EMPRESÁRIOS FRENTE À CRISE

Ignacio Galán: “Se acelerarmos as energias limpas, poderíamos gerar 300.000 empregos já”

O presidente da empresa elétrica Iberdrola aposta numa saída verde para a crise, acelerando a transição ecológica e os investimentos em energias limpas para que se criem empregos imediatamente em setores com futuro

Ignacio Galán, presidente da Iberdrola, na sede da empresa elétrica, em Madri. No vídeo, trecho da entrevista.FOTO: Julian Rojas | VÍDEO: ÁLVARO DE LA RÚA / LUIS ALMODÓVAR

O presidente da Iberdrola, Ignacio Galán (Salamanca, Espanha, 69 anos), considera que a aposta nas energias renováveis pode ajudar a superar a atual crise. Sua receita é investir e não esbanjar. E pede um marco jurídico estável e previsível para atrair investimentos. No Brasil, a companhia controla a Neoenergia, dona das distribuidoras Coelba, Celpe, Cosern e Elektro.

Pergunta. Como viveu o confinamento?

Resposta. Como todos os espanhóis. Trabalhando muitíssimo à distância e preocupado. A mulher do meu filho, que é médico, foi infectada; o pai dela, médico, também; e muita gente ao redor que, por umas circunstâncias ou outras, me preocupa. Estou preocupado com amigos, vizinhos, colegas... E com a crise econômica que temos conosco e a crise social que a pandemia nos trouxe. A parte positiva é que estou casado há 40 anos e nunca na minha vida tinha estado tanto tempo em casa, com o que pude desfrutar de como é maravilhoso estar com a família ao mesmo tempo em que você pode trabalhar e fazer que a empresa funcione.

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P. E a empresa funcionou bem?

R. Estou tremendamente orgulhoso de como a equipe da Iberdrola se comportou. Estive muito em contato com todos eles em todo o mundo. Tivemos situações de todo tipo. Nos Estados Unidos, por exemplo, sofremos tempestades de neve terríveis que deixaram 240.000 moradias sem eletricidade e, apesar das medidas preventivas para evitar contágios, repusemos o serviço em tempo recorde. Na Espanha a equipe está voltada para as pessoas, às portas dos hospitais com geradores, nas centrais, nos escritórios... Não se notou nenhuma baixa na atividade, pelo contrário. O serviço está sendo impecável em todos os países, e me sinto muito orgulhoso.

P. Como mudou sua forma de trabalhar e de liderar?

R. Todos nós tivermos que aprender muitas coisas. Se há 10 anos tivessem me dito que faríamos uma assembleia geral de acionistas a distância na Espanha, e também no Brasil, eu teria dito que é impossível. E se tivessem me dito que numa empresa como a nossa 95% do pessoal de escritório estaria fazendo perfeitamente seu trabalho das suas casas, também teria me parecido impossível. Aprendemos a trabalhar e a nos relacionar de outra maneira. Eu tenho uma forma de administrar muito direta, muito de contato humano. Passo mais de metade do ano viajando para estar com as pessoas, e gosto de ir a uma central, a uma subestação ou aos escritórios de Connecticut, Rio, Cidade do México ou Glasgow para estar com elas, não ficar só no meu escritório. Isso tive que deixar de fazer, e sinto falta desse calor humano, tão útil para aprender e transmitir mensagens.

Compartilho a ideia de que sairemos mais ecológicos desta crise, ou não sairemos

P. Acredita que algumas dessas mudanças vieram para ficar, como o teletrabalho?

R. Há muitas coisas que sim, e há reflexões que temos que fazer. Até agora muitos de nossos procedimentos de trabalho se baseavam em jornadas, em tempo, e acredito que isto nos ajudará a ir transformando esse sistema para tarefas. Para nossa gente de campo é mais fácil: instalar um transformador ou revisar uma central. No trabalho de escritório teremos que nos adaptar. Outros setores já o fazem.

P. Em que esta situação mudou sua visão de mundo?

R. Trabalho há 47 anos. Meu primeiro presidente na [empresa espanhola] Tudor foi Antonio Sáez de Montagut, que era engenheiro como eu, e me disse algo que ficou gravado: “Eu sou muito mais velho, vivi crises a minha vida inteira e só tive pequenos períodos de bonança, então aprenda a administrar crises”. E efetivamente me deparei ao longo da vida com crises variadas. Por exemplo, a reconversão da indústria naval do País Basco, uma crise profunda, com 26%-27% de desemprego, a Margem Esquerda [zona de estaleiros de Bilbao] devastada, quando as pessoas se sentiam sem entusiasmo, sem futuro … e foi preciso reconverter e dar um futuro com investimentos no setor aeronáutico. Coube-me viver outras crises ao longo da minha vida, e tivemos que ir administrando-as.

P. E como se pode administrar esta crise?

R. Como o vírus está cada vez mais controlado, temos que continuar protegendo as pessoas e reativar a economia de maneira ordenada e progressiva. E volto àquela reconversão no País Basco. Fizemos então o Plano 3R, baseado em reconverter setores que não tinham futuro. Por exemplo, passar dos estaleiros para fábricas de motores de aviões; apoiar setores que tinham futuro, mas que estavam em dificuldades, como o de máquinas-ferramentas, e investir em setores de futuro, como energia, telecomunicações, eletrônica…

O gasto desnecessário empobrece, e o investimento enriquece e gera futuro

P. Essa estratégia vale agora?

R. Das crises se sai investindo, e não esbanjando. Sou obsessivo com a eficiência e a economia. Nem sei quantos bilhões economizamos na Iberdrola desde que cheguei... Sou muito generoso no investimento, que gera crescimento, riqueza e possibilidades de emprego. Mas se você gasta isso em algo supérfluo, no final o que se desperdiça não se investe e, se você não investir, não cria. Sempre digo que o gasto desnecessário empobrece, e o investimento enriquece e gera futuro e emprego. É preciso fazer o possível para tornar atraente o investimento mediante um marco jurídico estável e previsível. Assistiremos a uma concorrência entre países para obter recursos europeus, e a segurança jurídica será a garantia de que o investimento flua para nosso país. Porque, se o investimento não fluir, não sairemos da crise.

P. Notou muitas diferenças na gestão da crise entre os diferentes países?

R. Estamos em países com muita incidência da pandemia. Nos EUA, Brasil, Reino Unido, França, Itália, Espanha… Em quase todos, as atuações não são tão diferentes e certamente nossos protocolos de atuação foram muito parecidos. Sinto-me muito orgulhoso porque, graças a umas 150 medidas ― sanitárias, de isolamento, de turnos... ― nosso índice de enfermidade é 10 vezes menor que a média dos países onde estamos. Somos uma multinacional que tenta fazer as coisas não com ordens e comandos, e sim ouvindo cada um. E desde o primeiro dia estivemos trabalhando de mãos dadas com os sindicatos, que nos deram muitíssimas ideias.

P. Importa mais apoiar as empresas ou os trabalhadores?

R. Quem gera emprego são as empresas. Se as empresas morrerem, o emprego se ressente ou desaparece. Portanto, para proteger os trabalhadores é preciso proteger as empresas. Para sair da crise é preciso investir. Sem investimento não há crescimento, e sem crescimento não há emprego. E se não houver emprego há crise social. Sou convicto quanto à economia social de mercado. Nas assembleias e nas apresentações de resultados sempre mostro um triângulo: acionistas, empregados e sociedade. Se os gestores não forem capazes de combinar esses três eixos, o sistema não funciona. E o que estamos fazendo por cada um deles? Antecipamos pedidos num valor de 4,2 bilhões de euros (25,1 bilhões de reais) para que nossos fornecedores não destruam empregos ou não fechem. Para a Iberdrola trabalham 400.000 pessoas no mundo. Estamos fazendo o impossível para acelerar nossos investimentos e queremos neste ano contratar até 5.000 pessoas. Não paramos a formação. Aos acionistas, continuamos entregando dividendos. Temos 600.000 acionistas na Espanha, que são pessoas, não são algo etéreo, e, se não [receberem dividendos], não terão a possibilidade de consumir e mover a economia, que é o que precisamos. E, à sociedade, estamos dando o que é dela: assegurando o fornecimento; dedicamos milhões de euros a comprar material sanitário que distribuímos onde era necessário. Desde respiradores de altíssima gama, que nos custou sangue, suor e lágrimas conseguir, trajes sanitários, máscaras... Contribuição fiscal? A Iberdrola paga 8,5 bilhões [de euros, 50,8 bilhões de reais] aos cofres públicos de todo o mundo, dos quais mais de 3 bilhões são pagos na Espanha. Tudo isto é parte do nosso dividendo social.

É preciso atrair o investimento com um marco jurídico estável e previsível

P. Como se pode reativar a economia?

R. Investindo, criando, investindo, criando, investindo, criando... Como eu dizia antes, reconvertendo os setores com um futuro incerto, apoiando os que têm mais futuro, mas passam por dificuldades, e atraindo o investimento para setores que hoje não temos e nos quais há muito futuro. Por exemplo, antecipando o Plano Nacional de Energia e Clima [da Espanha], previsto para 2030. Se as coisas forem bem feitas, você pode gerar 300.000 empregos. Mas não é igual uma agenda de 300.000 empregos em 2030 que em 2022, porque já temos as tecnologias limpas, e se acelerarmos sua implantação poderíamos conseguir 300.000 empregos agora. Seria preciso mudar certas regras para que os processos administrativos fossem muito mais rápidos. Temos que acelerar porque 2030 está muito longe, e os problemas nos chegam em 2020 e 2021.

P. Como esta crise vai afetar o mundo da energia?

R. Não houve nenhum responsável, nem da União Europeia, nem das Nações Unidas, nem nos fóruns onde estou, que não tenha vindo dizer que ou saímos mais ecológicos desta crise, ou não saímos. Eu acredito que isso exigirá a aceleração do novo Green Deal europeu. E que vantagens isso tem? Em curto prazo, podemos fazer o investimento sem ter que recorrer ao Orçamento do Estado. Quase todo mundo vai pedir ajuda à custa do Orçamento, mas felizmente em nosso setor, se os balanços não forem afetados, temos acesso ao mercado financeiro sem recorrer ao Tesouro Público. Além disso, a Espanha é um país com uma dependência energética brutal. Se produzirmos mais, dependeremos menos dos outros, e nossa balança de pagamentos vai melhorar. Também será criado um tecido industrial potente e sustentável para o futuro. A economia circular, as energias limpas, a sustentabilidade são os eixos que a UE promove e, junto com a digitalização, são elementos de futuro. Estamos nos encaminhando para uma maior competitividade nas energias renováveis e redes inteligentes. São mais eficientes que os sistemas energéticos tradicionais. Ou seja, reduziremos as emissões, haverá menos poluição, criando um círculo virtuoso. Se houver menos poluição, também haverá menos problemas de saúde, em um momento em que o tema sanitário é chave. Setores como o automobilístico podem potencializar a eletrificação, os sistemas de climatização podem ser eletrificados. Tudo isto pode gerar uma grande oportunidade de crescimento.

As pessoas perceberam que podem viver em um mundo sem poluição

P. As emissões se reduziram drasticamente. Isto pode fazer que se perca consciência quanto à ameaça da mudança climática?

R. Acredito que seja o contrário. As pessoas perceberam que podem viver em um mundo sem poluição. As pessoas com quem converso dizem o mesmo: nunca tínhamos visto as grandes cidades tão limpas. Dá gosto, agora que nos deixam sair à rua e podemos respirar bem. Todos os temas relacionados com a defesa da natureza não são partidários, não são ideológicos, são necessários em um mundo e em cidades com uma densidade populacional como as que temos. Portanto, é uma realidade que terá que ser abordada já. Nas cúpulas climáticas das quais participei, e já fui a muitas, era inicialmente mais um assunto de debate entre políticos, mas agora é da sociedade civil. Vimos isso aqui em dezembro. É a sociedade civil que estava lá, pressionando para que as coisas sejam feitas de outro jeito... E podem ser. Li recentemente um relatório que diz que os objetivos que temos na Europa para 2030, de 40% de energias renováveis, são muito modestos e que se pode chegar a mais de 60%. É um caminho sem volta. Há nostálgicos que querem continuar se aquecendo e produzindo eletricidade com carvão e que sentem falta das locomotivas a vapor nas ferrovias. Mas acredito que isto tenha sido relegado aos filmes. Não tem mais cabimento no dia a dia.

P. Já conversou com dirigentes empresariais de outros países? Eles têm uma visão similar?

R. As preocupações são bastante comuns. Frear a pandemia, proteger as pessoas do nosso entorno e reativar a economia evitando a mortalidade de empresas. Se as empresas morrerem e o tecido empresarial for destruído, o desemprego pode ser dramático em todos os países. Somos parte da Mesa-Redonda Europeia para a Indústria, formada pelas 50 principais empresas da Europa de todos os setores. Sou membro da comissão executiva e temos um grupo de assessoramento com a própria presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que elaborou uma série de documentos para a Comissão centrados na reindustrialização da Europa. E aí estão, sem dúvida, o setor energético, o setor automobilístico e o setor das telecomunicações. Todos os relatórios indicam que é preciso aproveitar esta oportunidade para fazer renascer uma indústria europeia muito mais moderna, muito mais resiliente, muito mais eficiente, muito mais competitiva em setores que temos e em setores que não temos e teremos que desenvolver.


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