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Partido Comunista volta à linha de frente da política chilena

Prefeito Daniel Jadue aspira a chegar a La Moneda e lidera as pesquisas para as eleições presidenciais de novembro

Daniel Jadue cumprimenta simpatizantes na Plaza de Armas de Santiago.
Daniel Jadue cumprimenta simpatizantes na Plaza de Armas de Santiago.MARTIN BERNETTI (AFP)
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Nunca em sua história o Partido Comunista chileno teve um candidato presidencial tão perto do Palácio de La Moneda como agora. Nem mesmo quando a Unidade Popular, do socialista Salvador Allende, representava 17% das forças políticas que compunham o Governo. A seis meses das eleições presidenciais de 21 de novembro, o aspirante do PC, o prefeito Daniel Jadue, formado em Arquitetura e Sociologia, lidera as intenções de voto. Com 53 anos e de origem árabe, ele encabeça as preferências com 19,2% de apoio, segundo a pesquisa do instituto Activa Research. Os resultados das eleições para constituintes, governadores, prefeitos e vereadores no fim de semana passado ―quando votaram apenas 43% dos eleitores― são auspiciosos para a candidatura, que ainda saboreia uma clara vitória política da esquerda.

Marta Lagos, fundadora e diretora executiva do instituto Latinobarómetro, assinala que os resultados dos dias 15 e 16 para o Partido Comunista “não foram uma vitória eleitoral, mas política”. A analista se refere às 28 das 155 cadeiras, 18%, da Constituinte conquistadas pela aliança entre os comunistas e a Frente Ampla, um conglomerado de partidos de esquerda nascidos após os protestos populares. O PC, por si só, “obteve 4,99%”, o que equivale a sete cadeiras, aponta Lagos. Pode-se concluir que o partido foi punido da mesma forma que as organizações tradicionais da transição, onde o bloco da direita obteve 37 assentos (23,8%, o que o deixa sem possibilidade de veto na Constituinte) e a centro-esquerda, 25 (16,1%).

Se esses resultados forem comparados com a eleição de vereadores do mesmo fim de semana, na qual pôde ser medido o poder territorial de cada partido, observa-se uma distribuição semelhante à que havia no Chile: a direita alcançou 33,14% dos votos, a centro-esquerda, 34,15% e a esquerda, 23,77%. O PC obteve 9,23%, um crescimento em relação aos 6% conquistados nas eleições de 2016.

“O resultado teria passado despercebido se não houvesse um candidato presidencial”, explica Lagos. A alta abstenção ―57%― afetou principalmente o centro, que voltará a se mobilizar para as eleições presidenciais de novembro. “O Chile não se moveu para a esquerda, o que acontece é que ele enfrenta uma dispersão de mil minorias”, afirma a pesquisadora, que reconhece as importantes vitórias políticas e eleitorais do PC − como a eleição da economista Irací Hassler para prefeita de Santiago, desbancando a direita.

O PC chileno tem uma longa história desde sua fundação, em 1922. Ernesto Ottone, professor do Colégio de Estudos Mundiais de Paris e militante até o início dos anos 1980, explica suas peculiaridades. Inicialmente, porque tem um antecessor nascido antes da Revolução Russa, o Partido Operário Socialista, de 1911, fundado por Luis Emilio Recabarren, que só depois aceitou as 21 condições da Internacional Comunista. “Desde então, segue a história do Partido Comunista mundial, mas como teve uma vida anterior, vive uma espécie de esquizofrenia. Tem uma doutrina revolucionária ―marxista-leninista, ditadura do proletariado. Por outra, tem uma prática mutualista, sindicalista, reformista. Não faz apenas doutrina, também faz política”, assinala Ottone.

Em pouco tempo, o partido elegeu parlamentares e se tornou uma das forças políticas do país. “O PC chileno foi o mais importante da América Latina, com a maior influência e capacidade de mobilização e organização”, afirma o especialista. “Os principais momentos foram de 1938 a 1948―com a fundação da Frente Popular e os governos radicais―e, posteriormente, de sua legalização em 1957 até o golpe de Estado de 1973.” Em 1970, no início do Governo de Allende, “tinha mais de 150.000 militantes”, lembra Ottone.

O ex-militante considera que o partido sempre teve um comportamento contraditório. Em 1968, por exemplo, apoiou a invasão da Checoslováquia pela União Soviética. Com uma longa tradição institucional, o PC chileno apoiou depois a linha moderada da Unidade Popular de Allende, diferentemente do partido do presidente, o Socialista, com uma posição mais radical.

Com o golpe de Estado de 1973, o PC sofreu uma enorme repressão: foram assassinados dois líderes nacionais e um da juventude. No final daquela década, o partido foi influenciado pela luta armada, tanto a cubana como a nicaraguense. “A tendência militarista leva à formação da Frente Patriótica Manuel Rodríguez ―que atentou contra Pinochet em 1986―e se separa de sua história tradicional. Ganha posições radicais”, observa o acadêmico, que fazia parte dos setores internos derrotados e renunciou em 1981.

Com o retorno à democracia, a organização ficou de fora dos primeiros governos da Concertação e do Congresso. Os comunistas não acreditaram no pacto de governabilidade do centro com a esquerda e optaram pela oposição, sendo críticos da transição, o que os levou ao isolamento nos primeiros 15 anos de democracia. Existe uma segunda versão: a de que foi a Democracia Cristã que vetou um acordo com o PC, pois o considerava inviável.

Um acordo com a Concertação em 2008 permitiu que o PC elegesse dois prefeitos. Um ano depois, o partido elegeu três deputados. Guillermo Teillier, atual presidente do partido, chegou ao Congresso. Em 2013, o partido se somou à aliança que levou Michelle Bachelet ao poder pela segunda vez. Foi a primeira vez que o PC retornou a La Moneda desde o golpe, e fez isso com vários ministros. Aliado à centro-esquerda, obteve seis cadeiras no Congresso. Atualmente, tem nove deputados e um aspirante à candidatura presidencial, Jadue − reeleito prefeito de Recoleta, uma das comunas de Santiago.

Jadue deverá disputar uma eleição primária em 18 de julho com outro aspirante presidencial da esquerda, o deputado Gabriel Boric, da Frente Ampla. Para sua equipe, o prefeito chamou especialistas que tiveram papéis fundamentais nos governos de centro-esquerda, como o economista Gonzalo Martner, que integrou o Governo de Ricardo Lagos e foi presidente do Partido Socialista em 2005. Segundo Martner, dois acontecimentos explicam a posição atual do PC: “A decisão de Bachelet de incluí-lo no bloco de Governo e o fim do sistema eleitoral binominal durante a mesma Administração” ―em 2018 foi realizada a primeira eleição sem esse sistema. Ele também considera fundamental a emergência de lideranças jovens, como a deputada Camila Vallejo, uma das líderes estudantis de 2011. Em 2019, com a experiência de ter participado do Governo, os comunistas aderiram às manifestações, o que gerou um clima político favorável a Jadue. “Ele se conecta muito bem com a rebelião de 2019 e se estabelece como figura de destaque”, diz Martner.

O economista afirma, sobre os resultados do fim de semana passado, que “não foi o Partido Comunista que se colocou no centro da cena política, e sim um candidato presidencial comunista”. Martner assinala que o aspirante presidencial não tem nada a ver com Nicolás Maduro nem com o regime cubano ou nicaraguense, e que é crítico desses governos. No início de abril, em uma reunião com pequenos empresários, Jadue confessou que um dos fracassos que não gostaria de repetir se chegasse a La Moneda seria “o capitalismo de Estado da União Soviética”, o que ele qualificou de “fracasso brutal”.

As placas tectônicas da esquerda no Chile não param de se mover. Uma aliança entre os socialistas de centro-esquerda com os comunistas e a Frente Ampla com vistas às eleições presidenciais durou apenas duas horas na quarta-feira. Isso teria originado um acordo histórico dos grupos de esquerda sem o centro, o que não ocorre há meio século no Chile. Os socialistas pularam fora após restrições para uma participação da socialista Paula Narváez nas primárias. “Não se humilha o partido de Salvador Allende”, disse o presidente do PS, Álvaro Elizalde. É uma história em andamento com um final incerto. Existe consenso de que as opções do candidato do PC sem a centro-esquerda não conseguirão uma maioria


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