Eleições dos EUA

Buttigieg e Sanders lideram ‘caucus’ caótico dos democratas em Iowa

Trump celebra confusão em dia de discurso do Estado da União e na véspera de se livrar de processo de impeachment no Senado

Pete Buttigieg, um jovem político de Indiana de perfil impetuoso, e Bernie Sanders, o veterano senador de esquerda por Vermont, estão à frente do caucus de Iowa, o primeiro evento da longa campanha das primárias democratas, em uma jornada desconcertante por causa do fiasco da apuração. O tiro de partida da corrida à presidência mais poderosa do mundo se tornou uma festa da confusão, um fracasso sideral. Os resultados dos caucus, as assembleias de bairro realizadas na segunda-feira, chegaram com quase 24 horas de atraso por problemas técnicos e “incongruências” nos dados recebidos. Quando foram divulgados, significaram uma surpresa fenomenal.

Com 62% dos distritos eleitorais, o terceiro colocado nas pesquisas de Iowa, Buttigieg, ex-prefeito de South Bend, de 38 anos, tinha 26,99%. Era seguido de perto por Sanders (25,1%), o favorito. Os números, se consolidados com 100% da apuração, são um preocupante revés para Joe Biden, vice-presidente da era Obama, que encarna a aposta continuísta e continua liderando as pesquisas nacionais. A senadora progressista Elizabeth Warren ficaria com 18%.

Se Iowa importa tanto nas longas primárias democratas, não é por seu peso quantitativo ―elege apenas 41 dos 1.991 delegados necessários para ganhar a indicação―, mas pelo impulso midiático que representa vencer a primeira batalha e pelo efeito peneira que implica para os que obtêm piores resultados. Para os primeiros, os vencedores, o fiasco roubou seu momento na história diante dos olhos de meio mundo, que acompanha o que acontece neste pedaço da América agrícola. Iowa é um caso fascinante na democracia norte-americana. Um pequeno Estado, com pouco mais de três milhões de habitantes, onde os cidadãos votam em assembleias com a mão erguida, depois de um debate em voz alta. Mas na segunda-feira esse modelo arcaico mostrou seus inconvenientes.

Na noite de segunda-feira tudo indicava uma falha no novo aplicativo usado para coletar as informações, que neste ano incluiria pela primeira vez diferentes tipos de dados: grosso modo, em vez de informar apenas o vencedor final por número de delegados, também forneceria as duas primeiras rodadas de votos individuais. Nesta terça-feira os democratas especificaram que “enquanto o aplicativo estava coletando os dados com precisão, só estava informando dados parciais”, algo que, segundo a investigação realizada, se deveu a um “problema de codificação” já identificado.

À noite, os pré-candidatos que participavam da disputa ―Bernie Sanders, Joe Biden, Elizabeth Warren e Pete Buttigieg― subiram aos palcos de suas respectivas sedes eleitorais para fazer discursos surpreendentes, mais próprios de um comício do que de uma reação aos resultados, pois não havia dados oficiais para reagir. No entanto, Warren e Buttigieg se dirigiram aos seus seguidores como vencedores. A senadora por Massachusetts se declarou “um passo mais perto” da vitória e Buttigieg enfatizou que “uma esperança improvável se tornou uma realidade inegável”.

Na terça-feira de manhã eles foram mais específicos. “Não sabemos os resultados”, admitiu Buttigieg, mas “sabemos que vocês chocaram a nação, Iowa”. “De acordo com todos os indicadores, vamos para New Hampshire vitoriosos”, disse, referindo-se à próxima jornada das primárias, na terça-feira. Já presente nesse Estado para fazer campanha, Warren se manifestou assim sobre os resultados: “É uma corrida muito apertada entre três na parte de cima. Sabemos que nós três vamos dividir a maioria dos delegados que vierem de Iowa”.

A exasperação era mais palpável entre os seguidores de Sanders, o favorito nas pesquisas para este caucus. Reunidos no hotel Holiday Inn perto do aeroporto, deixavam o estabelecimento depois da meia-noite de segunda-feira com suas bandeiras e cartazes. Não podiam cantar vitória com certeza absoluta e, no entanto, cantaram. Um grupo, já muito tarde, começou a cantar em coro esse triunfo gasoso. Depois da meia-noite, expulsaram a imprensa do recinto porque o aluguel havia expirado. Era tarde para tudo, mas o senador por Vermont disse que sentia que as primárias estavam “indo muito bem” para ele. “Hoje [segunda-feira] é o início do fim da presidência de Donald Trump”, enfatizou.

A campanha do republicano aproveitou a oportunidade para atacar os adversários políticos. “Os democratas estão se metendo em um desastre de caucus de sua própria criação”, com o sistema de apuração “mais tosco da história”, zombou Brad Pascale, chefe de campanha, em um comunicado na noite de segunda-feira. O próprio presidente não perdeu a oportunidade de ironizar no Twitter. Sujeito a um impeachment no Senado, prestes a obter o esperado veredito de absolvição, cresceu diante do caos de seus adversários: “Quando os democratas começarão a culpar a Rússia, em vez de sua própria incompetência?”.

Que Trump chegaria ao discurso do Estado da União na noite desta terça-feira isento do processo impeachment, na falta apenas da votação final nesta quarta-feira, era um fato incontestável. Mas que se dirigiria à sessão plenária do Congresso e à nação durante o horário nobre sentindo-se pleno e com a melhor arma de partida para sua reeleição em 2020, o caos monumental na contagem de votos dos democratas nos caucuses de Iowa, isso lhe foi servido de bandeja.

O Partido Democrata de Iowa esclareceu assim que informou o problema que não se tratava de pirataria ou de um ataque de hackers, mas demorou em explicar com clareza. Havia detectado “incongruências” nas informações recebidas do caucus. “A integridade dos resultados é fundamental”, disse o porta-voz Mandy McClure. “Tivemos um atraso nos resultados devido aos controles de qualidade e ao fato de que o partido está informando três grupos de dados pela primeira vez”.

A campanha de Trump, em meio ao desconcerto, comemorou a vitória do presidente em suas primárias. Porque sim, há dois republicanos que tentaram disputar com ele a candidatura para novembro com resultados ridículos. Joe Walsh, um locutor de rádio conservador, e William Weld, o libertário ex-governador de Massachusetts. Trump continua sendo presidente e líder de seu partido. Essa é a única certeza da noite em Iowa.

Colaborou Yolanda Monge

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