O Vaticano conclama a criarem bancos de DNA para combater o tráfico de crianças

A Academia Pontifícia sugere imitar o método de um médico espanhol “contratado” pelo papa Lorente adverte sobre o risco de que centenas de menores nas Filipinas caiam nas mãos de máfias

Após organizar, a pedido do papa Francisco, um seminário sobre o tráfico de seres humanos, a Academia Pontifícia de Ciências elaborou uma bateria de 41 medidas contra o que ela considera ser “um crime contra a humanidade”, e nelas incluiu a proposta do médico legista espanhol José Antonio Lorente para a criação de bancos de dados de DNA, a fim de identificar todas as crianças suscetíveis de caírem em redes de exploração sexual ou de mão-de-obra. O documento, que será enviado a autoridades, organizações não governamentais (ONGs) e dioceses, incentiva as diferentes instituições e a sociedade civil a lançarem mão de todos os meios para combater “a escravidão moderna”.

Lorente, diretor de Identificação Genética da Universidade de Granada e durante dois anos pesquisador visitante na Academia do FBI em Quantico (Virgínia, EUA), foi um dos convidados a participar desse seminário, do qual o papa queria que saísse uma pauta de trabalho para o combate ao tráfico de pessoas. O médico legista se hospedou na Casa de Santa Marta, residência de Francisco. Seu programa DNA-Prokids conseguiu reunir 620 mães aos seus filhos desaparecidos, em 16 países da Ásia e da América Latina, e evitar mais de 200 adoções ilegais, coletando amostras genéticas tanto de crianças não identificadas quanto dos pais que denunciaram o desaparecimento de seus filhos. Esse banco genético, que hoje conta com mais de 9.200 amostras, precisa de um centro de coordenação, algo que o legista gostaria que fosse assumido pelo governo espanhol. “Seriam criados muitos postos de trabalho a um custo zero, porque há muitos organismos internacionais, fundações e empresas dispostos a colocar dinheiro nisso.”

Lorente adverte que agora é especialmente importante atuar nas Filipinas. “O país sempre foi um ponto quente do tráfico de crianças, mas ainda mais depois de uma catástrofe. Em momentos como este [após o tufão Haiyan] é muito fácil que as máfias vistam uma camiseta da Cruz Vermelha e saiam com uma van recolhendo menores que ficaram órfãos pelo tufão. Por isso escrevi ao Ministério de Assuntos Exteriores para lhes sugerir que, além da ajuda humanitária, enviem ao país kits de identificação genética, para colher amostras das centenas de crianças que podem estar nessa situação.”

O documento da Agência Pontifícia exorta os governos a “criminalizar os clientes da prostituição” como forma de combater a exploração sexual, a seguir o dinheiro até chegar aos traficantes e a destinar suficientes recursos, inclusive financeiros, a todos os agentes envolvidos (políticos, juízes, polícias) no combate a essas práticas. O Vaticano pede às ONGs e à sociedade civil que criem redes de profissionais para prestar assistência gratuita às vítimas, e aos empresários que adotem regras rígidas para garantir que sua cadeia de fornecedores não esteja envolvida com trabalho escravo.