Carteira assinada como escudo para a vida trans: “Hoje ando com o RG na testa”

Um homem e uma mulher trans contam como emprego formal os tirou da vulnerabilidade. “Para meu pai, se eu estiver trabalhando e estudando está tudo bem”, diz rapaz

Melissa Souza, 27, levou sua experiência com atendimento nas ONGs em que atuou para o dia a dia na empresa.
Melissa Souza, 27, levou sua experiência com atendimento nas ONGs em que atuou para o dia a dia na empresa.Isis Oliveira/EBANX (custom credit)

O dia 27 de novembro de 2019 foi um marco na vida de Arthur Saladino, de 24 anos. Homem trans, ele usava nome social mas não teve a possibilidade de arcar com o processo —moroso e caro— de alteração dos documentos. Saca o RG do bolso com empolgação para se certificar do dia correto da mudança, proporcionada com a ajuda da empresa em que trabalha com atendimento ao cliente. “Hoje ando com o RG na testa”, brinca. No atual emprego, seu nome social sempre foi respeitado e não existiu olhares tortos por parte de colegas. No entanto, nem sempre foi assim para ele.

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Arthur lista uma série de situações enfrentadas por ele no mercado de trabalho, como estranheza de chefes ao ver ele usar o banheiro masculino, piadas de péssimo gosto e perguntas invasivas (uma delas sobre qual era o nome civil antes da transição). O pior é que o calvário de contrangimentos encontrados por Artur no passado acontece quando pessoas como ele já conseguiram atravessar uma barreira ainda mais difícil, a de conseguir um emprego. Para além da chaga social da violência contra a população trans —em 2019, foram 124 assassinatos no país, segundo Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) e Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE)—, a empregabilidade é uma tema caro e crucial para a sobrevivência da população fora da extrema vulnerabilidade. A Antra estima que 90% acabam trabalhando na prostituição por falta de oportunidade de emprego formal.

Falta de emprego

Melissa Souza, 27 anos, conta que, até ser colega de Arthur na área de atendimento ao cliente do Ebanx, fintech de pagamentos com sede em Curitiba, ela não se via com muitas escolhas além das ruas e da prostituição. Tentou vários tipos de trabalhos quando ainda vivia em Assis, interior de São Paulo, e iniciava sua transição de gênero, há nove anos. Antes disso, trabalhou em um salão de beleza. “Tentei não cair na prostituição mas não deu certo, eu precisava comer, me vestir, e a aceitação da minha família no começo foi difícil”, diz. Morou em várias cidades até vir a Curitiba começar uma nova vida. E se aproximou da militância. Hoje é também conselheira municipal de saúde da capital paranaense.

Foi como voluntária no Transgrupo Marcela Prado (que oferece acolhimento e educação para pessoas Trans) e do Grupo Dignidade, pioneiros no Brasil na promoção da cidadania LGBTI+, que Melissa teve contato com o Ebanx em uma palestra. “Conversei com o gerente de cultura e achei que eu não tinha currículo para isso, mas ele me encorajou a mandar. Falei com um amigo que trabalha em RH para me ajudar a formatar um currículo e aconteceu. É meu primeiro emprego de carteira assinada”, conta ela, que já havia tentado vagas em outras empresas, sem sucesso.

A abertura à diversidade é uma tendência nas principais empresas do mundo, símbolo não só de melhoria de imagem como também de ganhos práticos nas corporações, como melhor desempenho em inovação, por exemplo. Mas das palavras bonitas à seleção e à prática, vai um caminho nem sempre fácil. No Ebanx, que acaba de ser tornar um unicórnio (apelido dado ao seleto grupo das startups que valem 1 bilhão de dólares ou mais), a meta, dizem seus gestores, uma política de diversidade consistente, mais do que focar apenas no processo seletivo.

Palestras com especialistas, contato com ONGs locais e oficinas gratuitas sobre montagem de currículo são algumas medidas da empresa, que tem 700 pessoas. “A diversidade está no DNA da empresa, temos um mote forte de que as pessoas sejam quem elas são de fato, e essa diversidade permeia gênero, idade, crenças e valores. E a diversidade vem com inclusão, que as empresas precisam fomentar e devem ser capazes de incluir com respeito, sem julgamentos e dando condições”, ressalta Daniele Fonseca, chefe de recursos humanos do EBANX.

Melissa conta como viveu na pele o protocolo inverso. Em uma das entrevistas que fez para trabalhar em uma companhia telefônica, sequer a chamaram pelo nome social, mesmo ela deixando claro na ficha de inscrição. “Aí levanta eu,1,80m, toda maquiada e de cílios postiços. A menina do RH travou e, meia hora depois, me ligou dizendo que a vaga tinha sido preenchida. Pois liguei de novo na empresa e falei com outra pessoa, que disse que a vaga continuava aberta. Sempre busquei deixar muito claro que sou trans, sou travesti, me amo. Para não ter nenhum estranhamento ou comoção depois”, frisa Melissa. A transparência se dá também nos relacionamentos pessoais: com o marido ela foi clara logo nos primeiros contatos. “Sempre deixei muito aberto, e ele veio de Resende (RJ) para cá. Estamos juntos há 1 ano e meio.”

Coordenadora geral do Transgrupo Marcela Prado, Karollyne Nascimento acredita que a estigmatização é o grande entrave. “A sociedade é tão desumana para nós que não conseguimos acessar o ciclo social, a família, o emprego. A prostituição e o tráfico não fazem distinção de pessoas, e na maioria das vezes é a única forma de sobrevivência, e não uma escolha”, diz Nascimento. Para ela, além da contratação, as empresas precisam entender mais as competências profissionais e pessoais da população trans. “A partir do momento que se consegue enxergar um livro pelo conteúdo e não só pela capa, pode se ter uma surpresa muito boa.”

Para Arthur, um emprego fixo e a estabilidade financeira ajudam inclusive na aceitação da família. Ele, que no início enfrentou dificuldades e teve a vida virada “de cabeça para baixo”, está em processo de reconciliação com os familiares, e atualmente vive com os pais. “Para meu pai, se eu estiver trabalhando e estudando está tudo bem” fala o rapaz, que pretende estudar marketing digital e se virou dando aulas de inglês enquanto, por um período, morou com amigos e alunos. Entre 2016 e 2017, teve internações em sete clínicas diferentes por conta do uso de drogas. “Descobrir que é trans é algo que mexe muito com o seu psicológico porque passa por uma aceitação pessoal também. Até outro dia você era menina e de repente vive algo que nunca tinha vivido”.