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“Tudo bem não estar bem”, o lema da nova era que dá adeus ao pensamento positivo

Naomi Osaka e sua capa da ‘Time’ certificam o fim do slogan “Vai ficar tudo bem” e apelam a uma nova etapa, em que a identificação feminina não é ditada pelas vencedoras

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MIKEL JASO / EPS
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Dizia Naomi Osaka na capa da revista Time alguns dias atrás: “It’s ok not to be ok” (“Tudo bem não estar bem”). A tenista, que desistiu da disputa de Roland Garros há algumas semanas para cuidar da sua saúde mental, confirmava na revista, em um texto em primeira pessoa, a pressão que sofreu nos últimos meses. Falava também na importância de trazer à tona o debate sobre a saúde mental do nosso tempo, e não só no esporte: “Espero que as pessoas entendam que está bem não estar bem, e está bem falar disso. Há pessoas que podem ajudar e, em geral, há uma luz no final de qualquer túnel”, escreveu ela, valorizando a frase que mais ouviu no último ano e meio, porque Naomi Osaka não é a única a defender que temos que dizer que estamos péssimos, e não há problema nenhum nisso.

No texto, Osaka apelava ao apoio pessoal de outras personalidades, como Michelle Obama e Meghan Markle, figuras que, por acaso, também quiseram centrar sua participação no debate social em promover uma mudança de paradigma sobre esse sentimento generalizado. Um zunzunzum que já era ouvido socialmente mesmo antes da crise do coronavírus, em pleno debate sobre a aceleração social e a sociedade do cansaço.

A ex-primeira-dama está há meses expressando em suas redes sociais que não há problema nenhum em não ter certezas na vida. “Está bem não se sentir bem”, disse ela no seu podcast do Spotify já em agosto 2020, quando admitiu estar ligeiramente deprimida e afligida pelos acontecimentos e protestos sobre o racismo sistêmico dos EUA , algo que reafirmou também no seu Instagram. “Tudo bem você não saber quem é ou o que quer ser neste momento”, insistiu ela em um vídeo nas suas redes sociais, em março deste ano, dirigido a suas jovens seguidoras. Markle fez o mesmo quando escreveu sobre seu aborto no ano passado: “Sentada em um leito de hospital, vendo como meu marido estava com o coração destroçado enquanto tentava segurar os pedaços quebrados do meu, percebi que a única forma de começar a se curar é perguntar primeiro: você está bem?”, escreveu ela no ensaio onde compartilhou que tinha sofrido um aborto pouco tempo antes e apelava, em tempos de coronavírus, a uma defesa de nos justificarmos sem disfarces sobre nossa saúde emocional. “Se nós estamos bem? Este ano levou muitos de nós aos nossos extremos. Em 2020, a perda e a dor afetaram a todos, em momentos tensos e de fragilidade”, escreveu.

A frase do momento, outra isca para o marketing emocional. Foto: ETSY.
A frase do momento, outra isca para o marketing emocional. Foto: ETSY.

A sensação é transversal, qualquer um se sente identificado e interpelado por esta sentença. “Está bem não estar bem. O fato é que não se pode manter este nível de ansiedade por tanto tempo seguido. Há um momento em que é preciso encarar e dizer: ‘Então, não estou bem, mas tudo bem saber que não estou’. Porque isso é, justamente, a nova normalidade. É o que há”, disse ao EL PAÍS a diretora de She dies tomorrow, Amy Seimetz, cujo longa foi, oportunamente, etiquetado como o primeiro filme de terror da era da covid.

Na Espanha, cada vez mais personalidades normalizam esta inquietação. “Não está mal sentir-se mal. É saudável falar, se comunicar”, escreve a cantora La Mala Rodríguez em suas recém-lançadas memórias, Como ser mala (Editora Temas de Hoy , 2020), apelando a visibilizar o estado de ânimo sem medo de rejeição. “A saúde mental é muito importante e se sofre muito por não poder abordá-la, sobretudo as mulheres”, conta em seu livro, onde recorda sem disfarces a depressão que sofreu após trabalhar em Lujo Ibérico e como teve vários surtos esquizofrênicos diagnosticados em sua juventude, o que trata através da medicação.

Uma nova era de marketing emocional

Dos arco-íris sobre traços infantis do “Tudo ficará bem”, passamos a uma cultura que apela a normalizar a incerteza e o desassossego e, consequentemente, o transforma em um lema do marketing. No Etsy, a plataforma de venda de produtos feitos à mão e termômetro das tendências nos lemas existencialistas para pendurar na sala, há mais de 1.200 produtos com a frase “It’s OK not to be OK”. A mesma tipografia mr. wonderfuliana que há alguns pregava devorar o mundo, porque éramos os melhores, agora nos interpela recordando que não há problema nenhum em não ter chegado ao topo e estar ferrado por isso.

“A era da Girlboss (garota chefona) morreu. Bem-vinda à era da Girloser (garota perdedora)”, escreveu a escritora e editora do Bustle, Gabrielle Moss, dias atrás no site Medium. A cultura do feminismo corporativo que nos urgia a sermos chefas do nosso tempo está morta e enterrada, por obra e graça do ativismo social, e agora enfrentamos novos tempos, resumidos em uma frase passível de virar marketing, tanto quanto a que abre este texto: “O caos reina, e ser uma mandona não vai proteger você”. Moss pede “dar uma chance à perdedora que está dento de você”. Essa que, assumindo o fado dos seus tempos, corre para comprar uma vela (esgotada) em que se lê: “Por favor, não ferrem as minhas férias”.

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