Sem colo, sem abraços. Como é ter um filho em meio ao isolamento

Uma semana após o nascimento de Antônio, a OMS declarou que o mundo enfrentava uma pandemia, e visitas deixaram de ser algo seguro para a saúde pública. Leia depoimento

Parto gravado em Fort Worth, no Texas, em meio a pandemia de coronavírus.
Parto gravado em Fort Worth, no Texas, em meio a pandemia de coronavírus.CALLAGHAN O'HARE / Reuters
Sílvia Amélia de Araújo

Escolhi ter o meu filho mil quilômetros longe de casa. Moro com meu marido no interior de Goiás, mas planejamos que Antônio nasceria em Belo Horizonte para estarmos perto de boa parte de nossos amigos e familiares. Como pais de primeira viagem, concluímos que a proximidade física de pessoas queridas, como minha irmã, nos daria segurança nesse momento.

Denise nos levou até a maternidade e conheceu meu filho ainda na sala de parto, no dia 4 de março. Minutos após nascer, ele já estava no colo da tia. Mas um mês depois, antes de viajarmos de volta para casa, eu me despedi da minha irmã sem dar nenhum abraço. E ela não pegou o sobrinho no colo.

Nós nos olhamos a distância na garagem de sua casa. O carro foi saindo, eu dei tchau e percebi que ela chorava ao lado dos meus sobrinhos, Ana Clara e Francisco (11 e 8 anos), assustados com a estranheza desse encontro sem dengos nem cafunés.

Pessoas muito próximas nem sequer chegaram a conhecer meu filho. Mesmo estando na mesma cidade. Uma semana após o nascimento de Antônio, a Organização Mundial da Saúde declarou que o mundo enfrentava uma pandemia. Assim que me ajustei à nova rotina e me senti pronta para apresentar a pessoas tão importantes pra mim o meu neném fofo, visitas deixaram de ser algo seguro para a saúde pública.

Risco

No teste do pezinho do Antônio, com cinco dias de vida, me assustei com o posto de saúde umas quatro vezes mais cheio do que o costume, quando o frequentava no fim do meu pré-natal. A primeira consulta com pediatra, com 12 dias (deveria ser sete, mas passamos um tempo perdidos sobre o que fazer), nós decidimos marcar em um consultório particular para não ter que retornar ao posto lotado.

Eu também deveria me consultar após o parto. Uma semana depois de parir, todas as puérperas devem passar por avaliação obstétrica. Mas fiquei indecisa entre o risco de sair de casa para me consultar e o risco de não fazer esse importante acompanhamento. No momento em que a gente debatia o assunto, apareceu na televisão um anúncio do Ministério da Saúde alertando para não ir a hospital ou posto de saúde se não fosse imprescindível, para evitar se contaminar e para não ocupar o lugar de um caso urgente. Desisti da consulta.

Depois, em uma das coletivas de imprensa, quando o número de mortos ainda estava em 299 pessoas no país —hoje passam de 4.000—, o ministro da Saúde mostrou um gráfico que indicava que duas dessas mortes eram de puérperas. Fiquei pensando nesses bebês, da idade do meu, que não terão o colinho de suas mães.

Desde o início de abril, as mulheres que como eu pariram a menos de 45 dias, assim como as grávidas, passaram a ser tratadas como grupo de risco. E a recomendação atual, portanto, é de não faltar a consultas médicas.

Despedida

Planejei por muito tempo uma pequena festa. Minha ideia era reunir alguns parentes e amigos próximos quando Antônio completasse um mês e a gente fosse se despedir antes de retornar a Goiás. Seria um momento alegre e emocionante. Minha mãe, que mora no interior de Minas e só conheceu o neto nos primeiros dias, iria nos ver. Também um amigo e uma amiga, que moram no Rio de Janeiro, viajariam até Belo Horizonte para conhecer Antônio.

Seria na casa da minha irmã. Estava tudo certo. Só deixei para decidir mais em cima da hora se serviria torta de abacaxi com coco ou de chocolate aerado.

Mas não teve torta, não teve encontro, não teve colo, não teve abraços. O retorno foi decidido às pressas. De repente não tinha mais nenhum voo direto de Belo Horizonte para Goiânia. Os voos restantes fariam escala em São Paulo, Estado mais infectado até o momento. Não quisemos correr esse risco. Ao mesmo tempo, o governador do Estado de Goiás anunciou que fecharia também as rodoviárias.

Um dia antes de Antônio completar um mês (tempo mínimo que a pediatra determinou para ele viajar), partimos de carro, depois do adeus à distância para minha irmã e sobrinhos. Fomos eu, meu marido, nosso bebê e meu cunhado, que é mais experiente em dirigir em estrada.

Já estamos há duas semanas em nossa casa na Cidade de Goiás, isolados. Leandro, um amigo nosso daqui, entregou no portão uma tupperware com esfihas que sua esposa, a Lara, preparou pra gente. Meses atrás eles e seus três filhos receberam eufóricos a notícia de que eu estava grávida. Nós nos abraçamos muito! Agora só acenei de longe. Eles não conheceram Antônio, não sei quando irão conhecer. Também não sei quando minha mãe poderá vir nos visitar, quantas fases dele ela irá perder.

Meu filho é amado por muita gente que ele desconhece. Penso em como seus olhinhos vão brilhar ao descobrir que o mundo é cheio de pessoas, e que até existem outros bebês como ele. Crianças nascidas na pandemia.

Sílvia Amélia de Araújo é jornalista e produtora cultural. Mineira, vive na cidade de Goiás há cinco anos. Antes, morou em São Paulo, onde foi colunista e editora de comportamento da revista Gloss (ed. Abril)

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