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Kimmich: “O problema é que, no futebol, sentir pressão é interpretado como um defeito”

O volante alemão do Bayern de Munique conversa com o EL PAÍS antes da estreia na Champions League, nesta terça-feira, quando enfrentará o Barcelona no Camp Nou

Joshua Kimmich, durante uma partida pelo Bayern nesta temporada.
Joshua Kimmich, durante uma partida pelo Bayern nesta temporada.AFP7 vía Europa Press / Europa Press

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Tem 26 anos e cara de criança. Quando sorri, parece ainda mais novo. Mas quando começa a falar, tudo muda. Até sua irmã diz: “Joshua, você tem a vida de um homem mais velho”, conta Joshua Kimmich, volante da seleção alemã e do Bayern de Munique, que encara nesta terça-feira o Barcelona às 16h (horário de Brasília), partida que marca a estreia de ambas as equipes na Champions League 2021/22. “Ela me diz isso porque eu me deito muito cedo e gosto de ficar em casa”, justifica Kimmich, entre risadas, vestido com uniforme de treino da Mannschaft (apelido da Alemanha), na concentração da equipe do treinador Hans-Dieter Flick em Stuttgart. “Eu gosto de ir à montanha e caminhar. Me ajuda a tranquilizar a mente. A ver as coisas com clareza”. Kimmich precisa pensar, sempre precisou: “Nunca fui o mais rápido nem o mais forte em campo. Tampouco o mais talentoso. Para cumprir com meus objetivos, tinha que fazer um pouco melhor que os demais”.

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Pergunta. Então, o que fez melhor?

Resposta. Eu passei a minha infância entre a escola e o futebol, como todas as crianças que jogavam bola comigo. Eu jogava bem, mas não sei se era consciente de que era o melhor. Tudo ficou diferente quando cheguei às categorias de base do Stuttgart. Me dei conta que tinham meninos muito mais talentosos. Então, eu teria que trabalhar mais e melhor. Foi o que eu fiz.

P. Só isso?

R. E pensar mais rápido. Se não é forte ou talentoso, tem que ser mais rápido com a cabeça. É crucial aproveitar o jogo, ser feliz quando está com a bola e não se incomodar com treinos. Tive que melhorar muito e, sem o amor pelo jogo, não teria conseguido.

P. Parece muito ambicioso.

R. Para jogar no Bayern e na seleção alemã, você deve ter esse nível de ambição. As expectativas no entorno são sempre muito altas, mas eu gosto da pressão. Eu gosto da sensação de ter que ganhar. E sempre temos que ganhar no Bayern e na seleção. Mas a minha expectativa sobre mim mesmo sempre é maior do que a que vem de fora. A pressão que eu me imponho é mais forte que a exterior.

P. A tenista Naomi Osaka disse no último US Open que ganhar não trazia felicidade para ela, apenas alívio.

R. Acho que é muito difícil quando você está sozinho. O tênis é um esporte individual, enquanto eu tenho companheiros ao meu lado. Também é importante diferenciar os diferentes tipos de pressão aos quais um atleta profissional está exposto. Tem a pressão do público, por um lado. Mas também tem a da sua equipe e das suas próprias expectativas.

P. Como lidar com a pressão vinda de fora?

R. Em todos os esportes é necessário conviver com a pressão. O problema é que, no mundo do futebol, quando se fala que uma pessoa sente a pressão, isso é interpretado como um defeito. Eu não vejo assim. Por isso comemoro quando as pessoas falam dessas coisas. Porque se torna normal. E tudo bem se isso acontece, porque é algo normal. Mas como não se fala do assunto, as pessoas pensam que é preciso ser forte e seguro o tempo todo.

P. Ser ou se mostrar?

R. Os dois. Para mim também é importante ser assim. Acreditar em você mesmo te ajuda a se desenvolver, especialmente quando as coisas vão mal. Eu, por exemplo, posso falar com meus companheiros de time a qualquer momento. Posso ligar para Leon [Goretzka] ou Serge [Gnabry, ambos jogadores alemães do Bayern] e conversar com eles sobre meus medos.

P. Você liga?

R. Naturalmente. Essa também é uma das chaves para um time forte e eficiente. São meus companheiros de equipe, mas também meus amigos. É importante lutar lado a lado com seus amigos, para lutar em equipe. Mas temos que saber as diferenças.

P. Quais diferenças?

R. Bom, eu não sou um goleador. Não penso em fazer gols o tempo todo. Para mim, contam outros critérios. Que a equipe funcione. Eu gosto de fazer um bom passe, claro. Mas adoro ganhar e, para isso, todo o time tem que funcionar. Especialmente agora, com a volta do público.

P. Havia algo de positivo em jogar sem público?

R. Acho que o jogo era mais justo. Era menos emocional. Tudo era mais tranquilo, não havia essa fricção com o rival que pode existir quando temos torcedores nas arquibancadas. E para nós, que temos jogadores como Thomas [Müller] ou eu, que não gostamos de falar, era mais fácil para se comunicar. Mas o futebol é divertido com emoções e a torcida é emoção.

Kimmich, durante entrevista coletiva pela Alemanha.
Kimmich, durante entrevista coletiva pela Alemanha.Tom Weller / AP

P. Você falava da importância do companheirismo. Entende que o Ter Stegen [goleiro titular do Barcelona, reserva da Alemanha] reclame porque não joga na seleção?

R. Claro que posso entender. Todos têm essa ambição. É um goleiro incrível. Não sei nem há quanto tempo ele joga no Barcelona e quantas vezes ganhou a Champions. O problema é que temos Manu [Manuel Neuer], o melhor goleiro do mundo. Esse é o azar do goleiro: é uma posição onde só um joga. Se há um meio-campista que é melhor para a equipe do que eu, eu tenho a opção de jogar na zaga ou na lateral. Quando eu era jovem, foi uma grande vantagem para mim jogar em diferentes posições. Me ajudou muito.

P. Por que?

R. Eu já joguei de volante, lateral e zagueiro. Em cada posição você precisa de habilidades diferentes e tem que entender diferentes conceitos. Hoje, quando estou em campo, posso saber o que cada um dos meus companheiros necessitam. Me ajudou a entender o jogo de uma maneira mais global. Pep [Guardiola] foi muito importante para mim nesse sentido. Ele insistia muito que eu tinha que saber o tempo todo onde estavam meus colegas. Também nesse processo quando cheguei ao Bayern, foi fundamental o Xabi Alonso. Ele me ensinou a ter um olhar mais periférico. Para isso você precisa da ajuda do treinador e de seus companheiros.

P. A que se refere?

R. São duas coisas que você precisa entender quando joga no meio-campo. Uma é que o que o treinador quer e a outra é a orientação do campo. Isso significa observar o tempo todo onde estão seus companheiros e seus adversários; quando precisa driblar, quando tem que dar um passe para frente ou para trás. O grande desafio é encontrar os espaços. Isso é o que mais me diverte, porque quando você faz bem, isso te faz um bom jogador de equipe.

P. Para à torcida alemã, o que foi mais importante: o 7 a 1 contra o Brasil ou o 8 a 2 contra o Barcelona?

R. Para o país, o 7 a 1 foi simplesmente incrível, realmente espetacular. Mas para nós, para o Bayern, o 8 a 2 foi algo especial e não só pelo resultado. Na Alemanha, só existe preto ou branco: ou você ama o Bayern ou torce contra ele. Mas esse dia aconteceu algo raro e inesperado, acho que todos queriam que a gente ganhasse. Tanto na Alemanha quanto na Europa.

P. Por que você acha isso?

R. Pelo futebol que a gente estava jogando. O estilo, a pressão alta e a intensidade. Marcávamos muitos gols. Era melhor ganhar de 4 a 3 do que de 1 a 0. Era bonito para assistir e as pessoas se identificaram.

P. Suponho que Flick [ex-treinador do Bayern, hoje na seleção alemã] teve muito a ver com isso.

R. É claro.

P. Você foi influenciado por treinadores muito reconhecidos como Guardiola, Flick, Carlo Ancelotti, e agora Julian Nagelsmann [atual técnico do Bayern].

R. E muito diferentes.

P. Pode falar um pouco deles?

R. Eu era muito jovem com Pep Guardiola. Tinha 20 anos e vinha da segunda divisão. Ele me mostrou posições nas quais nunca havia jogado antes e outras onde nem sabia que poderia jogar. E me ensinou espaços no campo que antes não existiam para mim. Com Flick foi diferente. Eu estava garantido entre os 11 titulares. É uma pessoa muito boa e respeitosa. Falava muito com os jogadores e exigia respeito com todos os membros da comissão técnica. Nagelsmann é muito jovem, mas já tem muita experiência como treinador.

P. Como analisa o Barça sem Messi?

R. Quando eu era pequeno, assistia ao Barça por Messi. Agora, será interessante vê-lo sem ele. Eles ainda têm jogadores de muita qualidade. Gente muito jovem como Pedri e De Jong e também outros com mais experiência, como Busquets, Depay e Ter Stegen. Quero ir ao Camp Nou, será um jogo difícil.

P. A saída de Messi te surpreendeu?

R. A quem ela não surpreendeu? Agora, o PSG tem jogadores de primeiro nível. Será interessante ver como eles funcionarão como uma equipe.

P. Os últimos três campeões da Champions League [Liverpool, Bayern e Chelsea] priorizaram o coletivo ao invés das individualidades?

R. Por isso quero jogar contra o PSG. Quero ganhar deles com a nossa força coletiva.

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