Crise em Belarus

Opositora bielorrussa Kolesnikova é presa na fronteira com a Ucrânia após passar um dia desaparecida

Ativista, colocada à força em um carro na segunda-feira em Minsk, resistiu às tentativas das autoridades de expulsá-la de Belarus

A dirigente oposicionista Maria Kolesnikova numa entrevista coletiva em 24 de agosto em Minsk.
A dirigente oposicionista Maria Kolesnikova numa entrevista coletiva em 24 de agosto em Minsk.VASILY FEDOSENKO / Reuters

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A destacada opositora bielorrussa Maria Kolesnikova, que foi capturada na segunda-feira em Minsk por desconhecidos vestidos à paisana e encapuzados, foi presa nesta terça na fronteira de Belarus com a Ucrânia, segundo o comitê estatal de fronteiras. Kolesnikova, que passou quase 24 horas desaparecida após uma ação que tem as marcas da KGB (o serviço de segurança do Governo), foi presa após se recusar a deixar o país, conforme exigiam as autoridades. Fontes citadas pela agência Interfax afirmam que a líder oposicionista chegou a rasgar seu próprio passaporte no último minuto para evitar sua expulsão de Belarus, onde é cidadã. Ivan Kravtsov e Anton Rodnenkov, colegas dela no Conselho de Coordenação da perseguida oposição bielorrussa, também haviam desaparecido na segunda-feira, mas, ao contrário de Kolesnikova, entraram na Ucrânia. O comitê bielorrusso de fronteiras informou que Kolesnikova foi detida por tentar cruzar a fronteira “ilegalmente”. Quando se completa um mês das gigantescas manifestações contra Lukashenko, o paradeiro da ativista opositora volta a ser desconhecido.

A cena descrita pelo comitê estatal de fronteiras parece um roteiro de filme: “Rodnenkov, Kravtsov e Kolesnikova, que viajavam em um automóvel BMW, passaram pelo controle de alfândegas na fronteira e se dirigiram para a Ucrânia. Entretanto, depois, quando se encontraram com uma unidade da guarda fronteiriça, o veículo acelerou bruscamente, o que representou uma ameaça para a vida de um guarda fronteiriço”, segundo um porta-voz. “Kolesnikova se viu fora do veículo. Na verdade, foi empurrada para fora [por seus acompanhantes], e o carro continuou avançando para a Ucrânia”, acrescenta. A opositora não chegou ao posto de controle e foi presa, desta vez pelo guarda de fronteira.

O vice-ministro de Assuntos Internos da Ucrânia, Anton Gerashchenko, afirmou nesta terça-feira que a saída dos opositores bielorrussos Anton Rodnenkov e Ivan Kravtsov do país foi uma “expulsão forçosa”. “Maria Kolesnikova não pôde ser expulsa de Belarus porque esta valente mulher tomou medidas para evitar sua movimentação através da fronteira. Permaneceu no território de Belarus”, afirmou Gerashchenko em sua página do Facebook.

Kolesnikova é uma das líderes do Conselho de Coordenação opositor ― que busca uma transição política pacífica no país, o que inclui novas eleições e a libertação de presos políticos ― e a única a permanecer em Belarus entre o trio de mulheres que confrontou o regime de Lukashenko. Ela já havia declarado que, em caso de ameaças, exilar-se não estava nos seus planos, pois preferia enfrentar prisões e repressão a deixar o seu país, como fizeram outros dirigentes. A ex-candidata presidencial Svetlana Tikhanovskaya se exilou na Lituânia, depois de sentir que sua família estava ameaçada; a advogada Olga Kovalkova foi forçada a cruzar a fronteira com a Polônia neste sábado, sob a ameaça de ser presa “infinitamente”, conforme relatou; e o ex-ministro de Cultura Pavel Latushko também saiu do país após receber advertências da KGB, segundo contou. Lukashenko procura decapitar o Conselho de Coordenação, acusando-o de buscar “tomar o poder”, e seus integrantes ― entre os quais se encontra a escritora Svetlana Alexievich, ganhadora do Nobel, mas com um papel mais simbólico ― estão ameaçados de processos penais.

Em um primeiro momento, a imprensa estatal bielorrussa informou que os três ativistas da oposição haviam ido embora para a Ucrânia. Divulgou-se um vídeo supostamente “encontrado em um celular” no que chamaram de “local da fuga”, em que Kravtsov conta que os três decidiram sair do país. Não seria a primeira vez que forças de segurança de Lukashenko obrigam ou ameaçam opositores a gravarem imagens desse tipo.

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