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DIRIGINDO PELA AMÉRICA NEGRA | Minnesota

A cidade antes conhecida como Minneapolis

A rua onde George Floyd foi assassinado, que provocou a maior mobilização contra o racismo em meio século, ficou suspensa no limbo. Assim como a casa onde Prince morreu

Un establecimiento de la avenida Chicago de Minneapolis, donde murió George Floyd el 25 de mayo. La imagen fue tomada el 4 de agosto. / A. M.
Um estabelecimento na Avenida Chicago, em Minneapolis, onde George Floyd morreu em 25 de maio. A fotografia foi feita em 4 de agosto.Amanda Mars
Amanda Mars
Por onde a série passou
El saxofonista Coleman Garrett III en una calle de Memphis. / A. M.
Um sax e uma navalha na Beale Street
MINNEAPOLIS, MN - AUGUST 17: People participate in a demonstration on August 17, 2020 in Minneapolis, Minnesota. Community members came together for a rally to protest the city's potential forceful reopening 38th Street and Chicago Ave, an unofficial autonomous zone known as George Floyd Square. Community activists and city council members are in negotiations for the square, but the community has expressed disapproval in the city's phased reopening of the area without honoring their list of demands. (Photo by Brandon Bell/Getty Images)
A palavra mais bonita de Nova Orleans

Uma puxada final de carro, 560 milhas (ou seja, 900 quilômetros) para chegar a Minneapolis, destino final do percurso que começou em Nova Orleans e termina no Estado de Minnesota, no norte. O fim e o nascimento do rio Mississippi. Para chegar desde St. Louis (Missouri) é preciso atravessar todo o Iowa, uma paisagem interminável de milharais onde começa a corrida para ser presidente dos Estados Unidos. É uma daquelas curiosidades da política norte-americana: as primárias, ou assembleias de eleitores para conseguir a candidatura do partido, acontecem inicialmente nessas pequenas cidades agrícolas e, durante uma semana por ano, se tornam algo parecido com o centro do mundo.

Waterloo, Cedar Falls, Waverly, Nashua. As placas de entrada das cidades aparecem ao longo da estrada em uma paisagem completamente diferente do inverno. Já não há mais neve, pré-candidatos à Casa Branca nem centenas de jornalistas seguindo seus passos. O pôr do sol deste verão, solitário e em tons dourados, lembra muito mais as imagens que Clint Eastwood rodou naquele filme de amor, As pontes de Madison, que também colocou aquele pedacinho de Iowa no mapa.

A entrada em Minnesota é quase à meia-noite e, embora estejamos em agosto, a baixa temperatura deixa claro que nos aproximamos do Canadá. Quase 2.500 quilômetros desde a partida na costa de Louisiana, sete Estados percorridos em 10 dias. “O jazz nasceu em Nova Orleans; o zydeco no bayou; o blues se originou no delta, enquanto o rock and roll surgiu em Memphis”, escreve Paul Schneider em seu grande livro sobre o Mississippi, Old Man River, descrevendo um percurso semelhante ao desta série pela América negra.

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É uma pena que Schneider não continue a frase para dizer que Minneapolis trouxe Prince. Fazia sentido terminar a viagem na cidade de um artista dissidente dos estereótipos de raça e gênero. Aquela em que, há alguns meses, desencadeou-se a maior onda de mobilizações contra o racismo em meio século.

Na tarde de 25 de maio, George Floyd morreu sob o joelho de um policial branco, que apertou seu pescoço contra o chão durante cerca de nove minutos enquanto o afro-americano clamava que não conseguia respirar. Quatro policiais o prenderam como suspeito de tentar comprar um maço de cigarros em um supermercado de bairro, o Cup Foods, com uma nota falsa de 20 dólares. Ele estava dentro de um carro estacionado em frente ao estabelecimento, no número 3759 da Avenida Chicago.

A rua onde tudo aconteceu se tornou agora um lugar sagrado, e o supermercado que chamou a polícia, um lugar maldito. “Fizemos o que era preciso, não somos responsáveis pelo que aconteceu depois, estão com raiva das pessoas erradas”, explica um pouco desanimado o proprietário, Mahmoud Abumayyaleh, dentro do estabelecimento. É 4 de agosto, o segundo dia que o supermercado abre as portas, mais de dois meses depois da tragédia. O supermercado tentou reabrir em meados de junho, mas foram tantos protestos que fechou novamente. Os manifestantes voltaram ao estabelecimento, mas desta vez o dono decidiu seguir em frente.

Nada será igual para esse negócio, que está há 31 anos na cidade. Toda a calçada e a pista, repletas de desenhos, velas e flores, se tornaram um enorme local de culto à figura de Floyd, um homem de 46 anos com uma vida complicada erigido em ícone mundial da luta contra o racismo. Pela manhã, os ativistas desapareceram; no entanto, casais brancos e grupos de amigas que devem ser turistas tiram fotos.

O Food Cups parecia uma pequena loja visto de fora quando foi fechado com tapumes no calor dos tumultos de maio, mas ao entrar você vê um amplo supermercado, uma rotisseria, venda de cigarros e alguns artigos eletrônicos básicos. O estabelecimento agora tem um porta-voz, Jamar Nelson, um homem negro. Segundo conta, o funcionário que ligou para a polícia naquele fatídico dia 25 de maio não conseguiu voltar ao trabalho e recebe atendimento psicológico. “As pessoas têm todo o direito de ficar com raiva, mas estão indo na direção equivocada, é hora de o supermercado abrir e as pessoas recuperarem seu trabalho”, insiste.

Minneapolis ficou cheia de jornalistas naqueles dias de incêndios e saques. Não tinham vindo tantos e de tantos países diferentes desde a morte de Prince. Houve quem escrevesse artigos perguntando o que o artista teria pensado de tudo isso. Prince Rogers Nelson nasceu em 1958, no norte da cidade em uma família de músicos negros. Seu pai, John L. Nelson, era um compositor de jazz da Louisiana e a mãe, Mattie Della Shaw, cantora. No entanto, muitos veículos de comunicação se referiram a ele durante anos como “birracial”, em boa parte devido ao personagem do filme Purple Rain (1984), inspirado nele, embora fosse ficção, e que tinha como pais um casal misto.

Em 1981, o crítico musical Robert Palmer escreveu: “Prince transcende os estereótipos raciais porque, como ele mesmo disse uma vez, ‘nunca cresci em uma cultura específica’. Suspeita-se que, com o passar do tempo, mais e mais o pop norte-americano reflita essa orientação birracial”. Prince parecia em ebulição permanente, sempre atribulado, desde sua famosa mudança de nome nos anos noventa por conta da disputa com sua gravadora de então (Warner) —”o artista antes conhecido como Prince”— até suas extravagâncias de divo. O mito foi finalmente cimentado com sua morte, em 21 de abril de 2016, de overdose de fentanil, um opiáceo que pode ser até 50 vezes mais letal que a heroína. Foi encontrado no elevador de Paisley Park, um complexo de salas de shows e de gravação a 30 minutos de Minneapolis, onde morava.

Visto de fora, parece um grande necrotério ou a sede de uma empresa em uma zona industrial. É uma anti-Graceland. Sóbrio, quase anódino, com o inconfundível símbolo do artista na porta como único sinal de identidade. Em vez das camisetas vermelhas da mansão-museu de Elvis Presley em Memphis, os seguranças usam ternos pretos e gravatas roxas. Por causa da pandemia, e também em contraste com Graceland, quase não há visitantes.

É difícil imaginar uma estrela de sua envergadura acabar a vida entre essas paredes. Prince era muito querido em Minneapolis em grande parte por causa disso, porque ao contrário de Bob Dylan, também de Minnesota, nunca deixou essa terra gelada. Não se mudou para Nova York ou para a Califórnia, como parece indicar o roteiro de personagens como ele. Era indomável até para isso. Pouco antes de morrer se tornou frequentador assíduo da Electric Fetus, uma loja de discos fundada no turbulento ano de 1968 por alguns amigos que queriam estimular o nervo contracultural da cidade, programando apresentações, conferências.

Seu herdeiro e atual responsável, Bob Fuchs, de 39 anos, fala com melancolia do que parecia que seria “uma relação duradoura”. “Tínhamos projetos em andamento, ele gostava do que fazíamos, vinha apoiar com frequência, também comprava discos e as pessoas respeitavam muito a privacidade dele, era tímido”, conta. A última coisa que levou para casa foi algo de Stevie Wonder, Santana, Chambers Brothers. Na loja, voltada para o vinil, sua discografia ocupa uma vitrine inteira. “O chamado som de Minneapolis que ele criou é real. Como cidade musical, Minneapolis é um dos segredos mais bem guardados, as pessoas só pensam em Nova York, Nashville…”, aponta Fuchs.

No famoso clube First Avenue, um mural de estrelas lembra os artistas que passaram por ali. Em dourado, aparece destacada a de Prince e, perto dela, um dos tantos com o lema Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que brotaram em todos os lugares depois da morte de Floyd. Na Rua Lake, a que sofreu mais danos, os escombros desapareceram e ficaram os terrenos. A delegacia de polícia que incendiaram, fechada com tapumes, parecia estar em reforma. Minneapolis é uma cidade próspera e logo o que foi destruído será reconstruído. Sua história, entretanto, mudou para sempre.

Antes de ir para o aeroporto, fui dar uma última olhada no leito marrom do Mississippi. Os moradores falam de suas águas turvas com estranho orgulho. Jonathan Raban descreveu isso muito bem em Old Glory, seu livro de viagens. “As pessoas veem nessa agitação uma encarnação de sua interioridade. Eles se gabam diante dos estranhos de sua perversidade, seu apetite por causar problemas e destruição, enchentes e afogamentos, há uma nota em suas vozes que diz: Tenho isso dentro de mim, sei o que se sente.”

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