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Tensão social reduz à metade o crescimento do Chile em 2019

Banco Central revê de 2,5% para 1,2% o aumento do PIB, o pior resultado econômico em dez anos

Rocío Montes
Manifestantes erguem uma barricada em Santiago, durante um protesto de rua em 31 de outubro, uma sexta-feira.
Manifestantes erguem uma barricada em Santiago, durante um protesto de rua em 31 de outubro, uma sexta-feira.AFP
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As revoltas sociais prejudicaram o crescimento da economia chilena em 2019. O Banco Central só vai apresentar os dados oficiais em março, mas se estima que a expansão do PIB em 2019 será de 1,2%, a metade do projetado antes da explosão social, quando se esperava um crescimento anual de cerca de 2,5%. O desempenho de 2019 será o pior da economia chilena desde 2009, ano em que a Grande Recessão deixou o país em situação difícil.

Nesta segunda-feira, o Banco Central informou que o Índice Mensal de Atividade Econômica (Imacec) subiu 1,1% em dezembro em relação ao mesmo mês do ano anterior, surpreendendo positivamente o mercado. Isso se explica, sobretudo, pela expansão do setor de mineração. Mas o dinamismo observado no último mês do ano não foi suficiente para neutralizar o impacto negativo. Em outubro, o Imacec caiu 3,4% em relação ao mesmo mês de 2018 e em novembro, 3,3%.

O diretor da área econômica da Fundação Chile 21, Eugenio Rivera, destaca que "a melhoria substancial de dezembro em relação aos meses anteriores se explica por uma situação social menos complicada e uma clara diminuição dos protestos e manifestações". Para Rivera, "o Chile começa a sair do buraco em que esteve entre outubro e novembro, embora o problema atual sejam as expectativas". O economista explica que entre os agentes econômicos e, principalmente, entre os empresários há um alto nível de pessimismo e o que acontecer em março será fundamental: "Em geral, a economia depende em grande parte da política, mas nunca tanto como atualmente.”

Rivera se refere à incerteza em torno de março. Nesse mês começa o ano letivo, as famílias precisam fazer pagamentos anuais importantes ―como o da taxa de licença de veículo―, é comemorado o Dia Internacional da Mulher, que em 2020 será especialmente ativo, e o Governo de Sebastián Piñera celebra metade de seu mandato (2018-2022).

As autoridades preveem que em março poderão ressurgir não só os protestos, mas a violência, um mês antes do plebiscito de 26 de abril, quando os cidadãos decidirão se querem mudar a Constituição vigente desde a ditadura e o mecanismo para sua eventual substituição. "Há uma questão política central que afeta a economia: pode-se dizer que o presidente Piñera está bastante apagado, mas na oposição não há liderança que possa enfrentar os grupos violentos que consideram que as mudanças nunca serão suficientes porque o que procuram é desafiar a institucionalidade”, avalia o economista.

O efeito da explosão foi significativo no âmbito da economia real, onde todos os indicadores apontam queda, principalmente do investimento. Entre os setores que mais sofreram estão o comércio, o turismo e os serviços. Para o economista Sergio Urzúa, professor da Universidade de Maryland e pesquisador da Clapes-UC, ficou bastante claro que o choque econômico esteve concentrado nos dois primeiros meses da crise social e que em dezembro “a economia funcionou, embora com a máquina pela metade”. O dado sombrio e negativo é que o Chile cresceu 1,2% em 2019 ―muito ruim em relação ao que o país estava acostumado― e provavelmente o que observamos nos últimos 100 dias se traduzirá em um desempenho medíocre no longo prazo. É o grande risco que o Chile tem: como dinamizar sua economia no futuro, livrando-se da recessão técnica?”, se pergunta Urzúa.

A grande questão para os economistas é o que acontecerá em 2020 e nos próximos anos com o país que nas últimas três décadas foi o aluno mais adiantado da América Latina. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu para 0,9% a previsão de expansão do PIB do Chile em 2020, o que é explicado tanto pela violência que o país enfrentou a partir de outubro como pela incerteza política, segundo Urzúa. “O processo da Constituinte que o Chile iniciou representa um importante grau de incerteza para os agentes econômicos, por isso é essencial que seja conduzido de maneira inteligente e sensata. E há uma questão fundamental: a violência parece não ter fim e é complexo conduzir um processo constituinte nestas condições”, afirma o pesquisador acadêmico.

No entanto, as consequências das revoltas para os ativos financeiros do Chile foram moderadas. O país sofreu uma depreciação da taxa de câmbio em torno de 7% nas primeiras semanas dos protestos, mas não houve um descontrole. As taxas de juros, por outro lado, permaneceram em níveis semelhantes aos de antes da crise e o risco-país cresceu relativamente pouco.

O Chile é um dos países com melhor acesso aos mercados internacionais na América Latina e, apesar dos altos níveis de violência dos últimos 100 dias, a visão que se tem do exterior permanece relativamente positiva. Mas o cenário está aberto: um relatório recente da Bloomberg indica que o Chile poderia deixar de ser o primeiro país entre as economias seguras da América Latina, uma reputação conquistada com esforço.

Apesar dos prognósticos, o desemprego não mostrou aumentos significativos após a explosão social e permanece na faixa de 7%, embora o trabalho informal tenha disparado no país. Com menos crescimento e maiores demandas sociais ―das quais muitas foram atendidas―, o Chile terá um déficit fiscal maior este ano. Depois de 17 meses de discussão, acaba de ser aprovada uma reforma tributária para financiar parte da agenda acordada entre o Governo e a oposição.

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