhar para o futuro de forma diferente, com confiança, embora os desafios ainda sejam enormes.

P. Por que a Portugal Telecom e a Oi se fundiram?

R. A relação começou em 2010, com uma aliança industrial que era um ponto de partida, não de chegada. O que nos une são a língua, as boas relações entre os acionistas e um grande conhecimento do mercado do Brasil por parte da Portugal Telecom. O objetivo é unir a liderança em inovação e tecnologia da Portugal Telecom com uma forte presença da Oi em um mercado de grande escala e com forte potencial de crescimento futuro. A fusão também permitirá simplificar a estrutura da Oi e alinhar sua gestão com os níveis mais exigentes do Novo Mercado do Brasil.

P. Como afeta Portugal o fato de a sede da empresa resultante ficar no Brasil?

R. A PT Portugal vai se chamar Portugal Telecom, os negócios daqui [de Portugal] continuarão a serem tributados aqui, as marcas se mantêm... O que muda é que agora a PT faz parte de uma companhia com 100 milhões de clientes, presente na África, Portugal e Brasil, com uma língua que nos une. E, neste mundo em que a consolidação é inevitável, escolhemos uma consolidação que faz sentido cultural e de negócio, num mercado que abrange 260 milhões de pessoas que falam português e onde podemos gerar valor para o acionista.

P. Teria sido possível uma fusão da Portugal Telecom com a Telefónica?

R. Há mais de dez anos, a PT chegou a uma aliança ibérica, com a Telefónica, e a outra atlântica, com a Telebras. Tinha muito claro que o mundo iria na direção de grupos econômicos muito fortes, e que o elo poderia ser a língua ou a proximidade cultural. Acho que em momento algum pensamos que seria possível a fusão com a Telefónica ou com uma companhia brasileira se não fizesse sentido no contexto da globalização do nosso setor e não gerasse valor para o acionista. Seria uma evolução natural. Nós nos damos muito bem com a Telefónica, tenho amigos lá, é uma companhia fantástica, que atua muito bem, tenho admiração e uma relação de amizade com o sr. César Alierta, e sempre que trabalhamos juntos aprendemos muito com eles, e em algum momento também eles conosco.

P. Agora é sua concorrente no Brasil. Sente falta da Vivo?

R. Estamos muito orgulhosos do trabalho que fizemos na Vivo. Éramos sócios de igual para igual, com muita coragem da Telefónica, um gigante das telecomunicações, sete ou oito vezes maior. A Vivo nos traz recordações muito boas de grandes profissionais, com a qual trabalhamos muito e com a qual nos dávamos muito bem, e continuamos nos dando muito bem, agora como concorrentes, mas ainda como amigos. Tenho lembranças muito boas, mas a Vivo faz parte do nosso passado. A fusão da Oi com a PT é o nosso futuro.

P. Por que foi tão inflamada a negociação de venda para a Telefónica?

R. É preciso distinguir a relação pessoal da profissional. Continuamos tendo uma boa relação pessoal, mas é nosso dever como profissionais tentar fazer sempre o melhor para nossas companhias. No substancial, entende-se perfeitamente o que fez a Telefónica e o que fez a Portugal Telecom. Houve paixão na negociação da Vivo porque somos pessoas, não somos máquinas. Na forma pode ser que as duas partes tenhamos exagerado em alguns momentos, mas é preciso esquecer isso e pensar que o sucesso futuro das nossas companhias depende de nossa capacidade de competir, claro, todos os dias, mas também de colaborar, de compartilhar redes, ideias, inovação…

P. Vocês não correm um risco ao tentar aplicar no Brasil sua experiência de Portugal? Cada país é diferente.

R. No Brasil, cada Estado é diferente, cada cidade é diferente. Inclusive no Brasil, faremos as coisas de maneira diferente no Rio, em Manaus, em Porto Alegre ou no Recife, porque a infraestrutura, a cultura e as exigências locais são diferentes. Mas queremos implantar um modelo de negócio semelhante e compartilhar as melhores práticas para garantir que a experiência acumulada com os fortes investimentos efetuados em novas tecnologias em Portugal reduza o risco de execução operacional na Oi. O modelo de negócio do nosso setor no segmento residencial ou empresarial está convergindo, porque os hábitos de consumo no mundo começam a ser muito parecidos. Embora a infraestrutura seja diferente e a forma de encarar os desafios em cada mercado seja diferente, a ideia geral é muito parecida.

P. Encontraram muitos problemas na Oi em comparação com a PT?

R. Cada companhia tem desafios diferentes. Em Portugal, o faturamento cai por causa do contexto econômico e competitivo, e é preciso manter a disciplina de reduzir custos e aumentar a flexibilidade financeira. Temos que reinventar nosso negócio a um ritmo alucinante. Por isso investimos em televisão e somos hoje líderes em triple play, e montamos um data center que é um dos melhores do mundo. Você não pode se limitar ao fixo, banda larga e celular, precisa inventar e oferecer novos serviços como a nuvem. Na Oi temos desafios mais operacionais, e do meu ponto de vista o futuro depende só de nós. Temos muito claro o que queremos fazer e como queremos fazer. Agora é preciso fazer bem, depressa, com custos sob controle. São desafios diferentes, e as empresas juntas têm importantes sinergias que podem aproveitar para superá-los com louvor no futuro.

P. Quais são as prioridades da Oi?

R. A primeira é melhorar o fluxo de caixa, a companhia precisa reduzir sua dívida. E não é um assunto financeiro, e sim estratégico: uma companhia que não tenha flexibilidade financeira não é competitiva. Por isso, se quiser estar competindo, inovando, investindo, é importante ter um balanço e um fluxo de caixa forte. No terceiro trimestre conseguimos reduzir a dívida pela primeira vez em oito trimestres. Em segundo lugar, consolidar nosso modelo de negócio e sermos campeões em produtividade. E a terceira é continuar crescendo.

P. A que se refere com “consolidar o modelo de negócio”?

R. Se falarmos de domicílios, nosso negócio é vender fixo, banda larga e televisão. Se falarmos de mobilidade, é fazer mais pré-pago, porque é uma forma de financiar a companhia, porque é algo que está no DNA da PT e da Oi, que foram pioneiros no pré-pago no Brasil e, em terceiro lugar, porque dá tempo para que arrumemos nosso canal de distribuição, de modo a podermos fazer o pós-pago com menos risco. No segmento empresarial, queremos promover a nuvem e oferecer serviços de tecnologias da informação. Às vezes na vida é preciso ir mais devagar para depois ganhar velocidade. Queremos levar a internet a todos no Brasil, mas precisamos fazê-lo quando tivermos a confiança em poder fazer isso sem assumir riscos que não possamos controlar. Queremos investir, mas fazê-lo com mais eficiência. Por que nos centrarmos só no Rio e São Paulo? Por que não no Ceará, Manaus ou Porto Alegre? Queremos investir onde possamos crescer com rentabilidade, e a Oi tem uma enorme vantagem porque está presente em 4.800 municípios. Quando você pensa no Brasil do ano 2020, os analistas acreditam que grande parte do crescimento virá das cidades de 500.000 habitantes, e nessas cidades Oi está presente.

P. Você dizia que a terceira prioridade é o crescimento...

R. Não é por ordem, são as três ao mesmo tempo. Não se pode mudar o perfil do fluxo de caixa sem crescimento, porque no nosso setor os custos fixos são muito altos. No Brasil, a TV paga pode triplicar sua penetração, e a banda larga pode duplicar. O faturamento com dados móveis são outra oportunidade, na qual a Oi está longe da concorrência. Ou os dados na internet, na nuvem. Queremos baixar custos e sermos mais produtivos. Queremos levar a penetração da banda larga, da TV paga e da internet no celular para todos. Baixar custos não é um exercício financeiro, é uma questão de competitividade, e se conseguimos baixar custos vamos transferir benefícios para nossos clientes e vamos promover a penetração da tecnologia, com a visão de que a tecnologia pode melhorar a vida das pessoas e a produtividade da economia. Essa é a visão e a paixão que temos.

P. Ao se centrarem nos custos, deixarão de lado os segmentos mais altos?

R. Há regiões e cidades onde temos infraestrutura competitiva para segmentos mais altos, e aí a liderança precisa ser em inovação e tecnologia, mas onde não temos essa capacidade queremos ter a liderança do preço. Quando falo de ser o campeão de custos estamos falando de ser low cost para poder competir com agressividade e tornar nossos serviços mais acessíveis.

P. Como a Ryanair e a Ikea?

R. A ideia é alterar a equação financeira. O preço dos nossos serviços depende do mercado, da concorrência, do valor que o cliente percebe, a margem é a rentabilidade que temos de dar aos acionistas por seu investimento, e o que sobra são os custos que você pode se permitir. Por isso temos que manter sempre uma forte disciplina de custos para preservar nossa competitividade e tornar ainda mais acessíveis os nossos serviços, para que possamos servir a cada vez mais clientes.

P. Poderia lhes interessar comprar toda ou parte da filial da Telecom Italia no Brasil?

R. A consolidação está na pauta de todos os analistas e investidores desse setor em todo o mundo, porque ela pode estabelecer um nível de rentabilidade que permita às companhias continuarem investindo no futuro. No Brasil, nós estamos centrados em terminar essa fusão que permitirá simplificar a estrutura, e a partir daí tudo será mais fácil e poderemos decidir o que for melhor para nosso futuro. Sem a fusão, é muito difícil para o Oi contemplar o que for, embora faça muito sentido.

P. Que possibilidade há de entrar em outros países da América Latina?

R. O foco está na fusão, temos muito trabalho operacional no Brasil e queremos aproveitar o valor das sinergias da fusão com a Portugal Telecom. A Oi e a PT juntas terão 100 milhões de clientes e estarão entre as 22 melhores do mundo em termos de faturamento. Em longo prazo precisará procurar oportunidades, talvez nem tanto por geografia quanto por modelo de negócio e carteira de serviços. As ideias não têm fronteiras. As autoestradas da informação criadas com a fibra matam a distância. O que precisamos são ideias criativas para continuar aumentando a relevância dos nossos serviços junto aos clientes e apoiar nosso crescimento futuro.

P. Empresas como Google e Facebook, que estão se beneficiando das redes, deveriam assumir algum custo pela infraestrutura?

R. Nossa posição foi sempre de que a colaboração entre as companhias que possuem infraestrutura e as que possuem aplicações e serviços, como essas que você cita, gera valor para ambas as partes. Não acreditamos em um modelo que tente criar obstáculos. Temos uma cultura muito mais aberta, mas em algum momento eles têm de entender que se trabalharem conosco ganhamos todos e, sobretudo, ganha o cliente final.

P. Já lhe chamaram de “Messi das telecomunicações” pelos prêmios recebidos de melhor gestor do setor. Qual é o seu segredo?

R. Prefiro o Cristiano, que partidaça ele fez contra a Suécia (risos). Adoro este negócio, adoro o que faço todos os dias. Quando estou com minhas equipes, não sabem se estou trabalhando ou me divertindo. E isso faz a diferença. Além disso, tenho uma grande equipe que me complementa muito bem e me ensina coisas novas todos os dias. Tenho uma equipe extraordinária que tem ideias criativas, e todos os dias nos sentimos desafiados a fazer mais e melhor. Eu adoro meu trabalho.

P. Como é trabalhar com um pé em cada continente?

R. Pessoalmente é difícil, mas profissionalmente estou apaixonado pelo que estamos fazendo na Oi, pela equipe que tenho e pelo sonho que todos temos de fazer da Oi uma das melhores companhias do mundo. É muito difícil, há riscos, estamos competindo com outras grandes companhias, mas temos a oportunidade de criar um dos projetos escolhidos para sobreviver em uma economia global na qual a consolidação vai ser mundial. A questão social também é importante: este setor lhe permite fazer milagres, na saúde e na educação. Quando estive em Belo Horizonte, um jovem citava o escritor brasileiro João Guimarães Rosa, e perguntava: “Quanto vale o futuro?”. Pois o futuro não tem preço. Se você é fascinado pela capacidade de usar a tecnologia para melhorar a qualidade de vida das pessoas e contribuir para o desenvolvimento econômico, este é o setor onde você quer estar. Como dizia Fernando Pessoa, as pessoas são da altura dos seus sonhos. Temos que continuar sonhando cada vez mais alto.