Economia

McDonald’s tenta limpar sua imagem após escândalo com ex-CEO

Rede de lanchonetes processa seu ex-CEO por manter relações sexuais com três funcionárias e mentir a respeito disso, num caso que se soma a outras denúncias de assédio em suas unidades

Funcionárias do McDonald’s protestam contra os casos de abuso sexual na companhia, em Chicago, em setembro de 2018.
Funcionárias do McDonald’s protestam contra os casos de abuso sexual na companhia, em Chicago, em setembro de 2018.Scott Olson / Getty Images

É raro que uma empresa norte-americana com ações na Bolsa mostre seu lado mais lúgubre na primeira hora de uma segunda-feira. Mas foi o que ocorreu há uma semana, quando o McDonald’s anunciou que processaria por fraude seu ex-executivo-chefe Steven Easterbrook, após descobrir que manteve relações sexuais com pelo menos três funcionárias e que mentiu à companhia quando foi descoberto num desses casos. O anúncio reflete os esforços da companhia para combater comportamentos inapropriados em seu ambiente de trabalho. Uma revisão que começou por seu cargo mais graduado, mas que se estende a diversos incidentes pendentes nas lanchonetes que servem o Big Mac.

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O sorriso se apagou no rosto do palhaço Ronald McDonald em novembro, quando a empresa demitiu Easterbrook por manter uma relação de sexting – envio de mensagens de conteúdo sexual – com uma funcionária. Ambos reconheceram a relação como consensual, e o executivo aceitou sua demissão junto a uma indenização de 40 milhões de dólares (217 milhões de reais, pelo câmbio atual). Em uma tentativa de varrer o caso para baixo do tapete, a companhia desistiu de investigar a fundo o comportamento do executivo. Considerou o caso encerrado e virou página com a contratação de um novo chefe: Chris Kempczinski. Este prometeu fiscalizar melhor o comportamento dos funcionários e fazer uma limpeza na imagem da empresa.

Tudo mudou no mês passado, quando outro funcionário deu a pista de que outras mulheres tinham mantido relações íntimas com Easterbrook. Foi então que novos questionamentos revelaram problemas mais profundos. Easterbrook tinha mantido relações sexuais com três funcionárias no último ano, e uma delas tinha recebido uma importante quantidade de ações da companhia durante seu relacionamento com ele. O McDonald’s encontrou as provas após analisar o histórico da conta de e-mail corporativo. Lá havia uma série de fotos de conteúdo sexual, reenviadas dessa conta para uma pessoal. Easterbrook, além disso, teve o cuidado de apagar todo o material do seu celular corporativo.

Este não foi o único escândalo a abalar a reputação da lanchonete mais famosa do mundo. “O McDonald’s tem um problema de assédio sexual”, observa Amanda Harrington, porta-voz da organização Time’s Up, dedicada a denunciar o assédio sexual a mulheres em diferentes âmbitos. Em abril, o grupo ajudou dois funcionários a apresentarem denúncias de assédio sexual na rede de restaurantes, um caso ainda pendente ante os tribunais. “A Time’s Up apoiou em sua luta pela justiça a dezenas de trabalhadores de lojas do McDonald’s que foram vítimas de assédio e agressão sexual”, acrescenta Harrington.

A chegada de Easterbrook ao McDonald’s, em 2015, representou uma lufada de ar fresco em uma velha rede em declínio. Dedicou-se a modernizar as lanchonetes e introduziu a digitalização dos cardápios. A empresa melhorou suas cifras notavelmente, mas o ambiente trabalhista continuava sofrendo pela desigualdade, os baixos salários e o assédio sexual. Depois da modernização técnica empreendida por Easterbrook era necessária a reconstrução das relações humanas nas entranhas da empresa. E o papel de Chris Kempczinski foi mostrar transparência nesse processo. Assim que, na manhã de segunda-feira, 10 de agosto, a empresa moveu uma ação contra Easterbrook junto a um tribunal de Delaware e informou a autoridade de valores mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês) sobre a denúncia.

O escrutínio ao qual as corporações e os CEOs estão submetidos nos EUA levou nos últimos anos a uma série de afastamentos relacionados ao comportamento de altos executivos: Briant Crutcher, que estava à frente da Texas Instruments, foi despedido após passar apenas sete meses no cargo, por violar o código de conduta da empresa; Brian Krzanish, ex-executivo-chefe da Intel, perdeu o emprego quando se descobriu que mantinha uma relação sentimental com uma subordinada, em uma empresa com rigorosas normas contra as relações muito próximas entre seus funcionários. Os novos tempos trouxeram novos padrões de comportamento nos andares mais nobres das multinacionais.

A inusitada onda de transparência ocorre semanas depois de o McDonald’s anunciar uma iniciativa para promover a igualdade de oportunidades, a propósito do movimento Black Lives Matter. “O McDonald’s provavelmente vê esta demanda como boa cobertura de imprensa, não como má publicidade”, diz Jonathan Maze, diretor da revista Restaurant Business Magazine. A empresa, além disso, busca recuperar a indenização que entregou ao executivo e impedir que as ações que ofereceu a uma das funcionárias sejam vendidas.

O mea culpa vem da companhia, mas trata de tirar toda a responsabilidade dela e limpar sua reputação. “Agora sabemos que a conduta de Easterbrook se desviou de nossos valores de uma maneira muito mais decisiva do que sabíamos quando abandonou a companhia no ano passado. O McDonald’s não tolera comportamentos de nenhum funcionário que não reflitam nossos valores”, disse Kempczinski após anunciar a ação judicial contra seu antecessor.

Denúncias e um problema sistemático

No ano passado, o McDonald’s criou um programa de prevenção contra o assédio sexual. Mas este só está voltado para as lanchonetes pertencentes diretamente à empresa, sendo opcional para franqueados. Enquanto isso, dezenas de denúncias por assédio contra o McDonald’s aguardam nos tribunais, e diversas organizações reclamam que existe um problema sistemático em todos os níveis da companhia. Antes do caso de Easterbrook e perante o surgimento do movimento #MeToo, várias funcionárias apresentaram dezenas de denúncias contra a companhia desde 2018. A União Norte-Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês) observa que, nas redes de fast-food dos EUA, pelo menos 40% das trabalhadoras admitem já ter sofrido algum tipo de assédio, verbal ou físico. A organização considera que as ações da empresa são insuficientes e não se comprometem a trabalhar na reestruturação de seu ambiente trabalhista. “O McDonald’s evade sua responsabilidade”, apontam. A companhia terá que demonstrar que agora a mudança é profunda.

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