Pandemia de coronavírus

Reino Unido prorroga quarentena até junho e anuncia regras a viajantes que entrarem no país por via aérea

Boris Johnson e Emmanuel Macron acordam que a medida não será imposta à França

Boris Johnson, primeiro-ministro britânico.
Boris Johnson, primeiro-ministro britânico.Hannah Mckay / Reuters

Boris Johnson anunciou que os visitantes do Reino Unido que entrarem no país por via aérea deverão ficar em quarentena. O primeiro-ministro vinculou a decisão ao momento em que caia suficientemente a taxa de transmissão do coronavírus (R), que atualmente está entre 0,5 e 0,9. “Para evitar contágios do exterior, já estou avisando que em breve chegará o momento, quando a transmissão for baixa o suficiente, de impor uma quarentena a todos aqueles que chegarem ao país por via aérea”, disse em um discurso televisionado à nação feito em Downing Street [residência oficial do primeiro-ministro], no qual esboçou as tímidas medidas de saída do confinamento que seu Governo vai adotar. Não será até junho, quando as decisões mais importantes começarão a ser tomadas.

Fontes do Palácio do Eliseu [sede do Governo francês], conforme informou a agência France-Presse, afirmaram que Johnson e o presidente francês, Emmanuel Macron, acordaram durante a conversa que mantiveram neste domingo que a quarentena não será imposta aos viajantes vindos da França. “Medidas de isolamento não serão aplicadas às pessoas procedentes da França na atual fase. Qualquer medida de um lado ou de outro será realizada de modo coordenado e recíproco”, anunciaram fontes do Governo francês.

O primeiro-ministro britânico anunciou o lançamento em uma escala de 1 a 5 em virtude do coronavírus, semelhante à usada em face das ameaças terroristas. É o modo de explicar aos cidadãos que o Reino Unido está prestes a sair do nível 4 (com um vírus ainda não contido em algumas regiões, mas sem perigo de saturação dos hospitais) para o nível 3, o que permitiria um levantamento gradual do confinamento. Serão avanços modestos, como a possibilidade de sair mais de uma vez à rua para se exercitar ou tomar sol nos parques.

Johnson usou uma linguagem extremamente cautelosa, cheia de condicionalidade, para explicar aos britânicos que semanas difíceis ainda estão por vir. Ao mesmo tempo, porém, o Governo quer começar a reativar o trabalho nos setores, como a construção ou a manufatura, em que o teletrabalho é impossível. “O primeiro passo será mudar a ênfase da mensagem”, anunciou. “Pedimos que vocês trabalhassem em casa e só fossem trabalhar se não houvesse outra escolha. Agora é necessário enfatizar a ideia de que todos aqueles que não podem trabalhar em casa devem ser incentivados a ir para seus postos. E queremos que vocês façam isso de maneira segura. Por isso devem evitar o transporte público sempre que possível para manter o distanciamento social. Sua capacidade será limitada (...) Quando for possível, vão de carro, de bicicleta ou a pé”, pediu Johnson.

A bússola de Boris Johnson em cada viagem política que empreende é um slogan. Uma frase simples que pode refletir a determinação e o rumo de quem a lança, mas também revelar suas dúvidas e carências. O Governo do Reino Unido lançou o confinamento para combater o coronavírus com a mensagem “Stay home. Protect the NHS. Save lives” (Fique em casa. Proteja o NHS. Salve vidas), cuja eficácia e clareza foram elogiadas por todos. Chegado o momento de pensar em uma estratégia de saída, quando o número de infecções continua sendo alarmante e o consenso geral é que se reagiu tarde e mal à pandemia, o slogan escolhido por Downing Street é “Stay alert. Contro the vírus. Save lives” (Fique alerta. Controle o vírus. Salve vidas). O próprio Johnson o anunciou em sua conta no Twitter neste domingo, horas antes da mensagem televisionada que deveria dirigir ao país, às 19h (15h em Brasília), com os primeiros e tímidos passos de uma saída do confinamento reclamada a gritos pelos empresários e desencorajada pelos cientistas. Alerta como? Controlar o quê? A cascata de críticas à estratégia do Governo revelou as primeiras fissuras na unidade entre partidos, territórios e opinião pública que as pesquisas refletiram até agora. “[Boris Johnson] Tem o direito de decidir o que considera mais apropriado para a Inglaterra, mas, dado o momento crítico em que estamos para derrotar o vírus, #StayAtHomeSaveLives continua sendo minha mensagem clara para a Escócia nesta fase”, escreveu na rede social a primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon. Não foi a primeira vez que mostrou suas divergências com a gestão da crise feita por Londres, mas foi a primeira vez que proclamou abertamente sua desobediência.

Johnson ofereceu aos seus compatriotas um pequeno consolo ao permitir saídas ilimitadas às ruas para fazer exercício, desde que respeitem a regra dos dois metros de distância. Ao mesmo tempo, alertou-os de que a polícia começará a ser mais severa com multas aos infratores.

A partir de 1º de junho, na melhor das hipóteses, será permitida a reabertura de algumas lojas e o retorno às escolas dos alunos do ensino fundamental. Para os alunos do ensino médio, Johnson espera poder autorizar permitir um breve retorno antes das férias de verão, sem especificar datas.

Somente a partir de julho, na melhor das hipóteses, anunciou o primeiro-ministro britânico, que hotéis, restaurantes e bares poderão começar a funcionar novamente, desde que o Governo considere que são capazes de aplicar as medidas de segurança e distanciamento exigidas.

“Já superamos o pico inicial de contágios, mas descer da montanha é sempre muito mais perigoso. Temos uma rota, temos um plano, e todo o Governo está sob a pressão de salvar vidas e de recuperar os níveis de bem-estar e liberdade de que todos necessitamos”, disse, “mas todo mundo deve colaborar para que esse plano funcione”.

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