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Jair Bolsonaro mantém silêncio sobre a vitória de Biden, que terá o meio ambiente como prioridade

Presidente brasileiro perde seu principal aliado internacional com a saída de Trump da Casa Branca

O presidente Jair Bolsonaro participa de cerimônia no Palácio do Alvorada no dia 27 de outubro.
O presidente Jair Bolsonaro participa de cerimônia no Palácio do Alvorada no dia 27 de outubro.EVARISTO SA (AFP)
Naiara Galarraga Gortázar

O presidente Jair Bolsonaro está demorando para digerir a derrota de seu aliado Donald Trump, já que quase dois dias depois de o democrata Joe Biden ser declarado vencedor das eleições nos Estados Unidos, neste sábado, ele ainda não disse uma palavra, nem tuitou. O Ministério das Relações Exteriores também não se pronunciou. Esse resultado significa que o Brasil perde seu principal aliado internacional e terá que lidar com maior pressão por conta de sua política ambiental. É também um freio na onda nacional-populista mundial, que o tempo dirá se afeta Bolsonaro internamente e em que medida.

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U.S. President-elect Joe Biden arrives with his family for a church service in Wilmington, Delaware, U.S., November 8, 2020. REUTERS/Jonathan Ernst
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07 September 2020, Brazil, Brasilia: "God bless Bolsonaro and Trump! Liberate us from communism and their slavery", is written on the poster of a supporter of the right-wing Brazilian president on the Brazilian Independence Day. Photo: Myke Sena/dpa - ATTENTION: For editorial use only and only with full mention of the above credit (Photo by Myke Sena/picture alliance via Getty Images)
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O fato de Biden ter anunciado que em seu primeiro dia na Casa Branca pedirá o reingresso dos Estados Unidos ao Acordo de Paris indica que a política ambiental e o combate às mudanças climáticas, nas quais a Amazônia desempenha um papel fundamental, são prioridades para a próxima presidência. Este compromisso é uma má notícia para o Governo brasileiro porque se prevê que aumente notavelmente a pressão para que interrompa de modo decidido o crescente desmatamento na maior floresta tropical do mundo. “A política para o meio ambiente será a prioridade de Biden em política externa e também estará ligada à política comercial”, alertou Christopher Garman, diretor para as Américas da consultoria de riscos Eurasia, em entrevista ao EL PAÍS.

O desdém de Bolsonaro por tudo relacionado à preservação do meio ambiente já afeta o Brasil em termos diplomáticos e políticos, mas sua tolerância com as críticas continua baixa. Quando o candidato democrata se referiu em um debate eleitoral com Trump à necessidade de o mundo se envolver na missão de preservar a Amazônia, Bolsonaro reagiu com fúria: “Lamentável, Senhor Biden”, disse ele para lembrar em letras maiúsculas no Twitter, que “nossa soberania é inegociável”. No meio da tarde deste sábado e ao longo de domingo, Bolsonaro se limitou a tuitar sobre os esforços para restabelecer o fornecimento de eletricidade e as comunicações no Estado do Amapá, afetado há dias por um grande apagão, além de destacar outras ações de seu Governo.

Sem Trump na Casa Branca, o Brasil terá que se equilibrar ainda mais em sua relação com a China, seu principal parceiro comercial depois de Washington. A última diatribe sinofóbica de Bolsonaro, a respeito da vacina do laboratório chinês Sinovac contra a covid-19, desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan, azedou a relação bilateral. Mas, segundo adverte o analista da Eurásia, com uma relação mais fria com os Estados Unidos, o custo da belicosidade com a China aumenta para Brasil.

O fato de o republicano não ter conseguido se reeleger é também um forte golpe para a onda nacional-populista mundial da qual o magnata é o grande símbolo e que também levou Bolsonaro ao poder há dois anos. Com a perda dos EUA, os amigos internacionais do militar reformado ficam reduzidos a um elenco em que se destacam Israel, Polônia e Hungria.

Até o mesmo o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, um dos principais aliados de Trump na arena internacional, parabenizou Biden pela vitória. “Joe, temos um relacionamento pessoal há quase 40 anos, sei que você é um grande amigo de Israel”, escreveu o mandatário no Twitter. Em seguida, fez ainda um agradecimento a Trump “pela amizade que você demonstrou ao Estado de Israel e a mim pessoalmente, por reconhecer Jerusalém e Golã, por enfrentar o Irã, pelos acordos de paz históricos e por levar a aliança americano-israelense a patamares sem precedentes”.

Autoridades brasileiras de alto escalão também parabenizaram o presidente eleito dos EUA. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, imediatamente tuitou que a vitória de Biden “restaura os valores da democracia verdadeiramente liberal”. Outros parlamentares, inclusive da base do Governo Bolsonaro, como Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) e Marcos Pereira (Republicanos-SP), também publicaram mensagens felicitando o democrata. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), atualmente o principal adversário de Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022, foi rápido em classificar Biden como um “defensor da democracia" no Twitter. “Bom para os EUA, bom para o Brasil”, completou o tucano, que também enviou uma carta destacando o compromisso de São Paulo com o meio ambiente e o Acordo de Paris.

O ex-candidato à Presidência, Ciro Gomes (PDT), que também deverá concorrer contra Bolsonaro em 2022, também enviou um telegrama de parabéns para o futuro presidente dos Estados Unidos. Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou o Twitter para se posicionar sobre a eleição do democrata: “O mundo respira aliviado com a vitória de Biden”, escreveu. “Saúdo a vitória de Biden e manifesto a esperança de que ele não só internamente, mas também em suas relações com o mundo e com a América Latina, se paute pelos valores humanistas que caracterizaram a sua campanha”, completou.

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