‘Rolê aleatório’ de Ronaldinho no Paraguai chega ao fim após prisão virar multa

Justiça paraguaia autoriza volta de ex-jogador e do irmão ao Brasil em acordo que implica pagamento de mais de 1 milhão de reais

Ronaldinho e irmão foram autorizados a deixar o Paraguai nesta segunda.
Ronaldinho e irmão foram autorizados a deixar o Paraguai nesta segunda.Jorge Adorno

Foram quase seis meses detido fora do país depois de uma tentativa malsucedida de entrar no Paraguai com passaporte adulterado, no “rolê aleatório” mais grave de sua carreira. Porém, ainda preservando o sorriso e a simpatia que lhe é peculiar, Ronaldinho Gaúcho recebeu sinal verde para retornar ao Brasil nesta segunda-feira. Pelo acordo firmado com a Justiça paraguaia, o craque que marcou época no Barcelona e seu irmão mais velho, Roberto de Assis Moreira, acusado de colaborar com a falsificação de documentos, terão de pagar uma multa de 200.000 dólares (1,1 milhão de reais) em troca da suspensão do processo.

Durante a audiência no Palácio da Justiça de Assunção, que contou com a presença de representantes do consulado brasileiro no Paraguai, o juiz Gustavo Amarilla Arnica chancelou o acordo proposto pelo Ministério Público local, que suspendeu o processo contra Ronaldinho por entender que não há outros crimes atrelados à conduta da dupla. Usando máscara de proteção por causa das medidas restritivas impostas pela pandemia de coronavírus, o astro do futebol fez questão de se levantar e cumprimentar os promotores da acusação. Após arcar com a multa, em forma de doações a entidades beneficentes paraguaias como reparação pelo dano social, o ex-jogador estará livre de obrigações judiciais, desde que comunique às autoridades eventuais mudanças de endereço fixo no Brasil ou número de telefone com Whatsapp, utilizado para possíveis notificações sobre desdobramentos do caso.

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Já Assis, indiciado pelo Ministério Público por ter cedido imagens para a confecção dos passaportes adulterados, além da multa, terá de comparecer a um tribunal brasileiro a cada quatro meses ao longo de dois anos. Caso descumpra a pena, o acordo pode ser anulado. No início de abril, os irmãos já haviam desembolsado 1,6 milhão de dólares (8,5 milhões de reais) como fiança para deixar a penitenciária onde ficaram detidos por mais de um mês, migrando para o regime de prisão domiciliar —cumprida em um hotel de luxo na capital paraguaia. A multa será descontada dessa quantia, e o restante, reembolsado após a validação do acordo.

Com a imagem arranhada pelo escândalo, Ronaldinho completou o aniversário de 40 anos na prisão. Seus fãs brincaram ao descrever o episódio em terras paraguaias como mais um “rolê aleatório” do craque, que, depois de encerrar a carreira nos gramados, ficou marcado por aparições tão folclóricas quanto inusitadas. Passou a participar de jogos festivos, como torneios de futsal na Índia, e a estrelar os mais diversos tipos de eventos publicitários, de um reality show nos Emirados Árabes a filme com Mike Tyson.

Ronaldinho e o irmão foram presos em 5 de março, juntamente com o empresário brasileiro Wilmondes Sousa Lira, apontado como emissário dos passaportes e documentos falsos. Antes de sua detenção, o ex-jogador havia sido declarado cidadão ilustre de Assunção e firmado contrato de marketing com um cassino mantido pelo empresário Nelson Belotti, descrito pela Operação Lava Jato como suposto intermediário de 24 milhões de reais em movimentações suspeitas por lavagem de dinheiro entre empresas de José Carlos Bumlai, Alberto Yousseff e a JBS.

Em 2015, os irmãos Assis Moreira foram condenados a pagar multa de 8,5 milhões de reais por construções irregulares em áreas de preservação ambiental. Sem êxito na tentativa de cobrar o pagamento pelas infrações, a Justiça brasileira determinou a apreensão de seus passaportes no fim de 2018, o que comprometeu a agenda de compromissos no exterior. Porém, nem mesmo a impossibilidade de viajar para fora do país impediu que Ronaldinho fosse nomeado embaixador do turismo pelo Governo Bolsonaro, em setembro do ano passado. Por causa da condenação, a escolha do ex-jogador para a função voluntária, que não prevê remuneração, gerou controvérsia no Ministério do Turismo. Na época, a Embratur explicou que o cargo é “honorário e simbólico”.

Ainda em 2019, o Ministério Público do Rio Grande do Sul chegou a um acordo com os irmãos para a quitação da multa e, consequentemente, a liberação dos passaportes. Até então, eles tentavam reaver os documentos por meio de recursos no Supremo Tribunal Federal (STF), mas não haviam conseguido derrubar a decisão da Justiça gaúcha. Com a sentença estipulada pelas autoridades paraguaias, Ronaldinho está livre não apenas para voltar ao Brasil, mas também para retomar a rotina de viagens e eventos pelo mundo.

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