Operação Lava Jato sacode a política mexicana

O ex-diretor da Pemex Emilio Lozoya acusa ex-presidentes, ex-ministros, governadores e deputados de terem recebido subornos milionários da construtora para votar a favor da reforma energética no país

Emilio Lozoya, ex-diretor da Pemex.
Emilio Lozoya, ex-diretor da Pemex.EFE

Finalmente, a bomba Lozoya explodiu com todo o seu poder de destruição e promete arrasar. A política mexicana vive horas turbulentas após o vazamento da denúncia completa de Emilio Lozoya, diretor da petroleira Pemex entre 2012 e 2016 e um dos homens mais próximos do então presidente Enrique Peña Nieto.

Nas 63 páginas de sua denúncia, Lozoya acusa 16 políticos de terem recebido grandes quantias em dinheiro, todos eles da oposição, incluindo três ex-presidentes (Peña Nieto, Felipe Calderón e Carlos Salinas de Gortari), dois ex-ministros, três atuais governadores, dois ex-diretores da petroleira Pemex, um ex-candidato presidencial da direita e vários senadores dos dois partidos que governaram o México nos últimos 90 anos: o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e o conservador Ação Nacional (PAN).

Na denúncia, Lozoya confessa que foram distribuídas maletas de dinheiro da construtora Odebrecht para a campanha de Peña Nieto e para diversos deputados, a fim de que promovessem a reforma energética – uma polêmica mudança jurídica considerada uma das reformas mais importantes do Governo de Peña Nieto, que permitiu a entrada de empresas privadas na exploração do petróleo mexicano.

No documento, que chegou na noite de quarta-feira a toda a imprensa, e de cujo vazamento o Ministério Público tomou distância num comunicado, Lozoya detalha datas, lugares e quantias específicas dos pagamentos realizados. Além de mencionar nomes e cargos concretos, as 63 páginas são um duro retrato da corrupção no México e do papel da Odebrecht e do PRI, uma aliança que “submeteu” o Estado mexicano, resume Lozoya em sua denúncia, esperando se livrar da prisão em troca dessa confissão.

Segundo Lozoya, todos os pagamentos foram feitos por ordem de Luis Videgaray, secretário da Fazenda e homem forte de Peña Nieto durante seus seis anos de Governo. O ex-diretor da Pemex admite, contudo, que já conhecia Luiz Weyll, diretor da Odebrecht México, antes de se incorporar à campanha de Peña Nieto e que o ajudou em diversos negócios no país, “mas, em 2013, a Odebrecht já tinha o presidente do seu lado. Em 2013, a relação entre a Odebrecht e o Estado mexicano não era uma relação de contratos, e sim de poder”.

Na denúncia, Lozoya confessa que pediu à empreiteira brasileira seis milhões de dólares (33,6 milhões de reais) por ordem de Peña Nieto para a campanha eleitoral de 2012, dinheiro que serviu para pagar consultores eleitorais nos Estados Unidos e na Alemanha, e que se tratou de um dinheiro que Marcelo Odebrecht havia oferecido a Peña Nieto desde sua etapa como governador do Estado do México.

De acordo com Lozoya, Weyll (o homem da Odebrecht no México) lhe disse que poderia contribuir com quatro milhões de dólares (22,4 milhões de reais), “dos quais 2,5 milhões seriam totalmente para a campanha” e “o 1,5 milhão restante foi para mim”. Além disso, o ex-executivo disse que Peña Nieto “estava perfeitamente ciente das contribuições que seriam feitas”.

O dedo acusador de Lozoya diz que, durante o Governo do ex-presidente Felipe Calderón (2006-2012) “foram montados sólidos esquemas de corrupção com a Odebrecht”. Sobre Carlos Salinas de Gortari (1988-1994), diz que pressionou para conseguir contratos da Pemex para seu filho.

Com relação ao ex-candidato a presidente da direita Ricardo Anaya, a denúncia fala diretamente de “extorsão” feita por ele em troca de apoio à reforma energética, acrescentando que os pagamentos foram feitos no estacionamento da Câmara dos Deputados. Lozoya diz que também receberam dinheiro os senadores Ernesto Cordero, Francisco Domínguez Servién, Jorge Luis Lavalle Maury, Salvador Vega Casillas e Francisco Javier García Cabeza de Vaca, atual governador de Tamaulipas. “A Odebrecht sabia de sua influência e submissão, de modo que não a perderia – nem queria perdê-la –, já que participava ativamente da política energética do país”, afirma Lozoya.

Calderón se defendeu dizendo que se trata de uma perseguição política orquestrada pelo presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador. O ex-mandatário alega que desde a detenção de Lozoya, em julho, López Obrador detalhou em suas coletivas diárias os nomes que a denúncia de Lozoya devia incluir. Por sua vez, Ricardo Anaya, ex-candidato a presidente do PAN, disse que se trata de um ato desesperado de um culpado. Já para o governador de Tamaulipas, Francisco Cabeza de Vaca, “Lozoya é um delinquente confesso que deveria estar atrás das grades mas se transformou em aliado político-eleitoral de López Obrador”.

Na única referência da denúncia ao partido no poder, Emilio Lozoya aponta para o governador de Puebla, Miguel Barbosa, do partido Morena (Movimento de Regeneração Nacional), dizendo que lhe pediu um favor pessoal, a transferência de seu irmão de um escritório em Guerrero para a Cidade do México, em troca do seu aval à reforma energética.

O vazamento da denúncia forneceu a artilharia perfeita para López Obrador, já que todos os seus inimigos políticos foram mencionados num único documento. O presidente, que toda manhã celebra a produção de respiradores com tecnologia 100% mexicana para a covid-19, saudou a iniciativa de Lozoya qualificando-a como uma denúncia grave e escandalosa: “O povo se cansa de tanta roubalheira.”

A acusação de Lozoya também inclui excêntricos detalhes que revelam uma forma de fazer política, como o presente de uma bolsa Chanel para uma jornalista, a Ferrari que o governador de Veracruz, Javier Duarte, deu de presente a Peña Nieto, os vinhos Vega Sicilia que este abriu para celebrar o presente, e o museu que o ex-presidente pretendia construir. Segundo Lozoya, Juan Armando Hinojosa, dono do Grupo Higa, construiu no Estado do México uma casa que abrigaria o Museu do Presidente para Enrique Peña Nieto, mas o imóvel acabou transformado num depósito de dinheiro, diz a denúncia.

O vazamento do documento acusatório chega três dias depois de López Obrador pedir ao Ministério Público que fosse divulgada a denúncia completa de Lozoya, protegida, no entanto, por segredo de Justiça porque Lozoya, que acompanha em casa o processo contra ele, se ofereceu para colaborar com a Justiça em troca de benefícios penitenciários. Segundo diversos advogados, o enorme vazamento e as ingerências do poder poderiam afetar gravemente o devido processo e a realização de um julgamento que poderia marcar um antes e um depois na política mexicana.

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