Leitura

Livros para mostrar que ler não é necessário

Estantes de mentira, camisetas com capas famosas, ostentação literária nas redes sociais... a última tendência da era digital se chama ‘bookishness’ e envolve a exibição da parte mais fetichista da leitura

Desenho de Tom Gauld para seu livro ‘En la Cocina con Kafka’, publicado na Espanha em 2018 pela Salamandra Graphic.
Desenho de Tom Gauld para seu livro ‘En la Cocina con Kafka’, publicado na Espanha em 2018 pela Salamandra Graphic.

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A influencer francesa Maddy Burciaga ganhou as manchetes da imprensa em janeiro de 2021 por anunciar caixas que imitam livros de luxo por 19,99 euros (cerca de 122,16 reais), valor das duas unidades. Seus fake books (ou livros falsos) não têm páginas e, como se vê no vídeo que a blogueira publicou para mostrar a novidade, são tão bons para decorar uma sala como qualquer papel de parede que imita bibliotecas, desses encontrados na Amazon. Pela bagatela de 70 euros, é possível se vangloriar e exibir numerosos e respeitáveis livros e sem a necessidade de comprá-los, de adquirir estantes e, é claro, de sequer lê-los.

Os fake books de Burciaga (que conta com 2,6 milhões de seguidores no Instagram, 153.000 assinantes no YouTube e mais de 61.300 no Twitter) são mais um exemplo do chamado bookishness, ou o vício em livros, um verdadeiro nicho de mercado, ou mesmo uma subcultura, que a professora associada de Inglês e Literatura Comparada da Universidade Estadual de San Diego, Jessica Pressman, descreve no livro Bookishness – Loving Books in a Digital Age como um somatório de “atos criativos que se relacionam com a materialidade do livro dentro de uma cultura digital”. Em linhas gerais, o movimento se define como um punhado de práticas pouco variadas que incluem a publicação nas redes sociais de uma capa sobre um fundo (esteticamente aceitável), a encenação do ato de ler, a celebração de certas livrarias, o comentário superficial, mas entusiástico, sobre as emoções que ganhamos ao ler uma obra, o registro fotográfico de pilhas de livros em ambientes domésticos combinando cores e, é claro, uma mostra pessoal de sacolas de tecido, chaveiros, marcadores de página, estojos, bonecos, almofadas com citações, joias, camisetas, brinquedos e lápis.

Segundo a autora, “existe uma urgência e há uma espécie de intensidade nesse apego aos livros na era digital”; na melhor das hipóteses, segundo ela, a exibição dessas coisas nas redes sociais seria uma forma de resistência a uma cultura digital que teria levado alguns a acreditar que a literatura, por exemplo, é obsoleta. A popularidade de plataformas como Instagram, YouTube e TikTok e o interesse da indústria editorial em se apropriar delas (por sinal, motivo que leva essa mesma indústria a criar estratégias de comunicação e capas para serem vistas especificamente em um tuíte, em uma postagem de Instagram ou em janelinhas da Amazon), podem ser vistas como um esforço contínuo para promover a leitura entre os mais jovens, além de contribuir para criar laços com novos atores do mundo digital, como os booktubers e os booktokers (pessoas que fazem resenhas de livros no YouTube ou no TikTok).

O resultado dessas estratégias, no entanto, vai por outro caminho: é simplesmente a promoção da compra de livros do ponto de vista de seu potencial decorativo, ou para conquistar o respeito e certo capital simbólico que aqueles que não têm o hábito de ler dão àqueles que têm (baseado na ideia fictícia de que os leitores são, de alguma forma, superiores) —ou, até mesmo, para celebrar a existência e os feitos de escritores do passado. Tudo isso, porém, não acontece no âmbito da literatura, mas, sim, no digital, que só reforça essa ideia fetichista. Seria como se todas as camisetas (o escritor Haruki Murakami, por exemplo, acaba de colaborar com a empresa Uniqlo na criação de alguns modelos inspirados em seus livros), os copos estampados com alegorias literárias e as meias com frases de livros fossem verdadeiros restos do naufrágio de uma literatura que, em algum momento, não foi apenas forma, mas também conteúdo —e que, de certa forma, contribuiu para a busca de sentido no mundo em que vivemos.

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Pode ser que o bookishness seja, para os integrantes de uma sociedade esgotada, confinada e digital, o único ponto de contato com a literatura; como atestam dezenas de livreiros e livreiras, não são poucos os clientes que, no último ano, escolheram livros por metro ou por cor, encadernados em capa dura ou com uma cara mais informal, pelo tipo de imagem que queriam passar, ou mesmo para transformar um quarto da casa em uma sala de home office. Mas também existem queixas: uma editora “independente” reclamou, tempos atrás, que uma quantidade importante das encomendas que recebia em sua loja virtual não era necessariamente dos títulos publicados (a maioria deles, por sinal, excelente), mas sim dos pôsteres e cartões-postais que havia criado justamente para promove os livros. É isso que os clientes preferem —em vez dos próprios livros. Isso levou grandes editoras a prestar atenção quase exclusiva à comercialização de uma literatura diferente: que circula e é promovida nas redes sociais apenas pelo aspecto material, além de ser movida à base de um desempenho que torne possível manter estruturas à parte do consumo real de literatura. Assim, essas grandes editoras apostam deliberadamente no kitsch do tal “vício em livros”, tema que Pressman explora em sua obra.

Nas palavras de seus editores, “Bookishness explica como os livros continuam a dar sentido às nossas vidas em meio à era digital”. No entanto, o tipo de discussão que surge nas redes sociais e o uso do livro para fins estéticos (para “construir e projetar identidade por meio da posse e da apresentação das obras”, como resume Pressman) parecem dizer que é justamente esse “sentido” da vida que vem sendo buscado e produzido em outro lugar; por exemplo, na aquisição de livros que alguém não quer necessariamente ler, mas sim ter. Tempos atrás, isso se chamava “esnobismo”. Hoje, a palavra se destina àquilo que questiona as práticas de uma maioria presa na habitual e deliberada confusão entre influencers e especialistas, entre leitores e compradores de livros. A cultura letrada não perdeu totalmente seu apelo, ao que parece; ou, como sugere o ensaísta inglês Simon Reynolds em Retromanía, adquiriu outro: o apelo daquilo que acabou, como a inventividade e a extraordinária energia que a música pop teve um dia —e da qual só restam a nostalgia e o consumo. Os proprietários do Zoom não parecem alheios a tudo isso, nem às demandas de seus usuários, e a plataforma já oferece vários fundos virtuais que representam uma estante carregada de livros. Parafraseando Reynolds, talvez a Galáxia de Gutenberg não termine com um sonoro “bang”, mas sim se transformando em algo ‘pós-inspiracional’ e em decoração.

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