Jorginho, o volante que aprendeu a jogar com a mãe e colocou a Itália na final da Eurocopa

O ítalo-brasileiro, que recebeu os ensinamentos da progenitora, simboliza o novo ar da seleção italiana e converteu o pênalti decisivo contra a Espanha para chegar à decisão da Euro

Jorginho comemora pênalti decisivo contra a Espanha.
Jorginho comemora pênalti decisivo contra a Espanha.Carl Recine / POOL (EFE)
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Jorginho apresentou-se na Eurocopa surfando de tal modo na onda do grande sucesso do Chelsea na Champions League que, depois de vestir a camisa da Itália, continua pensando no modo blue inglês. “Esta seleção parece com o Chelsea, com vontade de mostrar seu valor”, disse há dois dias. “Barella se parece com Kanté”, acrescentou, comparando o jogador da Inter com seu companheiro de equipe francês no meio de campo do clube de Londres, com quem levantou a orelhuda [apelido do troféu da Champions por causa de suas grandes alças] espremendo adversários e treinadores de todo tipo, tanto Simeone e Zidane quanto Guardiola.

Agora são os azzurri que querem pegar a onda no sucesso deste ítalo-brasileiro de 29 anos. Desde a abertura da Eurocopa, quando a Itália passou por cima da Turquia (3 a 0), o futebol da seleção comandada por Roberto Mancini chamou a atenção como o mais vistoso da competição. Os italianos fizeram outro 3 a 0, desta vez em cima da Suíça, além de 1 a 0 no País de Gales, fechando a primeira fase com três vitórias. No mata-mata, eliminou a Áustria (2 a 1) e a poderosa Bélgica (2 a 1), sempre com Jorginho controlando o meio-campo. Mas o auge veio na semifinal, desta terça-feira, quando o catarinense de Imbituba converteu o pênalti decisivo após o 1 a 1 no tempo normal e devolveu a Itália a uma final de Eurocopa, vingando a decisão do torneio de 2012 contra a Espanha. Em busca do segundo título europeu (o único foi em 1968), os italianos somam 33 jogos sem perder, 14 vitórias consecutivas e uma aura invencível. Resta saber quem os desafiará na decisão: a Inglaterra ou a Dinamarca, que se enfrentam nesta quarta-feira (7) pela outra semifinal.

Com exceção dos dois velhos caciques da zaga (Bonucci e Chiellini), a Itália exala um novo aroma. Nem todos são novatos, mas oferecem algo renovado. Nesta tentativa de ressurgimento, o protagonista principal é Jorginho, que se naturalizou pela ascendência italiana do tataravô paterno, estreou com Antonio Conte em 2016 e só perto dos trinta anos adquiriu um peso notável na seleção.

O pai foi goleiro, mas ele é filho futebolístico da mãe, uma jogadora amadora no Brasil. “Ela era talentosa”, confessou. Juntos praticavam quando era pequeno no jardim, na praia e em um quarto sem quadros nem televisão para que nada quebrasse. Não era simples diversão, mas aprendizado e correção. “Eu batia na bola e minha mãe dizia: ‘Não, controle-a assim’. Era dura quando eu cometia erros”, lembra.

Isso acontecia em sua cidade, Imbituba, Santa Catarina, até que aos 13 anos finalmente voou do ninho e foi para uma escolinha a 200 quilômetros de distância. No entanto, as coisas não foram muito fáceis. “Comíamos a mesma coisa três vezes ao dia e tomávamos banho de água fria no inverno. Isso me obrigou a aprender muito sobre a vida”, contou em declarações compiladas pelo programa oficial do Chelsea. Dois anos depois foi convidado a ir para a Itália, para a escola do Verona, e a experiência também não foi tão agradável quanto imaginara.

“Éramos seis no quarto, embora os garotos fossem mudando e nos pagassem 20 euros por semana para as nossas despesas. Nunca esquecerei o que fazia com aquele dinheiro. Carregava o celular com cinco para enviar mensagens. Outros seis eram para um cartão que raspava uma senha e dava uma hora de ligações para o Brasil. Dois ou três para pequenas coisas, como xampu ou desodorante. E tentava economizar quatro ou cinco para bater um papo no fim de semana com meus amigos.”

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Até que, com 17 anos, a solidão e a distância do refúgio familiar o agoniaram e ligou para os pais para avisar que abandonava tudo, que voltaria para eles. “Não faça isso, você está muito perto de realizar o seu sonho”, contou que lhe responderam. Um momento em que atingiu o fundo e serviu de alavanca. Pouco depois subiu para o time principal do Hellas Verona, em 2013 foi contratado pelo Napoli, onde progrediu com Rafa Benítez e Maurizio Sarri, que em 2018 o levou ao Chelsea por 57 milhões de euros.

Nesta temporada, às portas do inverno, as coisas voltaram a se complicar com o treinador Frank Lampard, que não hesitou em criticar quando foi demitido. “Como ele era uma lenda do clube, pulou alguns passos para treinar um grande time. Não estava preparado para um trabalho desse nível”, disse. Para sua sorte, Tuchel chegou em janeiro e sua vida mudou. Em aliança com Kanté, armou um meio-campo que funcionou como uma máquina perfuradora de túneis: subjugou o Atlético de Madrid nas oitavas da Champions, depois bateu o Real Madrid e na final despachou o City.

Agora, na Itália e órfão de seu colega francês, pensou no jovem interista Nicolo Barella, de 24 anos, para replicar essa dupla. “Ambos têm força e correm para todos. Eles me ajudam muito recuperando bolas. Acho que são dois meio-campistas muito parecidos”, disse ele no domingo passado. O meio-campo ainda tem Marco Verratti, estrela do PSG, e Locatelli, jovem destaque desta Euro. Não faltam qualidades a esta Nazionale que à frente ameaça com Immobile, Insigne e Chiesa. A onda de Jorginho não parece ruim.

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