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As startups brasileiras que podem repetir o feito da 99: se transformar em unicórnio de 1 bi de dólares

Elas conseguiram nos últimos anos atrair grandes aportes financeiros, criaram produtos ou serviços que conquistaram alta adesão do público e não param de crescer

Startups brasileiras unicórnios
Eduardo Henrique, Cofundador e diretor de novos negócios da Movile.

No início de janeiro, o aplicativo brasileiro de transportes 99 foi comprado pela plataforma chinesa de transporte Didi Chuxing, em um negócio que o avaliou em 1 bilhão de dólares. Foi a primeira vez que uma startup brasileira foi elevada ao patamar de "unicórnio", o apelido dado ao seleto grupo das que valem 1 bilhão de dólares ou mais. No mundo, alguns unicórnios famosos incluem aplicativos como Airbnb, Snapchat, Pinterest e Spotify. O caso mais bem sucedido, no entanto, é o do Uber. A companhia possui hoje um valor de mercado de quase 70 bilhões de dólares.

Apesar da posição inédita da 99 no país, o Brasil possui atualmente outros fortes candidatos que podem alcançar o posto em pouco tempo. Três empresas despontam na frente na avaliação de especialistas: o Nubank, que criou o cartão de crédito roxinho que não cobra anuidade, a Movile, dona do aplicativos iFood e PlayKids, entre outros, e a PSafe, que oferece um aplicativo de antivírus para smartphones.

As três reúnem características comuns entre elas e difíceis de encontrar em grande parte das startups brasileiras. Elas conseguiram nos últimos anos atrair aportes financeiros altos, criaram produtos ou serviços que conquistaram uma alta adesão do público e não param de crescer.

Dinheiro e uma boa ideia são realmente uma dupla importante para as startups que esperam deslanchar, mas não são suficientes na visão do fundador do Nubank, o colombiano David Vélez. "O mais importante de tudo é a capacidade de execução. Para mim, 10% é ideia e 90% execução. E ideias complicadas são as melhores. Se você consegue fazer algo difícil tem menos concorrência, contratar pessoas interessadas no projeto fica mais fácil e captar investimento também", diz.

Vélez sabe bem o que é investir em uma ideia complicada. Quando pensou, em 2013, em criar um cartão de crédito sem tarifas, solicitado e gerido via aplicativo, não faltaram pessoas que tentaram desencorajá-lo. Como competir com os cinco grandes bancos do Brasil - que detêm 90% do sistema financeiro - era uma pergunta constante. Hoje, a fintech - nome dado pelo mercado às startups de tecnologia focada em serviços financeiros, cresce 10% ao mês, fechou 2017 com 3 milhões de clientes e, de acordo com analistas de mercado, vale cerca de 800 milhões de dólares. A startup já recebeu quatro rodadas de investimentos nos últimos anos que somaram um aporte de quase 180 milhões de dólares.

 "O nosso objetivo é chegar em 2020 com um bilhão de usuários. Essa sim é a nossa briga, com o outro unicórnio não estamos tão preocupados"

Eduardo Henrique, cofundador da Movile

Conquistar o título de unicórnio nada mais é que uma "métrica de vaidade" segundo Vélez. Sua meta é fazer com que os produtos da sua empresa consigam estar aqui nas próximas décadas. É continuar crescendo. "Mas não vou comentar muito [sobre quando a empresa deve atingir o valor de mercado de 1 bilhão de dólares] pois quem sabe já aconteceu?", diz ao EL PAÍS.

Eduardo Henrique, cofundador e diretor de novos negócios da Movile sonha com um unicórnio diferente. "O nosso objetivo é chegar em 2020 com um bilhão de usuários. Essa sim é a nossa briga, com o outro não estamos tão preocupados", diz. A meta a ser alcançada é ousada já que atualmente os serviços da Movile têm ao todo 150 milhões de usuários mensais em todo o mundo. Além do Brasil, a startup atua nos Estados Unidos, México, Argentina, Colômbia, Peru e França. Mas a empresa gosta de sonhar grande e vem colhendo frutos: nos últimos 8 anos registrou crescimento anual médio de 60%.

A startup que nasceu em 1998 cresceu fornecendo serviços para as operadoras de celular, como notícias e jovens via SMS. Mas com a queda desse tipo de mensagem, ela precisou se expandir para outras frentes. Lançou o aplicativo PlayKids (uma espécie de Netflix para crianças) e começou a investir em dezenas de startups. Entre as aquisições e fusões, estão: Sympla, Rapiddo, MapLink, Apontador e SuperPlayer. O investimento de maior visibilidade no entanto foi no iFood, aplicativo de entrega de comida em domicílio que é líder de mercado no Brasil, hoje o maior negócio da Movile, a menina dos olhos.

Evoluir para outras frentes foi uma das decisões acertadas da Movile para continuar crescendo. Segundo Vinck de Bragança, porta-voz da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), esse foi também uma das estratégias utilizadas para a 99 traçar o caminho rumo ao grupo dos unicórnios. "A 99 tinha um bom produto, em que as pessoas podiam pedir um táxi via aplicativo. Mas, logo veio o Uber, um grande concorrente, oferecendo carros particulares com um preço mais barato. Eles então tiveram a sacada de juntar as duas coisas: táxi e carros particulares, através da modalidade 99POP. Voltaram a ganhar mercado", explica.

A PSafe também evoluiu e adaptou seu modelo de negócio. A empresa de segurança no mundo de tecnologia começou apostando na plataforma Windows, mas em 2014 mudou para o Android, do Google, e aí sim começou a vingar no mercado. Hoje ela possui um escritório no Vale do Silício e conquistou um porte mundial, concorrendo com empresas chinesas.

Apesar do número de startups ter aumentado nos últimos anos - atualmente são mais de 4.200 registradas na ABStartups -, a quantidade das que sobrevivem por muito tempo ainda é pequena. De acordo com Bragança, não há dados oficiais, mas cerca de 25% delas consegue passar dos dois anos. "Para ter sucesso é preciso encontrar um produto forte com mercado forte também. Mas muitas das startups quebram porque o nível de pressão é muito grande, muitos não possuem maturidade para empreender", diz.

Na visão de Eduardo Henrique, da Movile, os empreendedores brasileiros devem expandir o mercado em outros territórios. "A Argentina, por exemplo, que não tem um mercado interno tão grande como o do Brasil pensam em expandir para o exterior mais que os brasileiros, que, muitas vezes, ficam aqui acomodados". Na avaliação de Henrique, esse foi um dos motivos que levaram o país vizinho a ter dois unicórnios - Mercado Livre e Decolar.com- muito antes que o Brasil.

O atraso brasileiro cai, entretanto, na conta de muitos outros fatores, como a burocracia para abrir uma empresa, regulações,falta de integração das universidades locais com o mercado e também o baixo incentivo do Governo nas startups. "Na China, o maior investidor de startups de tecnologia é o Governo. Há uma política de incentivo para investidores-anjo [pessoas físicas que investem seu capital próprio em empresas nascentes com alto potencial de crescimento]. Aqui as ações ainda são muito pontuais, não há uma agenda contundente", diz o cofundador da Movile.

Raio X das candidatas a unicórnio

As startups brasileiras que podem repetir o feito da 99: se transformar em unicórnio de 1 bi de dólares

Nubank

  • David Vélez, fundou em 2014, junto com Edward Wible e Cristina Juqueira, a startup baseada no uso de tecnologia, que nasceu oferecendo cartões de crédito- roxinhos - sem anuidade, sem tarifas e com taxas de juros mais baixas do que as praticadas pelo mercado brasileiro. Tudo 100% digital. O cliente abre uma conta por meio do aplicativo no celular, pede o cartão e recebe em menos de cinco dias.
  • No fim de 2017, a fintech deu o primeiro passo para se transformar em um banco e criou a NuConta. Uma conta bancária no qual o dinheiro passa a render automaticamente em uma taxa indexada aos títulos públicos, mais rentável que a poupança.
  • Funcionários: 850
  • Estimativa de valor de mercado: 800 milhões de dólares
  • Principais investidores: Sequoia Capita, Founders Fund, Tiger Glval Management e DST Global.

Movile

  • A Movile é a empresa por trás de alguns dos maiores aplicativos brasileiros: iFood, Sympla e Play Kids. A startup que foi criada em 1998 (chamava-se Compera) por Fabrício Bloisi cresceu fornecendo serviços para as operadoras de celular, como notícias e jovens via SMS.
  • Funcionários: 1.600
  • Estimativa de valor de mercado: 800 milhões de dólares
  • Principais investidores: Naspers e Innova Capital

PSafe

  • Fundada em 2011, por Maco DeMello, a Psafe oferece aplicativos de segurança usados para encontrar vírus e outras ameaças de segurança em smartphones e tablets com sistema operacional Android. Ao oferecer o aplicativo de forma gratuita, a empresa ganha dinheiro ao exibir publicidade aos usuários do serviço.
  • Estimativa de valor de mercado: 500 milhões de dólares
  • Principais investidores: Pinacle Ventures. Qihoo 360 Technology

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