Bento XVI pede retirada do seu nome de livro que defende celibato clerical

Publicação em coautoria com o cardeal Robert Sarah havia gerado dúvidas sobre a relação entre os dois papas

O Papa emérito Bento XVI, em uma imagem de 2015.
O Papa emérito Bento XVI, em uma imagem de 2015.GREGORIO BORGIA / AP

O rocambolesco caso protagonizado por Bento XVI e a publicação de um livro em que questionava a possível ordenação de homens casados, a poucas semanas de seu sucessor, o papa Francisco, tomar uma decisão sobre o assunto, teve uma nova reviravolta nesta terça-feira. O ex-pontífice, após o alvoroço midiático gerado, pediu que seu nome seja retirado como coautor do polêmico livro que ameaça seu relacionamento com Francisco e tornou a fazer dele a bandeira dos adversários do Papa numa guerra ideológica que já dura vários anos.

Segundo o entorno de Ratzinger, o alemão, de 92 anos, não deu sua autorização para aparecer na capa como coautor. Os documentos fornecidos e o comunicado divulgado pela manhã por Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, dizem o contrário. O conteúdo do livro, incluindo a parte escrita pelo papa emérito, serão mantidos.

A publicação, assinada com o cardeal preferido pela ultradireita para o próximo conclave, se opõe frontalmente ao celibato opcional e, sobretudo, à ordenação de homens casados (algo que o Sínodo da Amazônia aprovou em outubro passado e que está submetido à reflexão de Francisco nos últimos dias). O Vaticano, que não sabia da aparição do livro (lançado nesta terça na França), inicialmente o minimizou, dizendo se tratar de uma contribuição feita a partir da “a obediência filial ao papa Francisco”. No dia seguinte, publicou em seu próprio site as palavras do secretário pessoal de Ratzinger, Georg Gänswein, desvinculando o pontífice emérito da obra e dando a entender que tinha sido enganado.

Gänswein, secretário e filtro de Ratzinger com o exterior nos últimos anos, afirmou que ambos não sabiam do formato em que a contribuição de Bento XVI seria editada. Na noite anterior, uma fonte próxima a Bento contou a vários veículos que o papa emérito “só pôs à disposição de Sarah um texto sobre o sacerdócio que ele estava escrevendo” e que “não sabia nada da capa de um livro, nem a tinha aprovado”. O cardeal, entretanto, respondeu no Twitter apresentando a correspondência entre ele e Ratzinger, na qual se demonstra que estava a par de como tinha ficado o texto final e dava sua autorização para que o cardeal o usasse conforme combinado em conversar anteriores.

Na terça-feira, Sarah reiterou em um comunicado que Ratzinger sabia da existência do volume, do seu conteúdo e da data de publicação. O cardeal insiste em que o papa emérito viu o livro pronto em 19 de novembro, incluindo a capa – com a foto dos dois – e seu conteúdo. Em 25 de novembro, segundo essa correspondência, Bento XVI manifestou sua aprovação à publicação “segundo a forma prevista”. Também consta que em 3 de dezembro ele visitou Joseph Ratzinger em sua residência Mater Ecclesiae, no interior do Vaticano, onde vive desde sua abdicação, e que então lhe comunicou que o livro sairia em 15 de janeiro.

Sarah, entretanto, decidiu pedir à editora que retire a assinatura de Ratzinger da capa do livro nas futuras edições, e que o papa emérito figure apenas como colaborador. Mas a questão de fundo continua apresentando algumas interrogações. Se Sarah tiver mentido e abusado da confiança de Bento XVI, deveria renunciar ao cargo de prefeito da Congregação para o Culto Divino? Na Santa Sé, preocupa também a gestão feita pelo entorno de Ratzinger e o fato de não estar protegido dessas ciladas. A renúncia ao papado em 2013 e sua convivência com outro pontífice não tinha antecedentes na era moderna e carece de uma linha clara sobre como um papa emérito deve se comportar. Tampouco do guarda-chuva institucional sob o qual deve estar a tutela de seu legado teológico e sua própria figura.

Os últimos dias de Bento XVI como Papa foram enormemente turbulentos. Os de sua aposentadoria, um experimento histórico que começou de forma impecável, começam a ser conturbados também.

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