O criador do cartaz viral do filme de Almodóvar: “Se o mamilo fosse de um homem, não o teriam censurado”

Conversamos com Javier Jaén, o criador do cartaz de ‘Madres paralelas’ (Pedro Almodóvar), sobre como o Instagram eliminou seu trabalho por mostrar um mamilo

Javier Jaén (Barcelona, 1983) é um dos desenhistas gráficos mais reconhecidos da Espanha. Seus trabalhos já apareceram na capa de publicações como The New York Times, The Washington Post, The New Yorker e dezenas de revistas internacionais. Na Espanha, seus trabalhos foram publicados pelo EL PAÍS Semanal e pelo Centro Dramático Nacional, entre muitos outros. É membro do prestigioso AGI desde 2015 e ganhou o Prêmio Gràffica de 2010. Um currículo sem dúvida impressionante, mas que não escapou à absurda censura do Instagram. A rede social apagou o cartaz que ele criou para o filme Madres paralelas, de Pedro Almodóvar, por mostrar um mamilo. E não só isso. Também ameaçou fechar sua conta.

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Conversamos com ele sobre censura e autocensura, e sobre como pouco a pouco vamos dando como válidas algumas regras das redes sociais que não são tão aceitáveis.

Pergunta. Como encara todo o alvoroço por causa da censura ao seu cartaz de Madres paralelas?

Resposta. Você não pode imaginar o que está sendo. Eu que estava de férias... as interrompi para vir ao estúdio e dar entrevistas. Rádio, televisão, imprensa escrita… Parei um pouco o tempo de descanso, mas não tem problema. É por um bom motivo.

P. Como foi o processo de criação do cartaz?

R. Quando me encarregaram o cartaz eu perguntei o que tinham em mente. Foi muito bonito, porque me disseram que fosse eu quem propusesse ideias, mas que antes fosse a Madri para ver o filme com Pedro Almodóvar. Assim fizemos. Achei incrível, porque é assim que se tem que trabalhar. Vimos o filme, comentamos, e a todo momento meu objetivo era fazer o melhor cartaz para atrair o público. Propus vários caminhos a eles, e para mim este sempre foi o melhor.

P. Cogitaram naquele momento que o cartaz podia ser censurado?

R. Sim, houve um momento em que o assunto apareceu na conversa. Eu comentei que havia uma rede social, o Instagram, que pelo visto tem problemas com mamilos, e que talvez não pudesse ser publicado lá. Adorei a reposta do Pedro, porque é a de alguém que representa a integridade artística e a liberdade. Não a polêmica nem a transgressão, porque isso são consequências de trabalhar de forma íntegra e livre. Pedro tinha muita clareza e me disse: ‘Passei a vida toda fazendo filmes, e se escolhermos este cartaz será este. Outra coisa é que não gostássemos ou não acreditássemos nele, mas se for o melhor para nós, e é o que melhor conta o que queremos transmitir, vamos em frente. Se em algum lugar não o quiserem pôr, que não saia’. Ele me transmitiu, entre aspas, que não tinha problema nenhum.

P. E aconteceu o que costuma acontecer quando o Instagram detecta um mamilo…

R. Isso. Publiquei o cartaz ontem e já começou o ruído, por assim dizer. A verdade é que achei tudo um pouco triste, porque ainda não entendi o que ele tem de polêmico. A quem devemos proteger de ver esta imagem? Dá o que pensar… Eu evidentemente já conhecia a questão da censura no Instagram, mas digamos que não a tinha vivido em primeira pessoa. E eu trabalho com o hiperprivilégio de ser um desenhista de um cartaz de um filme, mas me faz pensar em todas essas pessoas que publicam uma foto delas e aí eles dizem que seu corpo está ruim, que é errado e que não pode ser visto.

P. De quem é o mamilo?

R. Isso eu não posso contar.

P. Além de censura, é machismo?

R. É um mecanismo muito sexista e muito machista. Se for um mamilo de homem, não é censurado, e se for de mulher se censura. Além disso, estamos falando de um contexto de maternidade, que está sendo tratada como algo pornográfico ou sexualizado. Partindo da base de que a sexualidade e o erotismo não têm nada de ruim, acredito que estamos falando da imagem menos erótica do mundo.

P. O que você queria transmitir com esta imagem?

R. Bom, ela fala do drama, da tristeza, da maternidade, da força… Vai muito na linha da história que o filme conta, e quando puderem vê-la perceberão que é um filmaço, de verdade.

P. O Instagram entrou em contato com você para lhe pedir desculpas?

R. Não, que nada. Não é só isso. Se você ler as políticas de uso deles, põem que não podem ser publicados mamilos, exceto se for num contexto de maternidade e lactação. Mas neste caso nem isso foi levado em conta. O triste é que uma vez que apagam o post, você não tem maneira de recuperá-lo ou de entrar em contato para argumentar. Não há maneira de dialogar com eles. Todo este absurdo vamos aceitando. Lamento que estejamos falando disto e não do filme.

P. A censura afinal conseguiu que o cartaz tenha muito mais repercussão.

R. É a parte positiva de tudo isto. Que você e eu estejamos agora falando disto. Que duas pessoas podem estar agora em um bar comentando o que aconteceu. Que duas amigas estejam falando, ou que alguém esteja debatendo com sua mãe ou com seu pai. Quando falamos destas coisas vamos derrubando muros opacos e inamovíveis. Talvez estejamos pensando que não é muito normal que uma empresa privada, totalmente opaca, decida qual é a moralidade e a legalidade. O que podemos ver e o que não podemos. O que está bem e o que está mal. É estranho e é o momento de debater isso.

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P. A esta altura o algoritmo já não deveria ser mais refinado?

R. Acho que não é só o algoritmo, também funciona por denúncias. É um processo muito opaco que gera muita frustração a milhares de pessoas. É uma parede e não há ninguém do outro lado.

P. A comunidade se mobilizou por seu trabalho.

R. Totalmente. Fala-se de uma suposta polêmica, mas as pessoas só me mandam, unanimemente, mensagens muito positivas. O que você procura com um cartaz ou uma peça de comunicação afinal é que se conecte com as pessoas. A polêmica é tão absurda que me custa acreditar que em 2021 alguém possa se sentir ofendido por isso.

P. Você dizia antes que era o momento de começar a debater.

R. Temos que começar a ver quem está decidindo o que é bom e o que é ruim, e sobretudo com que interesses faz isso. Estas políticas são inaceitáveis.

P. A filmografia de Almodóvar tem cartazes maravilhosos. Qual é o seu favorito?

R. São tantos… Eu me atreveria a dizer que Pedro Almodóvar é o artista com os melhores cartazes da história do cinema. Digo internacionalmente, tá? Quando comecei a trabalhar neste projeto, imprimi todos os cartazes dele e os pus no chão, e me deu vertigem. Há tantíssimas peças tão boas! Sou muito admirador de Juan Gatti, de Óscar Mariné, de Mariscal, de tantos desenhistas, que para mim foram mestres. Com eles, embora não saibam, aprendi muito desde pequeno. Eles abriram uma porta para os que vínhamos atrás. Agradeço a você por esta pergunta, porque eu gostaria de dizer que este cartaz sem o trabalho de todos os anteriores é impossível. Não posso fazer outra coisa senão me sentir grato. Tenho tantos preferidos. Trabalhei em um videoclube com 18 anos e tenho muito gravado o de De salto alto, também o de Tudo sobre minha mãe, do Oscar Mariné, o de Volver… Não digo por dizer. Eu o que queria é que quando as pessoas chegassem ao cinema, ao verem o meu cartaz dissessem: “Ah, legal, esse é um filme do Almodóvar”.

P. Você falou com Pedro Almodóvar depois da censura?

R. Trocamos uma mensagem ontem. Eu o agradeci mais uma vez pela confiança e a cumplicidade. A vontade de arregaçar as mangas e deixar as coisas acontecerem. A autocensura é uma das coisas mais perigosas. Isso me preocupa porque, se você agora deixar de escrever um artigo porque depois não pode sair sei lá onde, que tal veículo não o publica porque pode perder um anunciante... Isso acontece. Acho importante que façamos como achamos que deve ser, e depois assumir as consequências.

P. Você, que trabalhou para veículos internacionais como The New York Times e The New Yorker, se viu alguma vez em uma situação similar?

R. Sim, algumas vezes. A última foi uma capa com Bill Cosby que fiz para a revista norte-americana Ebony. Alguns não entenderam que uma revista de temática cultural afro-americana falasse mal de um deles, apesar de ser culpado. Afinal é sempre a mesma coisa. Não tenho a intenção de fazer nada polêmico. Mas sim de pôr sobre a mesa os debates que devem acontecer. A raiva e o ruído não são ingredientes com os quais eu trabalhe. Mas, embora eu não queira, às vezes acontece.

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