Sombra de Berlusconi volta a agitar o tabuleiro político italiano

Magnata é uma figura central nas manobras para formar um Governo de unidade caso o atual gabinete desmorone

O ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi discursa num comício em janeiro passado, na região da Emilia Romana.
O ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi discursa num comício em janeiro passado, na região da Emilia Romana.Flavio Lo Scalzo / Reuters

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Os movimentos tectônicos estão de volta à volátil política italiana. O Governo, presidido por Giuseppe Conte e composto por três partidos em permanente tensão (Movimento 5 Estrelas, Partido Democrático e Itália Viva), avança com dificuldade em direção a um outono turbulento. Ninguém mais confia em ninguém. A ideia de um Executivo de concentração, como a Itália já viveu em outras épocas de crise, ganha força nos últimos dias. Nesse cenário, Silvio Berlusconi, 83 anos e presidente de um partido hoje debilitado, o Força Itália, conseguiu se colocar no centro de uma rede em que volta a ser decisivo para a maioria dos movimentos.

Berlusconi vive há certo tempo afastado das lutas políticas. Com a saúde um pouco delicada, o magnata da mídia, que foi quatro vezes primeiro-ministro da Itália, só aparece em público quando é necessário e praticamente não participa do dia a dia do debate. Durante a pandemia, abandonou seu fortim de Arcore (Lombardia) e se recolheu à casa de sua filha Marina, na Costa Azul. O antigo Cavaliere continua sendo o presidente da cada vez mais residual Força Itália (tem uma estimativa de voto de 7,2%, segundo a última pesquisa do instituto Ipsos). Perdeu a liderança da coalizão de direita, e vários partidos disputam seu eleitorado. Mas, aos 83 anos, se dispõe a encarar uma jogada política, talvez sua última, em que todos os cenários diante de uma crise de Governo lhe seriam favoráveis.

O Executivo italiano cambaleia. As últimas decisões políticas, como a possibilidade de retirar a concessão das rodovias da empresa Atlantia, pertencente à família Benetton, causaram as mais recentes fissuras. O Executivo recuperou finalmente o controle de 88% da concessão, mas deixou muitas penas no caminho nessa discussão interna. Os três principais partidos que o compõem (Movimento 5 Estrelas, Partido Democrático e Itália Viva) são já incapazes de se entenderem, e o único motivo para continuarem unidos é chegar a 2022 para escolher o próximo presidente da República e evitar a aparentemente certa vitória da coalizão de direita, formada pelos partidos A Liga, Força Itália e Irmãos da Itália.

A crise de Governo, se vier a se concretizar, seria desta vez muito diferente da ocorrida um ano atrás, quando o líder da Liga e então ministro do Interior, Matteo Salvini, tentava tomar de assalto o cargo de primeiro-ministro. Hoje ninguém ambiciona diretamente o posto de Giuseppe Conte. O horizonte do outono europeu é muito impreciso. A perspectiva econômica fala de uma queda de até 13% no PIB, uma forte alta do desemprego e um compasso de espera muito prolongado para receber as ajudas da União Europeia. “A gestão da pandemia foi dura. Mas navegar nesta crise será muito pior”, opina um dos assessores do primeiro-ministro. O próprio Conte, cuja popularidade subiu nos últimos meses, sabe disso. Espalha-se a sensação de que ampliará o estado de emergência pela covid-19 até 31 de dezembro, em parte para prolongar um impulso político favorável e evitar a vertigem da fase seguinte.

A crise do Governo só ocorreria após as eleições regionais, em seis regiões, no final de setembro. A ideia geral, neste caso, seria a de formar um Executivo de concentração para enfrentar a calamidade econômica e financeira do país nos meses finais do ano. Um período em que deverão ser distribuídos os recursos que chegarem da União Europeia e em que todos vão querer aparecer. Berlusconi, um pouco afastado de seus parceiros da direita, tem um espólio parlamentar e uma posição relativamente neutra muito valiosa para tocar em várias bandas. E quase todos os rebotes o beneficiam.

A Força Itália já não esconde o interesse em formar um novo Governo e oferece apoio a possíveis acionistas. Mesmo que seus parceiros da coalizão de centro-direita (A Liga e os Irmãos da Itália) decidam não participar dela. Renato Brunetta, deputado e homem de grande confiança do proprietário da Mediaset, vê assim a questão: “A abordagem soberanista fracassou. Está de volta o momento de Berlusconi. E todo mundo está vendo isso. A maioria atual do Governo esgotou seu ímpeto. Está indecisa e o Governo Conte II não está qualificado para gerenciar a próxima fase. Nós estamos abrindo uma estratégia de unidade nacional para quem quiser se juntar a ela. Isso significa escolher um novo primeiro-ministro e construir um programa de Governo para as reformas do país”.

Assessor-chave

Berlusconi, que recebeu nos últimos dias o insólito reconhecimento público de inimigos históricos, como Romano Prodi e o ex-editor do La Repubblica Carlo De Benedetti, está falando sério. O sintoma mais claro da nova estratégia ocorreu algumas semanas atrás. Gianni Letta, 85 anos, responsável pela casa de máquinas dos quatro Governos de Berlusconi, voltou à cena. Fora dos círculos políticos habituais, o assessor mais instintivo e com a melhor agenda de contatos da última era política se reuniu em segredo com o ministro das Relações Exteriores e líder de fato do Movimento 5 Estrelas (M5S), Luigi Di Maio.

Um encontro revelado por La Stampa e enormemente estranho, dada a natureza dos dois políticos e a questão em discussão: o conselho de administração da entidade independente que regula a televisão pública. O M5S, cuja identidade se baseou durante anos em criticar a promiscuidade entre os negócios televisivos e a política de Berlusconi, concordou em deixar o ex-cavaliere pôr aí uma de suas pessoas de confiança e redatora da chamada lei Gasparri (2003), um das legislações que mais o beneficiaram no passado para expandir seus negócios.

Berlusconi, no crepúsculo de sua carreira, inesperadamente tem uma boa rodada no jogo. “O Governo está em pedaços. Perdeu a sensibilidade para as questões importantes”, diz um deputado do PD, partido integrante da coalizão do Executivo. “O momento é terrível, mas é evidente que alguém inteligente como ele pode tirar proveito disso. Tem a chave para os problemas de muitos dos protagonistas deste momento”, insiste.

Conte, imbatível nas pesquisas (é o político mais bem avaliado), tem um problema em casa. O sucesso colhido nos últimos meses eclipsou completamente Di Maio. “Luigi não suporta o primeiro-ministro. Acredita que está fazendo campanha dentro do partido contra ele”, diz um membro proeminente do M5S. E parte do M5S, fragmentado algo parecido a tribos políticas, não confia mais nele, prefere agitar o coquetel do caos e se preparar para o futuro. Daí, também, o encontro de Di Maio com Letta, no qual começou a troca de favores e se falou de um hipotético futuro após Conte.

A única figura que gera um consenso unânime na Itália no momento é a de Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu. Se a situação econômica e financeira do país se tornar insustentável, a maioria acredita que seria a pessoa certa para assumir o comando do navio no meio da tempestade. Berlusconi o apoiaria, o Itália Viva (o partido de Matteo Renzi) também já disse isso. Até uma ala do M5S, liderada pelo próprio Di Maio, o veria com bons olhos. Draghi é o único nome que faz Conte empalidecer.



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