Belarus

A universidade que Lukashenko exilou de Belarus

Universidade Europeia de Humanidades, onde estudava Sofia Sapega, detida em Minsk junto ao ativista Protasevich, se transferiu para a Lituânia depois do fechamento de seu campus no país

Jornalistas posam na quinta-feira na localidade lituana de Salcininkai com imagens de repórteres bielorrussos detidos.
Jornalistas posam na quinta-feira na localidade lituana de Salcininkai com imagens de repórteres bielorrussos detidos.PETRAS MALUKAS / AFP
Vilna (Enviada especial) - 01 jun 2021 - 12:59 UTC

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“Se seguirmos reto por ali, chegamos a Belarus”, diz Maksimas Milta, diretor de comunicação da Universidade Europeia de Humanidades (UEH), apontando para um dos muros que cercam o pátio do antigo monastério agostiniano, no coração do magnífico casco antigo de Vilna, que serve de sede a esta instituição educativa bielorrussa, exilada há quase duas décadas na capital da vizinha Lituânia. Professores e alunos foram obrigados a se mudar depois que, em 2004, o autoritário líder bielorrusso, Aleksandr Lukashenko, ordenou o fechamento da instituição em Minsk, coincidindo com a entrada da vizinha república báltica na União Europeia. Aqui estudava Sofia Sapega, namorada do jornalista dissidente Roman Protasevich. Ambos foram detidos em 23 de maio, depois que o avião da Ryanair onde viajavam de Atenas a Vilna foi obrigado pelas autoridades de Belarus a fazer um pouso de emergência em Minsk.

A UEH é em si mesma uma metáfora do longo fluxo de dissidentes ―políticos, intelectuais, ativistas ou meros cidadãos que ousaram em algum momento pôr em dúvida a linha do regime de Lukashenko― obrigados nos últimos anos a abandonar Belarus sob ameaças daquele que é apontado como “o último ditador da Europa”. Desde os protestos que se seguiram às eleições de agosto de 2020, vendidas por Lukashenko em meio a denúncias de fraude, a UEH aceitou 78 novos alunos e 16 acadêmicos expulsos de suas universidades em Belarus por motivos políticos. Ao todo, esta pequena universidade conta atualmente com 680 estudantes, dos quais 95% são bielorrussos.

Há quase um ano, mais de 40 graduados desta universidade foram detidos na antiga república soviética, conta Milta. A maioria sofreu uma detenção administrativa de 15 dias, o mecanismo utilizado inicialmente pelo regime de Lukashenko para responder às manifestações. Alguns destes universitários, entretanto, ainda não saíram das penitenciárias bielorrussas. Além de Sapega, outros dois alunos da UEH, Marfa Rabkova e Akihiro Gaevski-Hanada, assim como dois ex-alunos, Mikalai Dziadok e Uladzimir Malakhouski, continuam encarcerados e são considerados presos políticos pelo centro de direitos humanos bielorrusso Viasna. Todos eles, destaca Milta, estudaram o mesmo programa de Direito Internacional que cursava Sapega, uma cidadã russa de 23 anos, criada em Belarus, que em poucas semanas deveria apresentar seu TCC entre as vetustas paredes do antigo monastério, sobrevivente de inúmeras batalhas políticas em seus três séculos de história.

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A UEH foi inaugurada em 1992 em Minsk, apenas um ano depois da dissolução da União Soviética e dois anos antes da ascensão ao poder de Lukashenko, com o objetivo de “estabelecer uma universidade independente que apoiasse o ressurgimento dos valores da civilização europeia durante o período de transição do totalitarismo para a democracia”, segundo os estatutos da universidade. Sua missão seria “educar a nova geração de jovens profissionais capazes de liderar Belarus em seu caminho para a sociedade civil”. Com tais ambições, não é de estranhar que tenha se chocado rapidamente com um dirigente procedente da escola soviética e admirador declarado de Joseph Stálin. Seu fechamento, decretado em 2004, foi uma “decisão pessoal” de Lukashenko, salienta Milta, um dos poucos funcionários da instituição que frequenta o campus atualmente, já que desde o início da pandemia todas as aulas são à distância.

Até 15 anos de prisão

Zmicier Mazura chegou a Vilna em novembro passado e se matriculou no mesmo curso de Direito que Sapega. Esse jovem de 21 anos também passou 38 dias preso em 2020 por seu ativismo político contra Lukashenko. Conta que foi sequestrado por agentes de segurança bielorrussos quando entrava no metrô de Minsk, ao sair de uma aula na Universidade Estatal de Informática e Radioeletrônica, de onde acabou sendo expulso por ser um dos organizadores do comitê de greve da sua faculdade. Mazura diz sentir “raiva e tristeza” pela detenção de sua colega Sapega, que, na opinião dele, corre um sério perigo. “A situação é pior agora que em novembro. Agora, gente que não é ativista, que não fez nada, está sendo condenada a vários anos de prisão”, salienta.

Assim que tomou conhecimento da detenção de Sapega, a universidade emitiu nota descrevendo-a como “injustificada” e exigindo a “libertação imediata” de sua aluna, além de lançar um apelo às organizações internacionais para que “ajudem a libertar Sofia”. As autoridades bielorrussas acusam a jovem de ter difundido “dados pessoais” de policiais, um crime grave na antiga república soviética, que poderia resultar em até 15 anos de prisão. A tramitação do processo dela foi adiada nesta segunda-feira.

“Não faz sentido, é incrível, não há possibilidade alguma de lhe atribuir essas acusações, simplesmente não tem a ver com a sua personalidade”, afirma Milta, segundo quem todos se conhecem nesta pequena universidade. Ele a define como uma aluna “muito disciplinada, muito centrada em seus estudos” e sem ambições políticas; que tinha acompanhado seu namorado a Atenas para descansar um pouco antes de apresentar sua tese, não com outra intenção. A mãe da jovem, Anna Dudich, afirmou à agência Efe na semana passada em Londres que não sabe o motivo de sua filha ter sido detida. “Simplesmente está vivendo sua vida como uma jovem normal. Estuda, se diverte e está apaixonada. Ninguém proibiu isso, não é? Simplesmente não entendo”.

Ninguém na UEH se atreve a especular quando Sofia Sapega poderá retornar a Vilna para se formar. Numa tentativa de se animar, o estudante Zmicier Mazura se diz “100% convencido” de que o regime de Lukashenko “não sobreviverá” pelos cinco anos que lhe restam de curso até obter o diploma de Direito. Assim que se graduar, afirma, voltará a Belarus para “construir um novo país mais democrático”. Seu sonho é trabalhar como advogado ou assistente do Ministério Público, para fazer que o sistema judicial de Belarus, o mesmo que hoje em dia lida com tantos jovens como Sapega ou seu namorado Protasevich, “volte a ser mais justo”.

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