PANDEMIA DE CORONAVÍRUS

Um em cinco hospitalizados na Espanha por covid-19 morreu, e cloroquina foi usada em 85% dos casos

Maior estudo clínico sobre a Covid-19 no país mostra que o paciente médio é um homem de 69 anos

Uma paciente é preparada para radiografia no hospital Gregorio Marañón, em Madri.
Uma paciente é preparada para radiografia no hospital Gregorio Marañón, em Madri.Carlos Rosillo

Cada vez que um paciente de covid-19 é internado, os médicos ―geralmente clínicos gerais― precisam preencher uma ficha com mais de 300 variáveis. Esses 45 minutos de burocracia por doente acabaram sendo cruciais para estudar e entender a doença. A Sociedade Espanhola de Clínica Médica (SEMI, na sigla em espanhol) publicou nesta quarta-feira um estudo preliminar, realizado com 12.200 pacientes em 150 hospitais espanhóis desde o começo da pandemia. Se somado o tempo necessário para preencher as fichas de todos esses doentes, daria um ano inteiro, usando as 24 horas do dia, sete dias por semana. A maior análise clínica já feita no país revela, entre outras coisas, que um em cada cinco hospitalizados com o coronavírus SARS-CoV-2 morreu, e um de cada três sofreu insuficiência respiratória aguda.

O estudo ainda é preliminar (foram incluídos até agora 6.424 pacientes de 109 hospitais) e falta uma revisão por parte de especialistas, mas suas conclusões devem reiterar muito do que já se sabia sobre a doença e oferecer detalhes úteis para compreendê-la. Como observa Pedro Gullón, membro da Sociedade Espanhola de Epidemiologia, é preciso levar em conta que se trata de pacientes hospitalizados, de modo que não se podem tirar conclusões sobre índices de letalidade, já que só estão sendo observados os casos mais graves. “Em todo caso, é uma boa notícia esta integração de dados de pacientes clínicos”, salienta.

Um dos aspectos que o estudo corrobora é a diferença da gravidade da doença em função da idade: entre 50 e 59 anos, morriam quatro em cada 100 hospitalizados. Entre maiores de 80, o índice subia para 42,5%, e acima de 90 passava da metade. “Em um país com tanta população idosa com comorbidades [coexistência de duas ou mais doenças em um mesmo indivíduo], isto é algo muito importante”, observa Ricardo Gómez Huelgas, presidente da SEMI e um dos signatários do estudo.

A mediana de idade dos pacientes que aparecem no estudo é de 69,1 anos. Destes, 56,9% eram homens. As comorbidades mais frequentemente detectadas são: hipertensão (50,2%), dislipidemia (um aumento da concentração plasmática de colesterol e lipídios no sangue, 39,7%) e diabetes mellitus (18,7%). Os sintomas informados à chegada do hospital são, predominantemente, febre (86,2%) e tosse (76,5%).

A maioria dos pacientes recebeu tratamento experimental contra o SARS-CoV-2. Os fármacos antivirais mais utilizados foram a hidroxicloroquina (85,7%) e o lopinavir/ritonavir (62,4%). A cloroquina foi uma das grandes esperanças contra o coronavírus, sendo aplicada nos estágios iniciais da hospitalização e incluída em um experimento maciço que a Organização Mundial da Saúde (OMS) determinou que fosse suspenso nesta semana depois da publicação de um estudo na revista The Lancet que advertia para uma associação entre a hidroxicloroquina e uma maior mortalidade.

Esse estudo analisou mais de 96.000 pacientes de 671 hospitais do mundo onde a cloroquina e sua derivada, a hidroxicloroquina, foram usadas como possível tratamento contra o coronavírus. Nenhum desses compostos mostrou benefício para os doentes hospitalizados pela covid-19, mas aumentou o risco de arritmias e morte.

Gómez Huelgas pede cautela na interpretação desse estudo. “Mostram uma associação, em nenhum caso uma relação de causa-efeito. Há no estudo uma altíssima percentagem de pacientes com ventilação mecânica, por isso pode ser que haja um viés para doentes mais graves e isso possa explicar a mortalidade. Em dados ainda muito preliminares que ainda não publicamos, não encontramos essa associação entre a hidroxicloroquina e uma maior mortalidade”, afirma.

O estudo, prossegue o presidente da SEMI, é um primeiro passo do qual partem mais de 60 pesquisas. “Estamos tentando gerar conhecimento com a experiência clínica de ter tratado muitos pacientes. Geraremos critérios evolutivos, estamos desenvolvendo uma calculadora prognóstica para poder predizer com maior segurança quais pacientes têm mais riscos de evoluir desfavoravelmente e quais a priori podem melhorar”, conclui.

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