Para entender Villa-Lobos é preciso subir o morro

Quem quer conhecer o violonista clássico, criticado pela proximidade com Getúlio Vargas, deve conversar com aqueles que entendem do assunto

Heitor Villa-Lobos rege orquestra.
Heitor Villa-Lobos rege orquestra.Acervo: Museu Villa-Lobos
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A imagem perdura na memória do contribuinte brasileiro como um pesadelo recorrente. Sentado em frente ao piano, o recém-nomeado presidente da Fundação Nacional das Artes (Funarte), Dante Mantovani, executa as Bachianas Brasileiras n.º 4, de Heitor Villa-Lobos, a modo de exemplo a seguir contra a ameaça do “rock demoníaco, abortivo e alucinógeno”… “Isto aqui é a nossa verdadeira cultura: é a música clássica, a música erudita de Heitor Villa-Lobos”.

Que o mais universal dos compositores brasileiros tenha sido escolhido para representar o Übermensch bolsonarista (o super-homem bolsonarista) não é algo que nos deveria apanhar de surpresa. “O próprio Getúlio [Vargas] usou Villa-Lobos para alcançar o populismo”, afirma a musicóloga Ermelinda A. Paz, “mas, ao final, foi Villa-Lobos que usou Getúlio. Ele era um nacionalista sentimental e acreditava na educação social através da música.”

Subjaz a isso a ideia de um Villa-Lobos branqueado, reduzido à sua caricatura, modelado à imagem de um “Bach subtropical” —algo contra o que Ermelinda Paz se rebela de forma inflamada. “Existem centenas de estudos sobre seu trabalho sinfônico, sua música de câmara, porém se fala muito pouco sobre a ligação de Villa-Lobos com os músicos populares, como se a música popular fosse uma coisa menor. Eles se esquecem de que Villa-Lobos estava realmente à vontade com todos aqueles que a sociedade da época desprezava, os músicos populares, como Pixinguinha e Cartola.”

Nascida no bairro do Realengo, na zona Oeste do Rio de Janeiro, duplamente acadêmica —da Academia Nacional de Música e da Academia de Música do Brasil—, Ermelinda Paz se declara fã incondicional do maestro. “Não é que eu goste, eu tenho verdadeira idolatria por ele, amo, adoro... Ele é tudo para mim!” Prova disso é o seu último livro, editado pela Tipografia Musical. Villa-Lobos e a música popular brasileira: uma visão sem preconceito é o resultado de um árduo trabalho de pesquisa efetuado pela autora. “Passei horas na Biblioteca Nacional, no Museu da Imagem e do Som e no Museu Villa-Lobos consultando arquivos de jornais e revistas, tanto que era confundida com funcionária.”

Deixando de lado sua timidez natural, Ermelinda sai ao encontro dos grandes nomes da MPB. “Fui entrevistando absolutamente todo mundo que havia gravado Villa-Lobos, e um levava ao outro. Fui para Tom Jobim, Egberto Gismonti, Wagner Tiso, Dorival Caymmi, Nana Caymmi, Edu Lobo... Todo mundo que gravou Villa-Lobos eu batia na porta.” Em sua viagem às profundezas do Villa-Lobos popular, a autora se deparou com todo tipo de reação. “Já teve músico que disse: ‘Olha só, eu fico muito à vontade para fazer coisa com o Villa-Lobos, ele utilizou nossa música e acho que ele ficaria muito feliz de ver a gente usando a música dele’. Já o Dorival Caymmi achava que era um desrespeito dos músicos populares: ‘Qualquer um acha que pode fazer uma coisinha qualquer com a obra de Villa-Lobos, mas ele é bom demais, deve ser preservado nota por nota como ele escreveu’. Ainda hoje tem gente que não aceita o que Wagner Tiso fez quando se juntou com Ney Matogrosso para cantar Villa-Lobos, por exemplo.”

A autora deixa claro: para entender Villa-Lobos é preciso subir o morro e conversar com quem entende do assunto. “E por isso que o Villa-Lobos ia à Mangueira, que na época era um subúrbio sem água, sem luz nem asfalto, porém nada o incomodava. Ninguém na posição dele ia ao morro nem andava com os pobres, só ele”. Cumprindo sua missão de desmascarar a verdadeira face do compositor, Ermelinda percorreu de ponta a ponta o mais musical dos bairros cariocas. “Colhi depoimento de dona Zica, que era viúva de Cartola, e de Dona Neuma, e de seu Aluísio Dias”, conta.

A casa do cantor e compositor Angenor de Oliveira, universalmente conhecido como Cartola, na travessa do Buraco Quente, era o ponto de encontro. “De lá saíam para ouvir os músicos de rua, e para os bares e a escola de samba. Na época ninguém deu importância ao que eles fizeram, mas ele levou aquele trabalho muito a sério. [Villa-Lobos] era amigo de todos eles, do Cartola, do Donga, do Zé do Cavaquinho... Ele tirou várias vezes o Cartola da cadeia porque naquela época andar com violão na rua era vadiagem. Uma vez ele disse ao carcereiro: ‘Você não imagina quem é esse homem! Esse homem vai ser muito importante, todo mundo vai saber quem é Cartola’. Palavras proféticas.”

A autora Ermelinda A. Paz
A autora Ermelinda A. PazBianca Burnier

Autodidata por convicção (“Ele não tinha uma formação de conservatório; formou-se na vida”), em 1905 Villa-Lobos precisou vender a biblioteca herdada de seu pai para financiar sua primeira turnê pelo Brasil. “Ele se apaixona pelos cantos afro-brasileiros, os pregões da cidade, o som das violas sertanejas, as congadas, os batuques, as macumbas e os candomblés... ouvia e anotava, e essas anotações vão nutrir sua música.” De volta ao Rio de Janeiro, mergulha nas águas da bem movimentada boemia carioca do início do século. “Ele se juntava a um grupo de chorões na rua de Ouvidor para se imbuir daquele clima. Tocaram em bares, cabarés e pensões, onde quer que fosse”. Vinte anos mais tarde, o jovem diletante aparecerá na foto em cima do palco no mais puro estilo de Hollywood, no estádio do Fluminense, regendo um coro de 10.000 integrantes além do Coro do Theatro Municipal. “Aquelas concentrações orfeônicas que ele organizou durante o período Vargas lhe deram fama, mas também foram mal compreendidas.”

Ao longo de sua conturbada existência, o compositor foi repetidamente apontado por sua participação como diretor da Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA) no primeiro Governo de Vargas: uma carga que o acompanhou até seus últimos dias. “Porém, ninguém coloca em Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade que eles eram ligados à ditadura, por quê? A verdade é que todos os grandes nomes da época queriam fazer parte daquele Brasil novo. Agora, só em Villa-Lobos que criaram a pecha de ‘músico da ditadura’.” Questão de caráter. As convenções sociais, as opiniões dos outros, significavam pouco para o compositor convertido, ao longo de sua vida, num colecionador de rixas (por apropriação cultural, machismo, abuso de autoridade...).

“Villa-Lobos tinha uma personalidade muito forte e jamais se preocupou em dourar suas palavras. Aconteceu comigo enquanto trabalhava no livro. Eu ia muito a um xerox perto da minha casa e via que o dono da loja ficava olhando eu xerocar e não falava nada. Um dia, ele me disse: ‘A senhora gosta muito de Villa-Lobos, né? Mas ele era muito grosso. Uma vez, ele me deu um cascudo porque eu fiz algo que não foi do agrado dele.’ E eu tive que calar a boca, claro.”

A autora relembra um momento determinante na conturbada relação entre o compositor e Vargas. “Numa das vezes, estavam Villa-Lobos e o Coral atuando no Palácio do Catete quando Getúlio chegou. Aquilo foi um puxa-saquismo geral, todo mundo cumprimentando o presidente... Então Villa-Lobos deu um corte: ‘Se eles não querem ouvir nossa música, vamos ouvir a conversa deles...’ Não houve quem fizesse Villa-Lobos retornar. ‘Olha só, você é o marechal dos seus soldados, aqui sou o general de minha música.’ Ele não baixava a cabeça na frente dos militares.”

Encontro em Paris

Paris os reuniu. Andrés Segovia e Heitor Villa-Lobos representavam o hoje florescente e o amanhã desconhecido do violão clássico. Um instrumento até então considerado indigno de ser escutado numa sala de concertos. O encontro inevitável ocorreu numa casa da alta nobreza parisiense durante uma recepção ao maestro espanhol. De algum modo, o jovem aspirante conseguiu chegar até as imediações para homenageá-lo. “Vi um moço de vasta cabeleira, rodeado de mulheres”, recordaria o brasileiro. “Achei-o besta, pretensioso, apesar de simpático.”

Em sua versão dos fatos, Segovia fala do “sobressalto” após ser abordado por um sujeito exaltado, determinado a arrancar o instrumento de suas mãos para lhe fazer uma demonstração; algo que o reverenciado maestro se recusou a fazer terminantemente. Como consequência, Segovia e o jovem desconhecido travaram uma feroz batalha que terminaria com a vitória da juventude sobre a experiência. Resignado ante o inevitável, Segovia escutou o brasileiro em sua interpretação atropelada e veemente, um festival de “práticas antiviolinistísticas, dissonâncias e ritmos, isso sim, fascinantes.” Era demasiado para a alma sensível do espanhol. “Segovia disfarçou, guardou o violão —e deu o fora.”

Ambos voltariam a se encontrar 24 horas mais tarde num ambiente bastante mais sossegado, com um resultado bem mais animador: “Revezamos no violão até as quatro horas da manhã.” Aquele foi o começo de uma velha amizade. “Ele [Segovia] me encomendou um estudo para violão, e foi tão grande a amizade que nasceu entre nós que, em vez de um, fiz doze: 12 Estudos para Violão.”

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