Discurso do Estado da União

Discurso do Estado da União de Trump exibe a hostilidade política nos EUA

Presidente faz um pronunciamento em estilo eleitoral, com momentos de programa televisivo, atacando os imigrantes e gabando-se da economia. Chefe da Câmara rasga a cópia do seu discurso

A presidente do Congresso, Nancy Pelosi, rasga uma cópia do discurso do Estado da União proferido por Donald Trump no plenário.
A presidente do Congresso, Nancy Pelosi, rasga uma cópia do discurso do Estado da União proferido por Donald Trump no plenário.Patrick Semansky / AP

A noite de terça-feira começou de forma rude. Donald Trump subiu à tribuna da Câmara de Representantes (deputados) para proferir o discurso anual do Estado da União, uma dessas datas culminantes na agenda de um mandatário norte-americano, e negou um aperto de mãos à presidente da Câmara e terceira maior autoridade dos Estados Unidos, Nancy Pelosi. O republicano se dirigia ao país em circunstâncias excepcionais, a um dia de receber o veredicto —previsivelmente de absolvição— no julgamento político pelo escândalo da Ucrânia, promovido pelos democratas, com Pelosi à frente. A partir de então, durante uma hora e 18 minutos, o presidente fez algo muito parecido a um comício com selo trumpista, gabando-se da economia, agitando a imigração e com toques de programa televisivo. Ao terminar, Pelosi rasgou a cópia do discurso de Trump, com evidente desprezo. Quando depois a imprensa lhe perguntou o porquê da atitude, a veterana deputada respondeu: “Porque era algo cortês considerando-se a alternativa. Que discurso mais sujo!”.

E foi assim que esse evento solene na agenda do Capitólio revelou o nível de hostilidade atual na política norte-americana. Trump é o terceiro presidente na história do país a ser submetido a um julgamento de impeachment, mas o primeiro nessa situação ao disputar a reeleição. O discurso do Estado da União marcou uma espécie de início da sua campanha eleitoral, se é que em algum momento ela havia terminado, já que o republicano parece ser viciado em palanques e frases grosseiras.

“Os anos de decadência econômica terminaram. Os dias em que usavam nosso país, se aproveitavam dele, e inclusive era desprezado por outras nações, ficaram para trás”, enfatizou. Reiterou sua promessa de retirar as tropas do Iraque, disse que em um ano teria construído até 800 quilômetros do polêmico muro na fronteira com o México, e bateu no peito pela morte do poderoso general iraniano Qasem Soleimani num ataque com drones. Também acusou as cidades-santuários (as que evitam perseguir os imigrantes irregulares que não cometeram crimes) de favorecer a delinquência e aproveitou para atacar os programas dos pré-candidatos democratas, acusando-os de pretenderem “dar saúde grátis” aos estrangeiros sem documentos.

A tensão podia ser cortada com tesoura. Depois que Trump evitou apertar a mão de Pelosi, esta apresentou o mandatário sem cerimônias: “Membros do Congresso, o presidente dos Estados Unidos", disse secamente, em lugar do habitual: “Membros do Congresso, tenho o grande privilégio e especial honra de lhes apresentar o presidente dos Estados Unidos”. Enquanto Trump falava, Pelosi às vezes sorria enquanto negava com a cabeça. A crispação já se manifestava horas antes. Congressistas populares, como a jovem esquerdista Alexandria Ocasio-Cortez e Ayanna Pressley, ambas integrantes de um quarteto de novas legisladoras combativas, conhecidas popularmente como the squad (o esquadrão), decidiram se ausentar dessa sessão tão relevante, em protesto pelo “desprezo” do mandatário ao Congresso.

Trump é acusado de abuso de poder no caso da suposta pressão que exerceu sobre a Ucrânia para obter benefícios políticos pessoais, e de obstrução ao Congresso por torpedear a investigação relacionada ao caso. O mandatário começou a falar por volta das 21h (23h em Brasília). Em menos de 24 horas, perto desse plenário, a maioria republicana do Senado deverá inocentá-lo, embora vários dos senadores do seu próprio partido tenham recriminado sua atuação. O presidente manobrou, diretamente e também através de intermediários, para forçar a Justiça ucraniana a anunciar investigações sobre seus rivais políticos democratas, em especial o pré-candidato presidencial Joe Biden, e supostamente chegou a utilizar a entrega de ajudas militares como moeda de troca.

A presença de Juan Guaidó, convidado especial ao ato, foi uns dos escassos momentos de trégua no Capitólio. Trump o reconheceu como “único e verdadeiro presidente da Venezuela”. Tanto Pelosi como o vice-presidente, Mike Pence, e boa parte da Câmara se levantaram para aplaudi-lo. “[Nicolás] Maduro é um dirigente ilegítimo, um tirano que trata o seu povo com brutalidade. Mas seu mandato de tirania será esmagado e rompido”, disse o republicano. O reconhecimento generalizado representou um importante respaldo ao político venezuelano, num momento de desgaste, mais de um ano depois de ele se declarar presidente da Venezuela, mas sem que Maduro tenha deixado o poder.

Trump, o presidente que chegou à Casa Branca após anos como apresentador de reality shows, proporcionou momentos de puro entretenimento televisivo. Como quando surpreendeu a esposa e os dois filhos do sargento Townsend Williams com o retorno do militar para seu lar, após sete meses de missão no Afeganistão. Ou quando Melania Trump entregou de forma inesperada a medalha presidencial da liberdade ao radialista conservador Rush Limbaugh, que tem câncer.

Perto do mesmo plenário, nesta quarta, lhe aguarda o veredicto final. A maioria republicana do Senado muito provavelmente garantirá a sua absolvição. O que não está claro, a sete meses das eleições presidenciais, é o efeito que esse processo pode ter nas urnas no final do ano. O bom andamento da economia sustenta a popularidade do mandatário em seu máximo (49%), e nas últimas semanas, perante suas bases, marcou vários tentos na política externa: a trégua comercial com a China, a reforma do tratado com o México e o Canadá e a morte de Soleimani. Na noite desta terça-feira, declarou-se autor de uma espécie de ressurreição norte-americana: “Em apenas três anos, estraçalhamos a mentalidade decadente da América e a estreiteza de visão sobre o destino dos Estados Unidos”. Os republicanos o ovacionavam e pediam um segundo mandato: “Mais quatro anos, mais quatro anos!”. Ao terminar, Pelosi rasgou os papéis.

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