Morrem eletrocutados 26 trabalhadores de oficina têxtil clandestina no Marrocos por causa das chuvas

A fábrica estava localizada no porão de um imóvel residencial e 40 pessoas trabalhavam lá

Imagem do entorno da fábrica têxtil ilegal na qual 26 pessoas foram eletrocutadas nesta segunda-feira.
Imagem do entorno da fábrica têxtil ilegal na qual 26 pessoas foram eletrocutadas nesta segunda-feira.Soufian fasiki

Pelo menos 26 pessoas morreram na manhã desta segunda-feira em uma oficina de alfaiataria clandestina em Tânger, segundo fontes oficiais marroquinas. A fábrica informal, localizada no porão de um imóvel residencial e onde trabalhavam 40 pessoas, foi inundada após chuvas torrenciais que ocorreram na madrugada de segunda-feira. As vítimas foram eletrocutadas até a morte.

Uma dúzia de trabalhadores foram resgatados, de acordo com o site Le360. As instalações estão localizadas no bairro Branes II e, segundo diversos meios de comunicação locais, não atendem aos requisitos de segurança para oficinas de confecções. Chuvas intensas em toda a região norte do Marrocos causaram inundações em todas as favelas da cidade. Em algumas ruas, a água escorria pelas janelas do carro.

Vizinhos ao redor do prédio onde ocorreu a tragédia, nesta segunda-feira, em Tânger.
Vizinhos ao redor do prédio onde ocorreu a tragédia, nesta segunda-feira, em Tânger.Soufian fasiki

Tânger experimentou na última década um desenvolvimento econômico como poucas cidades viram no continente africano. Foi uma cidade relegada ao subdesenvolvimento sob o monarca Hassan II, mas seu filho, Mohamed VI, decidiu torná-la a joia do norte, a segunda potência econômica do país, atrás de Casablanca. O principal motor de desenvolvimento foi o porto de Tânger Med, inaugurado em 2007 e que já consegue competir em pé de igualdade com o porto de Algeciras no tráfego de mercadorias. Em 2008 chegou a Renault, e com ela foram criados 7.000 empregos diretos; mais tarde, o grupo PSA Peugeot-Citroën se instalou. E em 2018 foi inaugurada uma linha de alta velocidade que liga Tânger a Casablanca. Nesse ínterim, os guindastes trabalharam 24 horas por dia nos últimos anos, mudando a orla da cidade e construindo dezenas de hotéis, alguns deles cinco estrelas.

Mas ao lado de todas essas obras e desse desenvolvimento ainda existe uma grande massa da população que vive de forma precária. Tânger acolheu muitos emigrantes das regiões do interior do país e nem todos conseguiram encontrar um trabalho digno.

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Basta percorrer 70 quilômetros a leste de Tânger, até à localidade de Fnideq, a mais próxima da espanhola Ceuta, para ver até que ponto a falta de perspectiva desespera uma parte da população. As cidades marroquinas próximas de Ceuta, como Fnideq e Tetuão, sofrem não só os estragos da pandemia, mas também os da luta contra o contrabando para a Espanha, empreendida pelo Governo marroquino desde outubro de 2019.

Na noite de sexta para sábado, dezenas de moradores da Fnideq saíram em manifestação nas ruas da cidade e o protesto foi reprimido com violência pela polícia. Por enquanto, as fronteiras com Ceuta e Melilla continuam fechadas devido à pandemia. Quando forem abertas, pode ser que o contrabando tenha acabado para sempre. O problema é que, no momento, nenhuma alternativa econômica chegou à Fnideq para substituir o produto do contrabando. E o desenvolvimento de Tânger não basta, neste momento, para gerar tantos empregos quanto a região Norte necessita.

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