“Na Copinha, todo jogo é uma chance de melhorar a vida dos meus pais”

Atacante do Oeste, time surpresa entre os semifinalistas do torneio, João Vitor ‘Capixaba’ é um dos 3.000 inscritos que querem usar a Copa São Paulo como vitrine para alavancar a carreira de jogador de futebol

Capixaba, atacante do Oeste de Barueri na Copinha.
Capixaba, atacante do Oeste de Barueri na Copinha.Oeste FC

Do gaúcho Brasil de Pelotas até o Galvez do Acre, 127 equipes foram a campo durante a maratona de verão na Copa São Paulo de Futebol Júnior, a Copinha. A competição mais valorizada da categoria sub-20, que acontece durante o mês de janeiro no Estado de São Paulo, é dominada pelas bases mais estruturadas do país, mas não deixa de ser uma vitrine para milhares de jovens atletas sonhadores —especialmente aqueles que atuam longe dos grandes clubes e aproveitam a popularidade do torneio para ter seus minutos de fama em rede nacional. Entre os mais de 3.000 atletas inscritos, o atacante Capixaba, 19 anos, é um dos que vieram de outro Estado para mostrar sua qualidade à audiência do torneio, seja ela composta por familiares, torcedores do seu time ou empresários. “Uma partida boa na Copinha já pode ser suficiente para despontar uma carreira no esporte”, confessa o jogador do Oeste de Barueri.

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Nascido João Vitor do Nascimento da Silva, Capixaba ganhou o apelido pelo local de origem —ele é natural de Serra, uma cidade com pouco mais de 100.000 habitantes no litoral do Espírito Santo. Começou a jogar futebol inspirado pelo pai, Lenito, e logo passou a frequentar escolinhas de futebol na cidade. “Meu pai me levava de bicicleta quando não tínhamos dinheiro para o ônibus”, conta. Saiu para tentar a sorte no Tigres do Brasil, em Duque de Caxias, onde disputou o campeonato carioca sub-17 por dois anos, mas voltou para casa após sofrer uma lesão no quinto metatarso do pé direito, “igual o Neymar”, brinca ele.

A lesão fez com que João Vitor permanecesse treinando em um clube de Serra até ser indicado para fazer parte da equipe sub-20 do Oeste de Barueri, em agosto de 2019. Foi com a roupa do corpo, graças a um esforço financeiro do pai. “Foram 16 horas de viagem de ônibus para ficar um mês fazendo testes”, conta ele. Capixaba ficou alojado na Arena Barueri, onde o clube joga, e convenceu a comissão técnica a ficar com ele através de seu desempenho. Assinou um contrato profissional com o Oeste e agora mora em um hotel em Barueri com outros atletas da mesma idade, recebendo um salário “que não é muito, mas dá para ajudar meus pais”. Lenito e Ediana, seus pais, moram em uma casa simples em Serra com as duas irmãs de João Vitor, Marta e Eliana, e mais dois netos. “Eu jogo por eles”, continua Capixaba. “Isso aqui é para tirar eles de onde estão morando, para melhorar a vida deles. A Copinha é a maior vitrine, então todo jogo é uma chance de se mostrar em busca de um futuro melhor”.

Além de ser do mesmo Estado do atacante da seleção brasileira Richarlison, João Vitor também morou no mesmo bairro de Jhonatan Ventura, atleta da base do Flamengo que sobreviveu ao incêndio do Ninho do Urubu há quase um ano. Jhonatan, de 15 anos, teve 30% do corpo queimado e foi o último sobrevivente a receber alta, em abril de 2019. O atleta fechou um acordo de indenização com o Flamengo um mês depois e está no clube, apesar de ainda não conseguir treinar normalmente com os companheiros. “Nós jogamos bola juntos quando crianças e conversamos até hoje, mas não sobre a tragédia", revela Capixaba. “Percebo um trauma por parte dele, nem pergunto porque sei que ele não gosta de lembrar. Mas agora já está bem melhor”.

O próprio Capixaba diz que fez testes no Flamengo seis meses antes do incêndio, mas não chegou a ficar alojado onde os 10 meninos morreram. Com passagem pela base de clubes pequenos do Espírito Santo e Rio de Janeiro, o jovem declara que já se deparou com alojamentos que “pareciam irregulares”, como foi o caso da estrutura provisória sem certificado dos Bombeiros que pegou fogo no Ninho do Urubu, e que por isso sempre preferiu ficar na casa de familiares e amigos quando estava em outras cidades. “Mas no Oeste não tenho como reclamar de nada, o hotel é ótimo”, pontua.

Assim como o atacante tem como objetivo orgulhar seus pais, ele sabe que a família também vê no possível futuro jogador de futebol uma chance de ascender economicamente. “Você precisa ver a felicidade do meu pai quando falo que fiz um gol…”, sorri o atacante. Até agora, na Copinha, só aconteceu uma vez: Capixaba começou a competição como titular e marcou na estreia contra o Sergipe, quando o Oeste goleou por 6 a 0. Jogou no 4 a 0 contra o Trindade e também estava em campo na derrota para o Cruzeiro por 3 a 1, que fechou a fase de grupos.

A partir do mata-mata, o camisa 11 perdeu espaço no time titular. Entrou no segundo tempo na vitória por 3 a 1 contra o Desportiva Paraense e assistiu do banco a vitória nos pênaltis contra o Cruzeiro após um 0 a 0 no tempo normal. “O futebol tem muitas incertezas, altos e baixos. Vem um desânimo, mas não dá para desistir”, reflete Capixaba, que justifica a ida ao banco por questões físicas, já que estava três meses parado por conta de uma lesão antes da Copa e acabou se desgastando muito nos primeiros jogos. Contra o Avaí, João Vitor entrou no fim da partida, que terminou em 0 a 0, e fez um dos gols na vitória nos pênaltis, o que valeu a vaga nas quartas de final contra o São Paulo. “É muito gratificante fazer parte dessa campanha. O torneio é muito cansativo e estamos trabalhando forte”.

A entrevista com Capixaba foi feita antes da partida pelas quartas de final contra o São Paulo, atual campeão da Copinha. Ao ser perguntado sobre o jogo, o camisa 11 falou em como poderia ser a partida mais importante de sua vida. “É difícil derrubar mais um gigante, mas não é impossível. O estádio vai estar lotado, todo mundo assistindo, não podemos ter medo deles”. Ele não entrou em campo, mas assistiu à surpreendente vitória do seu time por 2 a 1 em Barueri, com gols de Douglão e Reifit, que eliminou os badalados são-paulinos. O Oeste é o infiltrado entre os gigantes Grêmio, Internacional e Corinthians nas semifinais da Copinha. Mas, como diz João Vitor, “quem vem debaixo tem um ânimo a mais porque pensa mais na família” e a fama de zebra convém. O jogo contra os gremistas é nesta quarta-feira, em Barueri, às 17h30. A outra semi, entre Corinthians e Internacional, acontece nesta terça às 19h15, na mesma cidade.

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