Eleições EUA 2020

Mergulhados em incertezas, EUA encerram sua campanha mais incomum e hostil

Biden chega à véspera do grande dia com vantagem nas pesquisas sobre Trump, que agita o fantasma da fraude eleitoral

Em comício no estado de Michigan, o presidente Donald Trump faz brincadeira sobre o frio do local
Em comício no estado de Michigan, o presidente Donald Trump faz brincadeira sobre o frio do localEvan Vucci / AP

Os Estados Unidos, que há quatro anos descobriram uma imagem inesperada de si mesmos, chegam trêmulos ao seu novo encontro com as urnas. Termina nesta segunda-feira uma campanha presidencial incomum, por causa da pandemia, mas sobretudo marcada pela hostilidade política dos últimos quatro anos. Nas ruas, é palpável o temor dos cidadãos, que reforçaram a segurança com medo da violência; nos gabinetes e corredores do poder, nota-se o receio em relação às pesquisas. As mais recentes insistem em que o democrata Joe Biden ganhará e expulsará Donald Trump da Casa Branca. Este, por sua vez, agita o fantasma da fraude.

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Um dos traços distintivos dos Estados Unidos é que a residência oficial e quartel-general do Governo se encontra no centro da capital, sem árvores que a tampem e visível desde quase qualquer ângulo, criando uma falsa sensação de proximidade e acessibilidade a qualquer cidadão que passe por lá, em meio ao mar de burocratas, turistas e manifestantes que inunda as ruas. Desde os distúrbios de meados deste ano, entretanto, o acesso de pedestres tem sido interrompido com frequência cada vez maior, e agora uma robusta cerca erguida a dois quarteirões de distância marca um amplo perímetro de segurança. Em frente a esse muro, centenas de cartazes pedindo penas de prisão para o presidente e exigindo justiça para os negros mortos por tiros da polícia servem de testemunho da onda de protestos que passou.

Grupo de freiras participa de comício de Trump no Michigan
Grupo de freiras participa de comício de Trump no MichiganEvan Vucci / AP

Neste domingo, um dos ativistas que habitualmente velam por esse mural improvisado – para que os grupos trumpistas não arranquem nada― se envolveu numa acalorada discussão com um eleitor republicano. “Você está aqui homenageando as fotos de criminosos [em referência aos norte-americanos abatidos por policiais], criando ódio e fazendo mal aos Estados Unidos, você não quer o bem para os Estados Unidos”, recrimina o seguidor de Trump. “Você é quem homenageia criminosos, você quer votar em um, se não acha tão ruim votar num criminoso é porque talvez você também seja um”, responde o ativista.

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Ao redor, os edifícios puseram tapumes para proteger suas vidraças, e muitos condomínios contrataram seguranças privados. Os mais de 93 milhões de votos antecipados enviados por correio ou depositado nas seções eleitorais podem fazer a apuração demorar, e a espera pelos resultados de vários Estados-chaves, como Pensilvânia e Wisconsin, criariam um suspense de várias horas sobre o nome do vencedor. Além disso, Trump questionou a solidez do sistema postal e agitou o fantasma da fraude, o que eleva a tensão em um país já por si crispado. Os norte-americanos votam, além do mais, em meio a uma grave crise econômica que ninguém poderia prever há um ano, com mais de 230.000 mortos nas costas e sem um horizonte claro de volta à normalidade em nenhum lugar do mundo. Vão as urnas, em outras palavras, tremendo.

A campanha de 2016 foi desgarradora. Trump, um candidato de populismo desavergonhado, regou-a de insultos e teorias conspiratórias. Aqueles meses prévios eleição agitaram venenos como o da xenofobia e o racismo, demonstrando que a ferida racial, que muitos acharam estar curada com a eleição do primeiro presidente afro-americano, Barack Obama, continuava aberta. Já a de 2020 não parece ser tão desgarradora, porque o país já se acostumou aos quatro anos ininterruptos de enfrentamento político e social. As palavras grosseiras que tanto desconcertaram quatro anos atrás viraram norma, e ninguém tem muita certeza da possibilidade de recuperar tantos códigos rompidos, ganhe ou perca Trump a reeleição.

Joe Biden durante ato de campanha em Tampa, na Flórida
Joe Biden durante ato de campanha em Tampa, na FlóridaDPA vía Europa Press / DPA vía Europa Press

As últimas pesquisas, publicadas neste domingo, continuam apontando Joe Biden como claro vencedor. A do The New York Times/Sienna College lhe dá a maior vantagem atribuída a um candidato presidencial desde 2008, quando Obama foi eleito. O ex-vice-presidente democrata ganharia em Estados-chaves, como Wisconsin e Pensilvânia, com uma vantagem de 11 e 6 pontos, respectivamente, e levaria também Arizona (6 pontos) e Flórida (3). No levantamento do The Washington Post-ABC, entretanto, Trump fica com o importante troféu da Flórida, com dois pontos percentuais de diferença. A do The Wall Street Journal-NBC News, com amostra nacional, dá o democrata como vencedor: 52% x 42%.

À medida que o dia da eleição se aproximava, o presidente republicano veio reduzindo a distância nesses Estados-pêndulos, os decisivos no sistema de Colégio Eleitoral dos EUA, uma tendência que recorda a de 2016, quando Hillary Clinton perdeu a eleição apesar de ter conseguido quase três milhões de votos a mais em âmbito nacional e de ter liderado as pesquisas durante quase toda a campanha. As lembranças daquela bofetada estão bem presentes este ano nas fileiras democratas, muito atentas ao percentual de participação das minorias. Mas o apoio que Clinton angariava na época ficava abaixo de 50%, sinal do escasso entusiasmo que os dois candidatos despertavam, enquanto desta vez o Partido Democrata parece decidido a cerrar fileiras.

Os adversários de Biden durante as primárias (Elizabeth Warren, Amy Klobuchar, Pete Buttigieg e Julián Castro) participaram de comícios com a intenção de levar a chapa Biden/ Kamala Harris à Casa Branca. Também vozes progressistas, como a da jovem deputada Alexandria Ocasio Cortez, muito influente junto às novas gerações, e o veterano senador socialista Bernie Sanders, outro candidato derrotado nas primárias, pediram voto para Biden. Após um mandato presidencial tão revulsivo como o de Trump, o sentimento do eleitorado democrata parece mais coeso que em 2016, mas é difícil encontrar previsões categóricas sobre o que acontecerá na terça-feira.

Os norte-americanos decidem nesta terça-feira sobre algo além de um programa econômico, um plano de resposta à crise da covid-19 ou uma política ambiental. Escolhem tudo isso e também uma maneira de se definirem como país e se apresentarem ao mundo. Trump praticamente não alterou seu discurso de 2016, esse que apela ao orgulho nacionalista branco e desdenha da cooperação internacional. Resta ver qual fatura a errática gestão da pandemia lhe passará. Frente a ele, o democrata Biden promete uma espécie de retorno da ortodoxia política de Washington, internacionalista e que busca inclusive seduzir o republicano moderado.


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