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“Odeio o termo povos indígenas”: uma blasfêmia em dois atos

Não consigo entender que Weintraub, que é de origem judaica, possa usar expressões que recordam o ódio de Hitler e de seus ministros ao povo judeu

Indígena satere-mawe protesta em Manaus em 12 de junho para que os povos nativos com covid-19 sejam atendidos de forma adequada.
Indígena satere-mawe protesta em Manaus em 12 de junho para que os povos nativos com covid-19 sejam atendidos de forma adequada.Raphael Alves / EFE
Erwin Kräutler
Altamira (PA) - 16 jun 2020 - 22:01 UTC

Quem vai esquecer a reunião ministerial do 22 de abril? Graças à liberação de um vídeo que cobriu toda a reunião, pudemos assistir a uma sessão do Governo que atualmente gerencia a res publica (a coisa pública, daí a palavra República) de nosso país. Se crianças ou adolescentes pronunciassem um dos 29 palavrões proferidos na ocasião, levariam uma advertência em casa ou na escola. Falta completa de educação e civilidade no mais alto escalão do executivo do Brasil. Presidente e ministros perderam vergonhosamente a compostura que se espera de pessoas que ocupam cargos tão elevados.

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O que mais me revoltou, porém, além da proposta descarada do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de aproveitar o tempo de pandemia para “ir passando a boiada” na Amazônia, foi o espantoso aporte do ministro da Educação Abraham Weintraub: “Esse país não é [uma colônia]. Odeio o termo povos indígenas, odeio esse termo”. Não consigo entender que Weintraub, que é de origem judaica, possa usar expressões que recordam o ódio de Hitler e de seus ministros ao povo judeu. A consequência desse ódio foi a Shoah, o holocausto que ceifou a vida de seis milhões de judeus, além de homossexuais, ciganos e deficientes.

Ouvir da boca de um ministro da Educação essas palavras prova mais uma vez o curso anti-indígena desse governo, que se alinha perfeitamente à famigerada expressão do general americano Philip Sheridan (1831 – 1888): "The only good indian is a dead indian” (O único índio bom é um índio morto). Já que tudo o que Donald Trump pensa e fala inspira o governo Bolsonaro nas suas atitudes e tomadas de posição, não é de se admirar que um ministro desse governo siga essa sentença que, na segunda metade do século 19, se tornou provérbio nos Estados Unidos e tem como pano de fundo o genocídio de milhões de indígenas durante a conquista do oeste norte-americano.

Na coleção de descarrilamentos do ministro da Educação, cuja falta de educação já criou incidentes diplomáticos com o presidente da França e a China, essa agressão explícita contra os povos indígenas do Brasil só teria enriquecido a biografia de um agente político desprezível se não tivesse ainda outra cena abominável e blasfema, que agora conspurca a face da nossa Igreja Católica.

A revista Veja publicou na sua coluna Radar, de 7 de junho, uma foto que retrata a visita, dois dias antes, de um grupo que se diz católico, capitaneado pelo padre polonês Pedro Stepien. As integrantes e os integrantes deste grupo já são famosos devido ao seu frequente comparecimento, juntamente com o mesmo sacerdote, à frente do Palácio da Alvorada, para prestar culto ao messias. Desta feita, porém, foram ao gabinete do ministro da Educação Abraham Weintraub para “confortá-lo” depois de “uma semana tão desgastante” para ele. “Oraram pelo momento delicado do ministro”, comenta a revista. Dessa iniciativa só se pode tirar a conclusão de que os visitantes consoladores apoiam as teses do ministro e assumem assim uma posição diametralmente oposta à do Papa Francisco e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. E quem se coloca contra o Papa já perdeu a catolicidade.

Mas a história não termina aqui. O padre levou uma imagem de Nossa Senhora de Fátima ao gabinete do ministro e, ostentando a estátua, posou sorrindo ao lado de um Weintraub aparentemente comovido e também sorridente. O que queria esse padre com essa encenação? Que relação esse ministro teria com Nossa Senhora de Fátima e sua mensagem aos pastorinhos na Cova da Iria, em Portugal, no ano de 1917?

O padre demonstra que não conhece a história da América Indígena e do papel de Nossa Senhora junto aos povos originários. Certamente nunca ouviu falar que ela apareceu já em 1531 a um indígena de nome Juan Diego, canonizado inclusive pelo papa polonês, e disse a ele: “Eu sou a vossa Mãe bondosa, tua e de todos vós que viveis unidos nesta terra e dos outros povos, que me amem, que me invoquem, me procurem e confiem em mim; escutarei o seu pranto, as suas tristezas, para remediar e curar todas as suas penas, misérias e dores. Não se perturbe o teu coração. Acaso não estás sob a minha proteção e amparo? Não estás no meu regaço e entre os meus braços?”.

Nossa Senhora se colocou ao lado e no meio dos povos indígenas e isso não apenas através de palavras carinhosas. A imagem milagrosa fala por si mesma. Mostra a Virgem Maria numa túnica usada pelas mulheres astecas para dizer que ela é Mãe dos astecas e de todos os indígenas. Ela pertence a esses povos tão sofridos e machucados e se solidariza assumindo feições indígenas. Acima da cintura há o laço que as indígenas usavam para indicar que estavam grávidas. E o filho de mãe indígena é indígena! Os raios de sol que circundam a mãe indígena simbolizam que ela está grávida de um Filho Divino.

Porque esse padre não levou a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe para o gabinete do ministro, para ensinar-lhe quem Deus ama com um carinho todo especial a ponto de a Mãe de seu Filho assumir traços indígenas? Talvez o ministro e junto com ele o padre e seus correligionários teriam se dado conta de que odiar os povos indígenas é odiar a Mãe de Deus e o seu Filho Jesus, nosso Senhor.

Erwin Kräutler é bispo emérito do Xingu e coordenador da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) - Brasil

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