‘The New York Times’ admite ter publicado falso relato sobre o Estado Islâmico

O jornal lamenta que seu bem-sucedido podcast ‘Caliphate’ não tenha atingido os devidos padrões de veracidade e qualidade

Rukmini Callimachi e seu colega Andy Mills, após receber um prêmio por ‘Caliphate’ em 2019, em Nova York.
Rukmini Callimachi e seu colega Andy Mills, após receber um prêmio por ‘Caliphate’ em 2019, em Nova York.Brad Barket / AP

O jornal The New York Times, referência jornalística mundial e alvo habitual das investidas de Donald Trump contra a imprensa, entoou um sonoro mea culpa por não ter atingido seus padrões de qualidade num de seus produtos de maior sucesso, o podcast Caliphate, em que em 12 capítulos relata a barbárie do Estado Islâmico (EI). O jornal assume ter difundido “uma história de falsidades” por parte da fonte principal, um suposto membro do EI que retornou da Síria, e lamenta não ter podido encontrar “nenhuma confirmação de que ele [a testemunha] cometeu as atrocidades descritas no podcast”. O Times conclui que os episódios de Caliphate que reproduzem as declarações do terrorista fabulador “não cumpriam” com seus “padrões de veracidade”.

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Além de novo destaque na trajetória do jornal, Caliphate, publicado em 2018, parecia a coroação do sucesso profissional da jornalista Rukmini Callimachi, especialista em terrorismo islamista. Tudo começou a desmoronar em setembro, quando a testemunha sobre a qual se baseia todo o relato, Shehroze Chaudhry – que dizia ter ingressado no EI em 2016 na Síria–, foi detida no Canadá por falso testemunho e engano em relação à sua atividade jihadista. Além de provocar uma tempestade política no país vizinho, a prisão de Chaudhry fez soar o alarme no matutino, que empreendeu duas investigações paralelas cujo resultado foi divulgado na última sexta-feira.

“[A detenção de Chaudhry] nos fez pensar na possibilidade de que tenhamos cometido um erro”, explicou Dean Baquet, editor-executivo do jornal, sobre essa ambiciosa estrutura informativa baseada, em última análise, numa fabulação. O jornal define a cadeia de falhas de apuração e fiscalização das informações como “um fracasso institucional” e protege Callimachi, “que será transferida para outra seção porque sua credibilidade na cobertura do terrorismo jihadista” ficou prejudicada.

“Quando o The New York Times faz jornalismo profundo, grande e ambicioso em qualquer formato, nós o submetemos a um tremendo escrutínio nos níveis de direção da redação”, disse Baquet em uma entrevista em um podcast publicada pelo Times na sexta-feira. “Não o fizemos desta vez. E acredito que eu ou outra pessoa deveria tê-lo feito, porque era um grande e ambicioso artigo jornalístico. Não exigi esse tipo de controle, e tampouco meus melhores editores, que têm muita experiência no exame das informações de investigação.”

Ao contrário das investigações de assuntos internos da polícia, que sempre se resolvem da porta para dentro, o exame do New York Times foi feito publicamente, para grande satisfação dos trumpistas e conspiranoicos, que não desperdiçaram nas redes a oportunidade de atribuir uma nova fake news (notícia falsa) ao seu histórico. Mas o exercício da autocrítica – que para alguns beira a autoflagelação e para outros é insuficiente–, não poderia ser mais interessante do ponto de vista do próprio exercício do jornalismo: duas equipes trabalhando paralelamente durante dois meses, uma delas dedicada apenas a rastrear com lupa todos os movimentos do enganador Chaudhry antes e depois de sua suposta viagem à Síria.

A conclusão deste auto de fé informativo é contundente: o erro do Times não foi designar um editor especialista em terrorismo para supervisionar a série (um erro nefasto, aliás, no jornalismo anglo-saxão, com tradição de grandes editores); e a credulidade da equipe do Caliphate na hora de dar suporte às ficções de Chaudhry, que os convenceu mostrando imagens das atrocidades do EI que havia baixado da Internet. Essa falta de ceticismo, de colocar em dúvida, metodicamente falando, histórias que deveriam ter chamado atenção de qualquer profissional com experiência e conhecimento, é uma falha imperdoável para o jornal.

Aquele que menos se expôs ao escrutínio público foi curiosamente Callimachi, que só se manifestou a esse respeito em um circunspecto tuíte e que inclusive se recusou a responder às perguntas de seus colegas durante a investigação, algo que estes registram no artigo. Callimachi, que não assinou nenhuma reportagem desde o início da revisão do podcast, agora deverá assistir ao escárnio público da perda de dois importantes prêmios.

A repórter, que já foi candidata ao Pulitzer, era perseguida pela sombra da dúvida antes do Caliphate, com acusações de ter deturpado ou inclusive inventado informações, como na cobertura da morte do fotojornalista James Foley, decapitado pelo EI em 2014 na Síria, segundo parentes deste. De fato, na sexta-feira o jornal nova-iorquino fez uma correção em uma reportagem anterior de Callimachi sobre um jornalista sírio que afirmou ter visto três reféns norte-americanos em poder do EI em 2013. O esclarecimento do jornal indica que o relato da fonte “deu mostras de inconsistência”. Argumento semelhante ao usado no Caliphate. O podcast não foi retirado de circulação, mas todos os seus capítulos receberão uma “menção de correção” para que os ouvintes conheçam o contexto. Um novo episódio também será acrescentado à série, em que Baquet explica o ocorrido e admite em nome do jornal a “falha institucional” na comprovação de fatos e fontes.

O fiasco do Caliphate não é apenas uma ofensa à trajetória do Times. O grupo havia investido maciçamente no podcast desde o início de 2017 e no lançamento do The Daily, seu principal programa, em meio a uma profunda crise sistêmica da imprensa tradicional. Em julho o grupo anunciou a compra da Serial Productions, criadora do grande sucesso da nova moda de podcasts, o Serial (2014), baixado mais de 600 milhões de vezes. Acreditando na expansão sustentada desse gênero, o Times esperava atrair um público externo, especialmente os jovens, como nova fonte de assinantes.

A suposta verdade revelada pelo suposto retornado da Síria que narrou vividamente várias execuções e atrocidades do EI só resultou ser verossímil, e a reportagem inteira um exercício de verismo que parece ter validado aquele velho ditado, sem dúvida apócrifo, de que a realidade não tem por que frustrar uma boa exclusiva. A reputação de Callimachi fica protegida, sem receber qualquer punição, mas a dúvida sobre esse estilo inovador, que beira a dramatização dos fatos, é um alerta aos navegantes.

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