Israel

Naftali Bennett, a incógnita de um reunificador de origem extremista em Israel

Novo primeiro-ministro procede da direita nacionalista, mas exerceu uma gestão pragmática como ministro

O primeiro-ministro Naftali Bennett (à esquerda), o presidente Reuven Rivlin e o ministro de Relações Exteriores, Yair Lapid, na segunda-feira em Jerusalém.
O primeiro-ministro Naftali Bennett (à esquerda), o presidente Reuven Rivlin e o ministro de Relações Exteriores, Yair Lapid, na segunda-feira em Jerusalém.EMMANUEL DUNAND / AFP

Mais informações

Ninguém esperava em Israel ver algum dia Naftali Bennett sentado no assento do primeiro-ministro no Knesset (Parlamento). Situado na órbita mais extremista do bloco de Benjamin Netanyahu, a quem costumava ultrapassar pela direita com um discurso radical, ocupou cinco pastas em sucessivos Gabinetes de coalizão desde que entrou na Câmara, há apenas oito anos, à frente de uma força minoritária.

Com somente sete assentos na conta do seu partido Yamina (direita radical nacionalista e religiosa), ele soube se colocar como o fiel da balança e árbitro imprescindível do poder, cortejado tanto por Netanyahu como pelo líder do bloco de oposição, o centrista Yair Lapid.

Ambos lhe ofereceram a possibilidade de dirigir conjuntamente o Governo através de um rodízio no cargo, mas o segundo foi ainda mais generoso ao lhe ceder a vez inicial. Lapid, além disso, era seu “irmão” desde que ambos estiveram juntos no Executivo, entre 2013 e 2015, e lhe inspirava muito mais confiança do que o primeiro-ministro interino, célebre por descumprir sistematicamente os acordos com seus sócios.

Aos 49 anos, Bennett encarna a imagem do ideal de vencedor na sociedade israelense. Foi um jovem militar em uma prestigiosa unidade de operações especiais que operava atrás das fileiras inimigas, bem-sucedido empreendedor do setor tecnológico (que o transformou em multimilionário em Nova York em 2005), e agora o novo chefe do Governo, o segundo mais jovem na história do país, justamente depois de Netanyahu ―seu mentor político até que a criatura decidiu apear o criador do cargo. Entre 2006 e 2008, o líder do Likud chamou Bennett para comandar seu gabinete interno, então na oposição.

Bennett logo alçou voo próprio ―mais à direita, claro―, como chefe do Conselho Yesh, principal organização dos assentamentos israelenses na Cisjordânia. “Enquanto estiver nas minhas mãos e eu tiver o poder e a capacidade de controle, não cederei nem um centímetro da Terra de Israel [um conceito no qual ele inclui Jerusalém Oriental e a Cisjordânia]”, proclamou em fevereiro passado, durante a última das quatro campanhas eleitorais ocorridas em Israel desde 2019. “Nunca existiu um Estado palestino”, reitera frequentemente em suas intervenções.

Mas Bennett nunca foi um colono no alto de morro árido da Judeia e Samaria (denominações bíblicas da Cisjordânia), preferindo viver em Raanana. Afirma, aliás, que continuará com a esposa e os quatro filhos na sua moradia desse próspero subúrbio ao norte de Tel Aviv. Não pretende viver na residência oficial da rua Balfour, em Jerusalém, onde Netanyahu reinou durante os últimos 12 anos junto com sua influente e polêmica esposa, Sara, e seu primogênito, Yair, flagelo dos opositores nas redes sociais.

O homem que vai dirigir o Governo na primeira metade da legislatura, à frente de uma ampla e heterogênea coalizão em que pela primeira vez figura um partido árabe, é uma incógnita para muitos em Israel e um grande desconhecido no exterior. Seu discurso nacionalista com matizes messiânicos e frontalmente antipalestino― sugeriu a instauração da pena de morte para os terroristas―coincidiu com o exercício de uma gestão pragmática nos ministérios de Economia, Educação e Defesa. Desse último departamento ele dirigiu parte da estratégia do Governo para frear a propagação da pandemia de coronavírus.

Sociedade polarizada

Na polarizada sociedade de castas de Israel, de tribos irreconciliáveis na aparência, Bennett se apresenta agora como um líder reunificador depois do fim da divisora era de Netanyahu, de 71 anos. Ao mesmo tempo, sua posse marca uma substituição geracional no poder, junto com seu aliado Lapid, de 57 anos. Ambos viveram sua juventude depois da Guerra dos Seis Dias, que definiu em 1967 a hegemonia militar regional de Israel, e alcançaram a maturidade quando o país se transformou também em potência econômica e tecnológica.

A carreira política do novo primeiro-ministro foi salpicada, no entanto, por contínuas guinadas ―tachadas de oportunistas por seus rivais―e alianças conjunturais com partidos de colonos, ultradireitistas ou sionistas religiosos. Mas tanto o religioso Bennett como sua principal assessora e nova ministra de Interior, a laica Ayelet Shaked, tratam de fugir do extremismo e mostrar uma gestão eficaz.

Presidir um Gabinete junto com centristas reformistas, trabalhistas, pacifistas e até com políticos muçulmanos tem tudo para ser um salto mortal, de imprevisível duração, em sua carreira política. Todos estarão ideologicamente à sua esquerda na mesa do Conselho de Ministros.

Nascido em Haifa (ao norte do Estado judaico), no seio de uma família judia que emigrou dos Estados Unidos, Bennett simboliza as contradições do Israel contemporâneo como judeu ortodoxo de rito moderno, que se mostra ao mesmo tempo tolerante frente à diversidade sexual. Desde que entrou para o Knesset, ele tem sido quase sempre um aliado menor no bloco conservador de Netanyahu, que eventualmente tentou fagocitar seu eleitorado. Inclusive conseguiu deixá-lo de fora da Câmara legislativa nas eleições de abril de 2019, até que conseguiu recuperar sua bancada no pleito de setembro do mesmo ano.

Seu veto à convocação de uma nova eleição, que seria a quinta desde 2019 ―uma estratégia que favorecia Netanyahu para se manter a salvo do seu julgamento por corrupção― foi decisiva para aceitar a oferta do anterior bloco opositor de encabeçar um Executivo de coalizão ampla. O centrista laico Lapid, que o substituirá no leme do poder dentro de dois anos, com direito de veto segundo os pactos assinados entre oito partidos, é o verdadeiro pai do “Governo da mudança” que liquidou Netanyahu após 12 anos de mandatos.

Bennett terá que demonstrar agora seu aspecto como primeiro mandatário da história israelense que cobre sua cabeça com kipá (minúsculo, no seu caso) e como falcão ultranacionalista ao qual Washington e Bruxelas pedem que freie a expansão dos assentamentos.

Apoie a produção de notícias como esta. Assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$

Clique aqui

Marcha judaica na Cidade Velha

Netanyahu seguiu os passos de seu aliado norte-americano Donald Trump e se negou a participar na segunda-feira de uma cerimônia oficial de transferência de poderes ao seu sucessor, como é tradição em Israel. O líder conservador esteve, entretanto, numa reunião a portas fechadas com Bennett na sede da chefia do Governo para lhe informar sobre decisões pendentes. O encontro deveria durar mais de uma hora, mas Netanyahu deixou o prédio quando não haviam transcorrido nem 30 minutos.

O agora ex-primeiro-ministro disse também, em uma reunião do seu Likud com os sócios ultraortodoxos e de extrema direita que o novo Gabinete israelense é sustentado “pelo ódio, o sectarismo e o afã de poder”. “Quase não tem margem de manobra e vai cair antes do ser criado”, anteviu ele falando aos 53 deputados que integram o bloco da direita, agora na oposição. A coalizão governamental obteve no domingo uma apertada maioria de 60 votos entre os 120 deputados que compõem o Knesset.

Em uma de suas primeiras decisões, o Governo Bennett aprovou o percurso de uma polêmica marcha nacionalista judaica pela Cidade Velha de Jerusalém. Em princípio, o desfile de extremistas e grupos de colonos com bandeiras israelenses nesta terça-feira não atravessará o bairro muçulmano em seu percurso até o Muro das Lamentações, como em anos anteriores, mas o tangenciará na emblemática Porta de Damasco.

O Exército mobilizou várias baterias do sistema de defesa antimísseis Cúpula de Ferro em Jerusalém por causa da ameaça do Hamas de disparar foguetes se a passeata nacionalista seguir seu curso nas imediações da mesquita de Al Aqsa. Em 10 de maio, esse desfile já havia sido suspenso por causa do disparo de foguetes de Gaza contra Jerusalém, uma ação que desencadeou uma escalada bélica de 11 dias.

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Arquivado Em:

Mais informações

Pode te interessar

O mais visto em ...

Top 50