Massacre de Atocha

Condenado por atentado de ultradireita em 1977 na Espanha é extraditado após ser preso no Brasil

Carlos García Juliá, preso em São Paulo em 2018, foi condenado a 193 anos de prisão pela justiça espanhola por matar cinco pessoas durante a transição espanhola. Ele estava foragido havia 25 anos

Carlos García Juliá (centro) no Aeroporto Internacional de São Paulo, nesta quinta-feira.
Carlos García Juliá (centro) no Aeroporto Internacional de São Paulo, nesta quinta-feira.Toni Pires

Quarenta e seis anos depois de perpetrar a matança de Atocha ―um dos atentados com maior impacto da transição espanhola― e depois de 25 anos fugitivo, Carlos García Juliá iniciou a viagem do Brasil a Madri para cumprir o que falta de sua condenação depois de ter sido extraditado. Ele foi condenado a 193 anos de prisão por matar a tiros cinco esquerdistas em um escritório de advocacia quando era um falangista de 24 anos. Hoje tem 67 anos. Depois de desembarcar em Barajas, na manhã de sexta-feira, será transferido para a prisão de Soto del Real (Madri), segundo uma porta-voz da Embaixada em Brasília.

A chegada do preso ao Aeroporto Internacional de São Paulo e sua entrega aos policiais espanhóis da Interpol foram realizadas com um efetivo reforçado de segurança e discrição, longe da imprensa. Ao contrário de outros presos, não passou pelo terminal como qualquer passageiro. Uma van levou o coautor do massacre de 1977 ao avião depois de ter sido entregue às autoridades espanholas na delegacia do aeroporto.

Vestido com pulôver e calça azul marinho, grisalho, com óculos e mais magro do que na foto do Facebook antes de ser preso, foi visto conversando com o cônsul em São Paulo, Ángel Vázquez Díaz de Tuesta, na presença dos agentes que vieram da Espanha. O preso só carrega bagagem de mão: uma mala e uma sacola vermelhas.

Acompanhado por policiais espanhóis da Interpol, García Juliá foi levado para um voo comercial da Iberia que decola às 16h05 (20h05 na Espanha) com destino ao Aeroporto Adolfo Suárez, em Madri, onde deve aterrissar às 6h de sexta-feira. Os prisioneiros transferidos para a Espanha geralmente entram no avião antes do resto dos passageiros e viajam na última fila ladeados por policiais. O voo dura cerca de 10 horas.

Entregue pelo primeiro Governo de extrema direita do Brasil desde o fim da ditadura, em 1985, García Juliá chega a uma Espanha com um Governo de esquerda, o primeiro de coalizão.

Tinham passado apenas dois anos da morte de Franco quando García Juliá e outro terrorista invadiram atirando o escritório dos advogados trabalhistas vinculado ao sindicato Comissões Operárias e ao ainda ilegal Partido Comunista. Assassinaram os advogados Enrique Valdevira, Luis Javier Benavides e Francisco Javier Sauquillo, o estudante de Direito Serafín Holgado e o secretário Ángel Rodríguez Leal. Quatro outras pessoas ficaram gravemente feridas. “Eu estava tentando ajudar as forças de ordem pública a defender a Espanha da subversão”, disse García Juliá no julgamento, realizado em 1980.

A matança da rua Atocha, 55, em Madri “serviu sem dúvida para consolidar o caminho para a democracia”, disse a este jornal em 2016 um dos sobreviventes, o advogado Alejandro Ruiz Huerta. Porque a moderação mostrada pelo Partido Comunista abriu caminho para sua legalização, segundo relatam Jorge Martínez Reverte e sua irmã Isabel em La Matanza de Atocha – 24 de enero de 1977 (La Esfera de los Libros).

O antigo falangista foi preso no final de 2018 enquanto trabalhava em São Paulo como motorista do Uber. Desde então ficou preso na sede da Superintendência da Polícia Federal, na mesma cidade, em uma ala reservada aos presos que aguardam extradição.

O ultradireitista foi localizado em 2018, quando, por uma ordem de busca e captura da Interpol, suas impressões digitais coincidiram com as arquivadas no Brasil em nome de um venezuelano. O madrilenho vivia havia anos como Genaro Antonio Materán, substituindo a identidade de outro com documentos autênticos. Nem mesmo sua companheira sabia a verdade.

Embora sua defesa tenha tentado atrasar o processo de extradição, a transferência é feita um mês depois que o Supremo Tribunal Federal rejeitou seu último recurso e o presidente Jair Bolsonaro assinou a entrega. Seu advogado brasileiro, Daniel Mourad Majzoub, explicou a este jornal no mês passado que García Juliá se arrepende do assassinato que cometeu.

Seu rastro foi perdido em 1994, quando desapareceu no Paraguai, aonde foi em liberdade condicional com permissão do juiz. O outro assassino, José Fernández Cerrá, cumpriu uma breve pena. O terceiro extremista, Fernando Lerdo de Tejada, que ficou vigiando a porta, é fugitivo desde que também escapou durante uma saída temporária.

O Brasil foi para o coautor da histórica matança a última parada de uma fuga que o levou por quase toda a América do Sul. Durante anos manteve contato com outros neofascistas que fugiram para a América Latina, mas depois de três anos preso por tráfico de drogas na Bolívia ―onde em 1999 foi localizado por repórteres da revista Interviu― apostou em uma vida de perfil baixo com a identidade de outra pessoa. Até agora. Quarenta e três anos depois da matança e depois de 25 anos como fugitivo, um juiz decidirá agora seu destino.

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