Pandemia de coronavírus

A história do meme que se tornou realidade ao virar o produto mais absurdo da Amazon

Empresa de decoração coloca à venda o painel-estante de papelão com a qual o ilustrador Eduardo Berazaluce viralizou nas redes e mantém seu preço de brincadeira. Embora deixe pagar parcelado

Fotomontagem que o ilustrador promoveu no Twitter como se fosse um artigo do Wallapop.
Fotomontagem que o ilustrador promoveu no Twitter como se fosse um artigo do Wallapop.Eduardo Berazaluce

A imagem que transmitimos à distância é tudo o que fala por nós desde o início do confinamento pelo coronavírus. Portanto, a encenação em uma chamada de vídeo é importante. O diabo está nos detalhes: um fundo infeliz pode nos fazer parecer informais aos colegas de trabalho, sem graça em um encontro amoroso ou, em casos mais extremos, até nos tornarmos motivo de piada do programa de televisão Sálvame Deluxe. Portanto, a opção mais segura, e a que parece prevalecer entre especialistas, convidados e comentaristas que aparecem na televisão, é uma boa estante com livros grossos por trás. Intelectualidade casual. E isso também dá origem a todo tipo de memes.

Na semana passada circulou nas redes sociais a imagem de uma oferta, como paródia, de um suporte de papelão com uma falsa estante de livros impressa. Anunciado como “perfeito para atores, jornalistas e comediantes”, e com uma versão alternativa “com bonecos de Star Wars”. O papelão era vendido ao preço de 150 euros (cerca de 900 reais). A fotomontagem foi criada pelo ilustrador madrilenho Eduardo Berazaluce, que a divulgou em 19 de abril em seu perfil no Twitter.

“A ideia me ocorreu enquanto assistia às chamadas de vídeo das pessoas na televisão, com estantes por todo lado [risos]. Pensei que fazia falta um meme engraçado, inspirado na estética do Wallapop, e o fiz com a imagem de um suporte de papelão para que ficasse mais vagabundo”, conta ao EL PAÍS. Embora a publicação tenha tido apenas cerca de vinte retuítes e aproximadamente cinquenta curtidas, sua imagem foi para o WhatsApp e de lá voltou com mais força para o Twitter graças a perfis com maior alcance, como o de Pablo Simón, cientista político do EL PAÍS, ou o do escritor Juan Gómez-Jurado. Tornou-se viral.

O meme evoluiu e veículos de comunicação como a Onda Cero [rede de rádio espanhola] chegaram a considerá-lo real. Inclusive, na segunda onda de difusão da imagem, a parte superior com o nome de uma empresa falsa criada pelo autor (TodoCartón) havia sido omitida: um usuário, como ele mesmo contou ao próprio Berazaluce, acreditou que era real e a recortou para não fazer publicidade grátis da empresa. Assim sendo, em dado momento o ilustrador tuitou: “Seria divertido se alguém o fabricasse e o vendesse”. E, como as superstições advertem, é preciso ter cuidado com o que se deseja.

Ontem, por meio de uma página dedicada à decoração, Eduardo Berazaluce descobriu que a loja online Oedim Decor, que faz impressões sob encomenda e fabrica photocalls e murais decorativos de vinil, oferece pela Amazon a possibilidade de comprar um artigo à imagem e semelhança do imaginado pelo usuário do Twitter, “ideal para fazer chamadas de vídeo”, com as mesmas dimensões que indicara em sua montagem (180 centímetros de largura por 240 de comprimento) e pelo mesmo preço. Embora, isso sim, com a opção de pagar em quatro parcelas durante 90 dias.

“Eu coloquei um preço altíssimo de propósito, é parte da brincadeira, é um pedaço de papelão! Assim como as medidas, é maior que um colchão de casal, aonde você vai com isso?”, conta Berazaluce, claramente estupefato, ao EL PAÍS. “Eles tiveram de mudar o fundo que eu fiz e colocar alguns livros muito antigos, sem direitos autorais, e logicamente também tiraram aquilo de Star Wars. Criar um meme não é a mesma coisa que vender algo, aí precisam ter cuidado”, explica.

Berazaluce descarta a possibilidade de receber uma comissão: a empresa (que faz parte da matriz Oedim S.L., dedicada à impressão digital de grande formato, com sede em Jaén) não o chamou. Embora tampouco preveja um grande sucesso para o produto. “Eles trabalham com vinil, papelão, impressão... Eu acho que fizeram isso um pouco como clickbait, para que as pessoas entrem na página deles e vejam outras coisas”, pensa. O EL PAÍS tentou entrar em contato com a Oedim, sem sucesso.

O artigo na Amazon, que a empresa não hesita em definir como “econômico” em sua descrição e está disponível desde 23 de abril (quatro dias depois da publicação original), não tem opiniões de clientes ou avaliações, de modo que nada faz suspeitar que algum incauto tenha desembolsado 150 euros –ou a primeira das quatro prestações de 37,50 euros– para adquirir o macropainel. O afrouxamento do confinamento, com a reabertura de bares com mesas na calçada pode acabar frustrando sua pouco promissora vida comercial, mas em tempos desesperados, medidas desesperadas: quem sabe se, com a maior implantação do teletrabalho na Nova Normalidade, esta acabe sendo tão estranha que essas duas placas inseridas em um “ninho de abelha resistente, leve, isolante, de longa durabilidade e 100% reciclável” tenham que ir em auxílio de alguém.

Informações sobre o coronavírus:

- Clique para seguir a cobertura em tempo real, minuto a minuto, da crise da Covid-19;

- O mapa do coronavírus no Brasil e no mundo: assim crescem os casos dia a dia, país por país;

- O que fazer para se proteger? Perguntas e respostas sobre o coronavírus;

- Guia para viver com uma pessoa infectada pelo coronavírus;

- Clique para assinar a newsletter e seguir a cobertura diária.

Mais informações