Bolívia

Empossado presidente da Bolívia, Luis Arce quer voar sozinho para sair da crise

Político busca se distanciar do antecessor Evo Morales, que retorna ao país ansioso por deixar bem claro quem manda em seu partido

Luis Arce, no presidente da Bolívia, após ser empossado neste domingo.
Luis Arce, no presidente da Bolívia, após ser empossado neste domingo.Juan Karita / AP

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O ano de 2017 foi um dos piores da vida de Luis Arce Catacora. Depois de desfrutar de uma década de sucesso e poder como ministro da Economia da Bolívia, seu pai morreu e ele descobriu que tinha um tumor cancerígeno no rim. Recebeu a notícia com o aprumo —de conotações burocráticas— que o caracteriza: “Assim como estabilizei a economia, agora é a hora de estabilizar minha saúde”, declarou. Discrição é outro traço de sua personalidade, por isso manteve o diagnóstico em segredo. Quem fez a revelação em detalhes à imprensa foi aquele que era seu chefe, o presidente Evo Morales. Hoje, Arce vai ocupar o cargo que Morales manteve por quase 14 anos, mais tempo do que qualquer outro boliviano na história. Mas ainda espera com certo temor os encontros do líder indígena com a imprensa.

Arce tomou posse como presidente neste domingo ao lado de seu vice, David Choquehuanca. O evento foi realizado sem a presença do Governo atual, chefiado pela presidenta interina Jeanine Áñez e considerado um “golpista” pelos vencedores das eleições. Arce recebeu os símbolos de poder de Choquehuanca, que antes fora proclamado presidente da Assembleia Legislativa pela maioria parlamentar do seu partido, o Movimento pelo Socialismo (MAS).

O novo presidente não citou o nome de Morales, mas mencionou em seu discurso que seu partido vem sofrendo uma perseguição legal e policial. O político afirmou que a situação econômica do país é gravíssima, mas repetiu “vamos seguir em frente”, o slogan de sua campanha eleitoral. Disse que levaria consigo a imagem de todas as pessoas simples que o apoiaram neste momento difícil de fazer um Governo digno do povo boliviano.

Desde a vitória de Arce nas eleições de 18 de outubro, com 55% dos votos, Morales vem atraindo a atenção da mídia. Ele renunciou à presidência em 10 de novembro de 2019, em meio a protestos de rua e acusações de fraude eleitoral, e acabou no exílio na Argentina. Nesta segunda-feira retorna à Bolívia disposto, já avisou, a se dar um “banho de popularidade”. E ansioso por deixar bem claro a seus competidores e críticos internos quem manda em seu partido, do qual é líder incontestável desde sua fundação, no final dos anos 1990. “Ele não vai mudar. E também não pretendemos que mude. Vai ser assim sempre”, disse Arce a EL PAÍS. “Mas a verdade é que no Governo não tem nenhuma participação”, acrescentou. Esse esclarecimento —que desperta ceticismo— é importante, porque Morales produz uma forte rejeição nos setores mais abastados da Bolívia.

O novo presidente garante que já está bem. Ou, como ele diz: “tudo está em ordem, felizmente”. Sua recuperação se deve a um tratamento sofisticado a que se submeteu no Brasil e pelo qual recebeu críticas. Ele também atribui a cura à medicina tradicional baseada em ervas andinas. E à sua disciplina pessoal, uma virtude que seus chegados e os mais distantes reconhecem. Considerado o mais metódico dos ministros de Morales, Arce foi o responsável pela Economia de 2006 a 2017 e novamente em 2019, suportando o ritmo desordenado e frenético do ex-presidente que levou à rendição de outras autoridades de alto escalão.

Luis Grañena

Até a sua nomeação por Morales como candidato do MAS para estas eleições, seu trabalho no Gabinete foi o feito mais extraordinário de sua carreira. Durante sua vida anterior, havia sido funcionário estável e de segunda linha do Banco Central da Bolívia e professor universitário. Gosta tanto de ensinar macroeconomia que afirmou que continuará lecionando durante sua gestão.

Como estudante militou em grupos que se identificavam com o socialista radical Marcelo Quiroga Santa Cruz, assassinado pela ditadura militar no início dos anos 1980. Arce se considera um socialista, mas seria mais preciso dizer fortemente keynesiano. Claro, identificado com os setores populares e indígenas do país, que são aqueles representados pelo MAS. Ingressou no partido pouco antes das eleições em que Morales chegou ao poder pela primeira vez em 2005. E assumiu o plano do Governo a convite de um colega professor, então o principal conselheiro econômico de Morales.

Agora, Arce precisa tirar a Bolívia da pior recessão que sofreu desde sua participação na Guerra do Chaco nos anos 1930. “Estamos tranquilos. Estamos acostumados com isso”, declarou —como a maioria dos bolivianos, ele fala de si mesmo no plural. Por esta confiança nos próprios dons, que por vezes o leva a ser mal-humorado e exigente no trabalho, Luís Arce recebeu o apelido de SuperLuchito, que serve tanto para exaltá-lo como para mostrá-lo como arrogante.

Os êxitos econômicos de Arce são impressionantes: graças à nacionalização da indústria do gás por Morales, injetou no mercado interno boa parte dos excedentes obtidos pela Bolívia com a venda de matérias-primas a preços elevados. Assim, incentivou a construção de obras de infraestrutura, multiplicou a atividade comercial e turística, aumentou o emprego e o bem-estar, reduzindo a pobreza extrema, que passou de 38,2% para 15,2%.

Ele também desdolarizou as finanças, devolvendo protagonismo à moeda, o boliviano. Seus críticos dizem que conseguiu isso graças ao contexto internacional e que, ao mesmo tempo, permitiu que o Estado gastasse demais e esbanjasse recursos em obras sem interesse. Acreditam que agora que terá de conduzir a economia boliviana em meio a uma recessão mundial, preços baixos e esgotamento dos campos de gás, com poucas reservas internacionais e muita volatilidade financeira, o SuperLuchito perderá seus superpoderes.

Além do mais, Arce terá que enfrentar uma oposição radicalizada, que em alguns casos não reconhece sua vitória e está fora de si pelo que aconteceu no ano passado. As classes médias urbanas acusaram Morales de querer reeleger-se pela terceira vez com fraude em outubro de 2019, protestaram contra ele nas ruas, paralisaram o país, conseguiram a renúncia do presidente, de esquerda, assumiram o poder por meio do Governo interino de Jeanine Áñez e , um ano depois, sofreram um grande baque eleitoral. Hoje, não querem que Arce tenha tranquilidade para aproveitar essa vitória.

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