Pandemia de coronavírus

Relatório da OMS sobre covid-19 causa atrito entre China e EUA

Washington questiona conclusões da equipe internacional em Wuhan e pede uma investigação independente. Pequim acusa norte-americanos de prejudicarem a cooperação internacional

Membros da equipe da OMS que investigou na China a origem da pandemia de covid-19 chegam ao Instituto da Virologia de Wuhan, no começo de fevereiro.
Membros da equipe da OMS que investigou na China a origem da pandemia de covid-19 chegam ao Instituto da Virologia de Wuhan, no começo de fevereiro.ALY SONG / Reuters
Amanda Mars|Pomba Almoguera
Singapura / Washington - 15 fev 2021 - 17:53 UTC

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Os primeiros enfrentamentos entre a China e a nova Administração norte-americana não se fizeram esperar. Poucos dias depois da primeira conversa telefônica entre do presidente Joe Biden com seu homólogo chinês, Xi Jinping, durante a qual o primeiro repassou alguns dos assuntos que contrapõem as duas potências ― como as tensões comerciais e os abusos de Pequim à etnia uigur no nordeste da China e outras minorias ― uma nova frente se abriu: o diagnóstico sobre a origem e expansão da pandemia. E, especialmente, sobre a credibilidade que cada uma das potências confere às conclusões antecipadas pela equipe da Organização Mundial da Saúde (OMS) que a investigou em Wuhan, a cidade chinesa que registrou o primeiro foco.

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Neste domingo, o canal norte-americano CNN divulgou declarações exclusivas do chefe da delegação da OMS, o dinamarquês Peter Ben Embarek, dizendo que em dezembro de 2019 o coronavírus estava mais espalhado do que se pensava na província de Wuhan. Mas até agora o resultado mais contundente dos cientistas da OMS foi descartar como “extremamente improvável” a teoria de que o agente patogênico pode ter saído de um laboratório situado nesta cidade do centro da China, uma colocação que o ex-presidente Donald Trump defendeu sem provas no seu último ano de mandato.

Na terça-feira passada, horas depois de Embarek apresentar as primeiras conclusões das quatro semanas de investigação, que apontam como hipótese “mais provável” que o coronavírus tenha chegado às pessoas vindo de um “hospedeiro natural” após passar por uma terceira espécie, os Estados Unidos manifestaram suas reservas. A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, afirmou que a Administração de Biden pretende fazer uma revisão própria e independente dos dados reunidos no relatório da OMS, argumentando que Washington não participou do “planejamento e adoção” de uma investigação que, salientou, chega muito tarde. Pequim demorou um ano para autorizar a visita dos especialistas da OMS.

O porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, foi mais explícito e considerou que a China “não ofereceu o requisito de transparência” que os EUA exigem. Assim, ressaltou que a confiança de Washington continua depositada principalmente na informação proporcionada pelos serviços de inteligência norte-americanos e seus aliados. “Trabalharemos com nossos sócios e avaliaremos a informação reunida e analisada por nossos serviços de inteligência, em vez de nos precipitarmos e chegar a conclusões que podem derivar de motivos alheios à ciência”, acrescentou Price.

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Por sua vez, a embaixada da China em Washington divulgou nota neste domingo acusando os Estados Unidos de terem “prejudicado gravemente a cooperação internacional” no terreno sanitário. A legação chinesa insistiu que Washington deve adotar “uma postura séria, transparente e responsável para apoiar o trabalho da OMS com medidas reais” e fazer “contribuições pertinentes para a luta contra a covid-19”, embora tenha elogiado a decisão de Biden de reincorporar seu país à organização internacional, revertendo a decisão de seu antecessor.

A volta dos Estados Unidos à OMS é parte de um retorno mais amplo aos fóruns multilaterais com os quais o republicano Trump rompeu em seu mandato. Não se trata, entretanto, de uma volta acrítica. Washington vê com receio as informações sobre a pandemia oferecidas até agora pelo regime de Xi Jinping, que nos primeiros compassos da crise ocultou a gravidade do vírus.

Reação asiática

De Pequim, o porta-voz do ministério de Relações Exteriores, Wang Wenbin, tinha pedido na quarta-feira a Washington que autorizasse especialistas da OMS a fazerem uma investigação nos EUA, voltando a sugerir que o vírus pode ter surgido nesse país, uma teoria sem respaldo científico que a China defendeu em várias ocasiões desde o ano passado, paralelamente às acusações vertidas por Trump. “Esperamos que os Estados Unidos, como a China, adotem uma postura aberta e transparente e convide a OMS a proceder ali com suas investigações”, declarou Wang.

Com mais perguntas abertas que respostas, a missão da OMS em Wuhan está longe de ter servido ao objetivo chinês de desmentir sua suposta falta de transparência e acabar com as suspeitas de ter atrapalhado a viagem dos especialistas. Tampouco cumpre a intenção da OMS de rebater as críticas de ter sido muito permissiva com Pequim, sobretudo no início da crise.

As averiguações da equipe enviada a Wuhan não melhoraram a tensão entre ambas as potências, que se nutre de outros conflitos nos terrenos comercial e político prévios à chegada de Trump à Casa Branca, em 2017. A primeira conversa entre Biden e Xi depois da posse do democrata, em 20 de janeiro, aconteceu na semana passada e evidenciou que o novo presidente sente uma preocupação maior que seu antecessor pelo autoritarismo de Pequim.

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