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De documento a monumento: Sueli Carneiro, filósofa do contemporâneo

Sueli convence a todos nós que não basta apenas o tempo vivido como sucessão de dias e anos, mas é preciso a instauração do tempo concebido

Funcionário retira placa "Black Lives Matter St." em Seattle, EUA.
Funcionário retira placa "Black Lives Matter St." em Seattle, EUA.Elaine Thompson / AP

Escrever uma vida é fenômeno inacessível

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Ao que tudo indica, a luz que se projeta no mês de junho não jorra apenas da incandescência das fogueiras juninas. Quis o universo, por força de alguma conspiração misteriosa, que o mundo fosse agraciado com o aparecimento, em profusão, de pessoas extraordinárias: Luiz Gama, Machado de Assis, João Cândido, Lima Barreto, Elza Soares, Kabengele Munanga e Sueli Carneiro, por ordem de nascimento, estrearam no espetáculo do mundo, no mês que acaba de findar, com pompa e circunstância, para lembrar expressão machadiana.

Se uma conexão oculta é mais forte que uma evidência, como disse Heráclito, talvez estejamos mediante a um fenômeno interestelar que não foi devidamente examinado pela astrofísica. Resta a nós, pobres mortais, tentar acompanhar as aparições públicas desses vultos e, assim, flagrar, ao modo de fotógrafas, os momentos em que eles e elas reinauguraram toda a humanidade, saíram do registro das ocorrências e ganharam permanências. 

Nada mais propício para essa tarefa do que pinçar desse mar de pérolas negras a caçula da turma, Sueli Carneiro, que completou 70 anos neste junho de 2020. Celebrar a vida de uma das principais referências do feminismo negro em um ano inegavelmente avariado, demasiadamente estranho, representa uma lufada adicional de oxigênio, de alento e de esperança; compreende uma renovação das nossas lutas, corresponde renunciar às distopias, que tenta engolfar a todos, e caminhar em direção às utopias das quais ela é portadora.

Além da covid-19, o assassinato brutal de George Floyd desenhou para o mundo a condição de asfixia universal a que os negros e extensivamente todos os corpos precarizados estão submetidos. A propósito, o doído e revoltante “Eu não posso respirar”, pronunciado por Floyd e escutado em todo o planeta, converteu-se em lema de todos aqueles que morrem asfixiados por múltiplos motivos. A passagem dos 70 anos de Sueli neste cenário infausto organiza e dá sentido ao calendário do presente, reacende em cada um de nós a imaginação política. Tornou-se proverbial a afirmação de Frederic Jameson, que pode ser mencionada nos seguintes termos: em tempos de crise é mais fácil a gente acionar a imaginação científica para pensar o fim do mundo do que reativar a imaginação política para pensar o fim do capitalismo. Pois bem, Sueli tem energia para imaginar não o fim do mundo, mas a construção de outro mundo, livre de opressões de quaisquer

Aparecida Sueli Carneiro, feminista, combatente aguerrida do racismo, filósofa, pensadora de altíssima envergadura, amante de futebol e da bossa nova, nasce em 23 de junho de 1950, com registro civil no 24. Entre os significados do nome, os dicionários nos dizem que Sueli tem raiz germânica e quer dizer brilho, luz. O seu nascimento ocorre num tempo de mudanças paradigmáticas em que o Brasil aspirava a ser um país industrializado, urbano. com aspirações modernizantes. Em seu perfil biográfico, assinalo: 

Época efervescente a do nascimento e da infância de Sueli. O Brasil convivia com a volta de Getúlio Vargas ao poder. Com a ascensão do movimento de massa, o populismo ficava mais vigoroso, o projeto de modernização, em marcha, tornava-se irreversível; desmoronava-se cada vez mais a imagem agrícola e rural do país e delineavam-se os traços mais precisos de uma fisionomia industrial e urbana. O mundo se surpreendia com a recusa determinante de Rosa Parks de sentar-se nos lugares reservados para negros, já provocava fortes ruídos o altissonante movimento feminista americano. Entre a euforia das mudanças e a aposta na reconfiguração de um outro país, sofríamos um duro golpe: o Brasil perdia a Copa do Mundo de 1950. Mas nem tudo estava perdido: preparavam-se os acordes para a entrada em cena da bossa, gênero musical de que Sueli tanto gosta. A televisão, um dos símbolos da opulência dai indústria cultura na época,se instala irrevogavelmente nos lares

Os nascidos nessa época alcançaram a juventude no período designado como um clarão na história da humanidade, a década de 60, o que fez dessa geração porta-voz de um outro projeto de mundo. Havia um mal-estar difuso em que jovens de diversas partes do planeta sentiam na pele que o cenário edulcorado, feérico, da prosperidade capitalista do pós-guerra tinha ficado para as calendas gregas. Adicionalmente, podemos dizer que já havia manifestações discursivas que qualificavam o debate em torno de um projeto efetivamente emancipador a partir da questão racial negra. Na letra psicanalítica, alguns faróis do ativismo e do pensamento negro brasileiro, insistiam na ideia segundo a qual sem elaborar os traumas do passado, o Brasil estava condenado a conviver com os sintomas no presente.

Com a geração de Sueli, aprendemos que a revolução proletária tinha deixado de ser a única capaz de promover a mudança necessária, e que subjetividades e desejos convertiam-se em plataforma inescusável de confrontação do capitalismo. Para Hanna Arendt, essa geração devia ser sempre lembrada pela sua determinação para agir, sua alegria em agir e a certeza de poder mudar as coisas pelos seus próprios esforços. Esforços por vezes heróicos em que a vida foi posta a serviço da luta.

Embora seja nesse período que Sueli começa a colecionar referências capazes de lhe oferecer bússolas de como se pôr no mundo em um futuro próximo, note-se, entretanto, que ela já demonstrara bem antes inclinação para o combate tanto no ambiente familiar quanto na comunidade em que vivia. Incursões no mundo privado e na vizinhança geográfica espelhavam os trejeitos de alguém vocacionada para trabalhar com intensidade febril em muitas frentes para realocar, em justiça e dignidade, negros e negras nos lugares que lhes cabem. 

Uma vez que não avançarei biograficamente na trajetória de Sueli Carneiro, espero ter dito o suficiente para tecer avaliações, em espírito de síntese, que demonstrem o porquê sua existência marca a entrada em cena de algo que se reputa como inaugural. Venho insistindo que uma das nossas mais novas septuagenárias já pode ser chamada de monumento, não apenas pelo ingresso no mundo dos griots, mas pelo que construiu e o que dessa construção frutificou para a emergência do novo e da emancipação. Legatária dos nossos principais expoentes, torna-se um deles, reelaborando as antecedências e oferecendo algo que podemos designar como dela. Manufatura pelas vozes que a habitam formas-de-vida onde se avista o inconformismo com o já dado e o deslocamento para o que pode ser. É um porvir onde a justiça, a emancipação e a liberdade encontram abrigo na sua vida em decorrência das batalhas que trava no e com o contemporâneo.

De documento a monumento: o reconhecimento legítimo

Numa ambiência fortemente marcada pela insurgência antirracista, que alcançou patamares inéditos com o assassinato de George Floyd, o questionamento acerbo em torno da permanência de monumentos racistas na paisagem contemporânea ressurge como ato político incontornável. Ganham impulso renovado antigos debates que giram em torno do par conservação-destruição, o que nos leva a indagar: O que alça alguém a condição de monumento? Quais as credenciais necessárias para que determinados nomes sejam inscritos na lápide da memória coletiva? 

Apelo às reflexões do historiador Jacques Le Goff, para quem a memória coletiva se constrói por meio de dois tipos de materiais, documento e monumento, usualmente vistos pela historiografia como se entidades distintas fossem. Ao primeiro costuma-se atribuir o caráter de prova, de objetividade, de testemunho histórico que se institui como matéria-prima dos historiadores; ao passo que ao segundo empresta-se o sentido da intencionalidade, da escolha, normalmente arbitrária, imposta por injunções políticas de cada tempo. O monumento prescindiria, assim, da essência comprobatória que delineia o documento. 

Na contramão dessa oposição conceitual, Le Goff vai insistir que todo documento é monumento, porque resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro, voluntária ou involuntariamente, determinada imagem de si próprias. 

A trajetória de Sueli Carneiro edifica uma vontade de memória sobre as mulheres negras e todos aqueles que lutam por equidade, deixando um ensinamento fundamental: um monumento se ergue pela legitimidade que ele encerra, “uma vez que o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores”. (Le Goff). Um monumento faz recordar, perpetuando o que do passado deve permanecer.

Do alto de seus 70 anos, Sueli Carneiro tira a poeira do binômino documento-monumento e, assim, renova outro par conceitual caro para certa tradição ético-política: legalidade-legitimidade. O filósofo Giorgio Agamben examinou os dois termos sob o crivo do poder institucional. Para ele, “as tentativas insuficientes da Modernidade de fazer coincidir legalidade e legitimidade, procurando assegurar a legitimidade de um poder pelo tradicional direito positivo, deu como resultado o incontornável processo de decadência no qual entraram nossas instituições democráticas.”

Sueli, enquanto instituição, efeito de significante, ergue-se como monumento, prescindindo da comprovação do documento, de um testemunho histórico que depende da legalidade para certificá-la, que diz o que pode ou não pode figurar no comum do mundo por meio de operações do poder. Na condição de descendente de escravizados, sabe bem que o dispositivo legal se prestou para tornar legítimo o absolutamente ilegítimo (as barbáries, com a escravidão à frente, estão aí para demonstrar o que acontece quando se faz coincidir legalidade com legitimidade: nazismos, fascismos, golpes jurídicos-parlamentares do século XXI...

Não estamos saindo bonitos na foto: filósofa do contemporâneo

A descrição abreviadíssima que fiz de Sueli Carneio, linhas acima, nos coloca frente a uma mulher inquieta com o seu tempo, que flagra a persistência de um passado que não passa, plúmbeo e reiterativo. A aniversariante do ano colabora para bordar o manto do mundo, recusando em absoluto ingressar na moldura já posta. Para gestar o futuro, é preciso enfrentar o presente. Aliás, o ingresso das mulheres negras no exercício do pensamento e da ação foi sempre um acerto de contas  com as temporalidades que se sobrepõem. Lélia Gonzalez, Angela Davis, Beatriz Nascimento,Maria Carolina de Jesus, Patrícia Hill Collins, Octavia Butler, Valdecir Nascimento, bell hooks, Jurema Werneck, Matilde Ribeiro, Conceição Evaristo, entre tantas outras, vão construindo histórias que preparam uma sociedade emancipada. 

Sueli põe em relevo o postulado segundo o qual é preciso (re)organizar a história em momentos de perigo. Assim como em outras etapas de sua trajetória, este século (não esqueçamos: seculum significa tempo da vida) carrega indisfarçavelmente o traço da ameaça e da perda. Carlos Drummond de Andrade fez uma síntese que, sem o perigo do anacronismo, se adequa ao nosso tempo: “Esse tempo de partido/ Tempo de homens partidos. Visito os fatos, não te encontro. Calo-me, espero, decifro/ As coisas talvez melhorem”. 

Tempo de homens partidos, para Drummond, que alcança a fratura do contemporâneo de Giorgio Agamben, aqui já referido: “o dorso do contemporâneo está fraturado e nós nos mantemos exatamente no ponto de fratura”. Recuperando um dos contornos do perfil de Sueli Carneiro, revelador de uma mulher que vai se formando a partir dos inconformismos com o seu entorno, com o mundo e com um tipo de vida que somos obrigadas a viver, ouvimos o eco de sua voz que se levanta pela reabilitação do nosso tempo. 

Para tal tarefa, apodera-se de um arsenal que vai da reflexão filosófica à inscrição na aventura concreta das lutas cotidianas o que, por conseguinte, requer uma espécie de compreensão e experiência algo afastadas de uma gramática política oxidada e de formas monolíticas do pensamento. 

Irrevogavelmente, estamos lidando com uma ativista que se converte em filósofa do contemporâneo, porque “mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas  a obscuridade. O contemporâneo nunca se deixa cegar pelas luzes do século, o seu compromisso é com as sombras do presente. Os contemporâneos são raros. É uma questão de coragem.” 

Ser contemporâneo não é ser niilista, pessimista, é, antes, acreditar na vida de tal sorte que deseja ver a expansão de suas possibilidades emancipatórias, é apostar sempre no melhor, aqui e agora. Ser contemporâneo é engajar-se criticamente no mundo como ele é, negando-o, para positivá-lo; é manejar as melhores ferramentas para a luta que se trava em todas as esferas da vida. 

A crítica ácida que um George Lukács faz dos pensadores da Escola de Frankfurt jamais poderá ser endereçada a Sueli Carneiro. Lukács afirmava que esses teóricos moravam no grande hotel abismo de onde avistavam da janela dos seus quartos a irrefreável queda da civilização ocidental. O apego excessivo pela crítica e pela negatividade daqueles pensadores tornou-se um obstáculo para a participação efetiva na sociedade de seu tempo. Theodor Andorno, um dos nomes mais proeminentes da Escola, costumava retrucar que não imaginava que as pessoas fossem usar sua teoria com coquetel molotov. É evidente que há nisso tudo o risco da caricatura, mas ouso dizer que os frankfurtianos foram filósofos contemporâneos, mas não do contemporâneo. 

Do ponto de vista filosófico, Sueli está profundamente mergulhada na nossa temporalidade porque ao ver as sombras, a obscuridade, não cede ao cerco do derrotismo (é preciso reconhecer as derrotas sem ser derrotado). Herdeira da geração que soube amar a vida, lutar por ela e com ela, nos oferece um plano de ação, calcado no livre e belo pensar, na ação militante consequente e eficaz, que impede ou dificulta o fluxo dos vestígios marcados pela repetição (do patriarcado, do racismo, do sexismo, da homofobia....). Reinstaura, assim, uma filosofia da existência porque responde com maestria a um dos questionamentos mais lindos e profundos que se tem notícia. A beleza vem da poesia de Caetano Veloso: Existirmos: a que será que se destina? Pois quando tu me deste a rosa pequenina. Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina. Do menino infeliz não se nos ilumina. Tampouco turva-se a lágrima nordestina. (Cajuína)

Escrevo este texto ouvindo repetidamente Cajuína e me vem à cabeça que, em sendo filósofa do contemporâneo, Sueli convence a todos nós que não basta apenas o tempo vivido como sucessão de dias e anos, mas é preciso a instauração do tempo concebido, esse que tomamos pra gente e que cada um  modela e remodela  a seu modo, tentando fazer com que “as coisas talvez melhorem”, como disse Drummond. Entre tantas possíveis, acho que essa é a resposta que ela dá à obra-prima de Caetano Veloso. Entre Cajuína e Sueli Carneiro, testemunhamos um debate de altíssimo nível. Uma interlocução que só pode acontecer num circuito tracejado por monumentos. 

PS: Esse texto é um fragmento minúsculo do livro Achille Mbembe e Sueli Carneiro: filósofos das epistemologias emergentes, de minha autoria, que será publicado em outubro pela Fundação Rosa Luxemburgo. Junta-se às iniciativas que se perfilam para comemorar os 70 anos de Sueli Carneiro.

Rosane Borges é jornalista, professora pesquisadora do Colabor (ECA-USP), integrante da Comunidade Reiventando a Educação. Autora de diversos livros, entre eles o perfil biográfico de Sueli Carneiro (2009), publicado pela Editora Summus (Selo Negro).


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