Protestos do Chile questionam história oficial das estátuas

Ação dos manifestantes, que danificou 329 monumentos, suscitou um debate entre os críticos do vandalismo e os partidários de reconquistar os monumentos públicos

Monumento na praça Itália, doação da comunidade italiana no Chile por ocasião do primeiro centenário da independência desse país.
Monumento na praça Itália, doação da comunidade italiana no Chile por ocasião do primeiro centenário da independência desse país.Francisco Ubilla

Pelo menos 329 monumentos públicos foram danificados pelos manifestantes nos três meses de eclosão social no Chile, que pôs contra as cordas a institucionalidade do país para exigir reformas aprofundadas. Sobretudo em cidades como Santiago e Valparaíso, as esculturas nas ruas, avenidas e praças se transformaram em um grande quadro-negro de palavras de ordem e reivindicações sociais as mais variadas. As obras quase desaparecem por trás de dezenas de arranhões, pichações a spray ou elementos aderidos. Algumas foram deformadas e rachadas. Segundo o cadastro do Conselho de Monumentos Nacionais, 24 se perderam por completo e foram retiradas ou substituídas. Assim ocorreu na cidade de La Serena, 450 quilômetros ao norte da capital, onde os manifestantes retiraram um monumento em homenagem ao conquistador espanhol Francisco de Aguirre e em seu lugar instalaram a escultura Milanka, em homenagem à mulher da cultura indígena diaguita.

“Como instituição, lamentamos o dano ao patrimônio e aos monumentos. Trata-se de bens públicos e comuns que são parte de um legado, de uma história e memória coletiva que se apaga ou se perde”, afirma Consuelo Valdés, ministra de Cultura do Governo de Sebastián Piñera. Mas acrescenta: “Junto a essa leitura e definição, também acreditamos que os fatos recentes devem confirmar que o patrimônio é um bem simbólico, dinâmico e em permanente reflexão. Seu significado está constantemente aberto à discussão democrática, já que estes bens existem, são protegidos, têm sentido e vigência na medida em que representam algo para a sociedade”. A ministra defende que “cada geração e comunidade possa submeter seu valor a revisão e debate, mas sempre através de um diálogo republicano amplo, tolerante e respeitoso da institucionalidade vigente”. Para o Governo, a recuperação do patrimônio deveria se adaptar a esses critérios.

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O assunto abriu um profundo debate na sociedade chilena. Segundo quem veja, destaca-se que as esculturas sofreram “intervenções”, “danos” ou simplesmente “vandalismo”. Instituições como o Colégio de Arquitetos manifestou seu rechaço ao ocorrido desde 18 de outubro: “Detenhamos a destruição do espaço urbano de todos”.

Os arredores do epicentro das concentrações em Santiago, a praça Itália – ou da Dignidade, como parte da população agora a chama –, estão irreconhecíveis inclusive para quem nasceu na cidade. Parece uma urbe logo depois da explosão de uma bomba. Neste cenário, em 31 de dezembro um grupo utilizou cordas e ferramentas para tentar derrubar o monumento ao general Manuel Baquedano, enquanto era observado ao vivo por milhares de usuários das redes sociais.

Erguida em homenagem a um militar e político do século XIX, trata-se de uma das esculturas que mais sofreram alterações, por se encontrar no centro dos protestos. Feita de bronze, não existe espaço nem no pedestal nem no seu corpo que não esteja cheia de rabiscos e cartazes. Logo depois de um árduo debate técnico, as autoridades decidiram manter a escultura, embora com reforços. “Remover o monumento do general Baquedano não só pode afetar a segurança de sua estrutura e das pessoas, mas também é não dar conta do dinamismo do patrimônio”, afirma Carlos Maillet, diretor do Serviço Nacional do Patrimônio Cultural.

Na mesma zona, em um dos espaços verdes de maior tradição da capital, o Parque Florestal, não existe nenhuma estátua que se encontre como estava antes de 18 de outubro: de Lincoln a Rubén Darío. Algumas têm os olhos vermelhos pintados, em protesto pelos feridos oculares dos protestos. Os lemas parecem infinitos: “Pacos (policiais) assassinos, Anarquia, Resistência, Não + AFP (sistema de pensões), arriba os que lutam”. Em um percurso pelo bairro, Luis Montes Rojas, acadêmico da Universidade do Chile e doutor em Escultura, reflete assim: “A escultura e o monumento foram utilizados como lugar de representação do conflito”. Segundo esse pesquisador, o que aconteceu no espaço público chileno expressa a falta de pertencimento e a desafeição dos cidadãos por signos que não consideram próprios. É um dos assuntos que analisa em sua mostra Contra a Razão, em cartaz atualmente no Museu Nacional de Belas Artes de Santiago (em um edifício histórico com a fachada toda pichada), em uma exposição considerada antecipatória. Para Montes Rojas, não se pode comprar os ataques às estátuas com os danos à infraestrutura pública: “Determinados símbolos, por seu caráter monumental, permitem amplificar a demanda, e a demanda política desde 18 de outubro subiu no pedestal no Chile. Estávamos mal acostumados a entender os monumentos como objetos ornamentais e não como marcos políticos”.

De acordo com o acadêmico, o objetivo da revolta é tornar patente a demanda relativa a uma série de desigualdades. Nota-se isso na que, para muitos, é a melhor escultura que existe em um espaço público chileno: a Fonte Alemã, do escultor Gustavo Eberlein, na mesma zona do epicentro dos protestos em Santiago.

Símbolo da revolta

Presente da comunidade alemã ao Chile por ocasião do centenário da sua independência, em 1910, transformou-se hoje em um símbolo multicolorido da explosão social: as reivindicações cívicas saturam esta obra secular, que a cada manifestação maciça volta a se transformar num espaço apropriado pelas pessoas. Segundo uma análise das estátuas que foram alteradas em todo o Chile, Montes Rojas observa um arroubo anti-institucional, antimilitar e anticolonial. No sul do país, na cidade de Concepción, centenas de pessoas conseguiram em novembro derrubar a estátua do colonizador espanhol Pedro de Valdivia, numa ação que ficou registrada em centenas de vídeos que circulam hoje em dia pelas redes sociais.

O artista visual Bernardo Oyarzún atribui esses ataques ao desprezo da população por um conjunto escultórico que, na maioria dos casos, não a representa. “Por outro lado, nos últimos anos no Chile surgiu uma nova leva de historiadores que levantaram a história que estava escondida, a que não se ensina nas escolas e, portanto, existe maior informação sobre os supostos próceres”. Para Oyarzún – um escultor que em sua obra tem questionado a história oficial do Chile –, no marco dos protestos “os cidadãos tentaram corrigir um falso imaginário, como ocorreu com Stálin, Saddam Hussein e tantas vezes”. E antecipa: “Seria um erro voltar a instalar os monumentos derrubados. O espaço público deve ser repensado, desta vez de uma forma democrática”.

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