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A história do Japão contada pelas cerejeiras, que já foram sequestradas por kamikazes, e resgatadas por um jardineiro como símbolo nacional

Em ‘O homem que salvou as cerejeiras’, Naoko Abe narra a relação do Japão com essa árvore emblemática, mas também a história do inglês que resgatou muitas espécies da extinção

Agitando ramos de cerejeira em flor, garotas japonesas se despedem de piloto kamikaze em 1945, numa imagem de ‘O homem que salvou as cerejeiras’.
Agitando ramos de cerejeira em flor, garotas japonesas se despedem de piloto kamikaze em 1945, numa imagem de ‘O homem que salvou as cerejeiras’.

Desde tempos imemoriais, as cerejeiras ajudaram os camponeses do Japão a identificarem o momento em que o fim do inverno se aproximava. Durante séculos, estas árvores foram veneradas neste país, e sua floração, a sakura, se tornou um poderoso símbolo de alegria e paz, mas também da brevidade da existência. O Hanami, a contemplação da floração, mantém-se como uma das tradições mais importantes do calendário japonês. Entretanto, na década de 1930, o imperialismo nipônico fez tudo mudar. “Em pouco mais de uma geração”, escreve Naoko Abe em O homem que salvou as cerejeiras, “os líderes japoneses tinham transformado secreta e imperceptivelmente as flores de cerejeira ―que passaram mais de 2.000 anos sendo um símbolo de paz―em flores de destruição”.

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O sequestro das flores da cerejeira pela ideologia imperial japonesa, a ponto de transformá-las em símbolo dos kamikazes, os pilotos suicidas que se lançavam contra os navios norte-americanos, é uma das muitas histórias narradas por Naoko Abe, jornalista japonesa radicada em Londres, de 63 anos, em seu livro O homem que salvou as cerejeiras (inédito no Brasil). O título faz referência ao protagonista do relato, Collingwood Ingram, um inglês obcecado pelas cerejeiras silvestres do Japão, que chegou a preservar no seu jardim do Kent espécies que tinham desaparecido no seu país de origem. Mas a narrativa vai além da botânica, apresentando-se também como uma reflexão sobre uma das épocas mais sombrias da história daquele país e sobre a reconstrução da memória no pós-guerra.

“As flores de cerejeira estão profundamente arraigadas na mentalidade dos japoneses”, afirma Naoko Abe numa entrevista por videoconferência, de Londres. “É algo muito emocionante e bonito. As pessoas amam as flores. E as flores têm muitos significados: são um símbolo da beleza, do amor, de paz, mas também tiveram outras leituras. O simbolismo pode ir do positivo ao negativo. E foi isso que ocorreu durante a guerra: transformou-se completamente sem que ninguém se desse realmente conta, dadas as circunstâncias da época. Por isso achei importante mostrar como isso ocorreu, porque é uma transformação que não foi muito estudada”.

A escritora Naoko Abe numa foto sem data.
A escritora Naoko Abe numa foto sem data.

O livro reproduz um artigo de 1942, quando os Estados Unidos acabavam de lançar seu primeiro ataque aéreo contra o Japão, escrito pelo encarregado de parques de Tóquio, que mostra perfeitamente a metamorfose definitiva da flor de cerejeira em símbolo da violência e do militarismo. “Na base das vitórias do Exército imperial”, afirmava o texto, “há uma imensa reserva desse espírito imemorial que a flor da cerejeira representa. Com esse espírito nossos soldados desejam morrer corajosamente por nosso imperador”

Abe acredita que essa etapa da história do Japão foi completamente superada, mas que uma parte da ideologia continua vigente. “Ainda tem gente que glorifica a ideia de que os jovens devem dedicar suas vidas ao seu país. Outra coisa é que não digam isso de forma pública e oficial. Embora, felizmente, seja algo visto com bastante distância. A maioria prefere a paz à guerra e está consciente do que ocorreu no passado.”

Através das cerejeiras, Naoko Abe narra a história do Japão, um país que durante três séculos esteve totalmente fechado ao exterior, até a restauração Meiji em meados do século XIX, assim como a de sua própria família, que viveu a época das cerejeiras imperiais. Como se fosse uma árvore, é um livro do qual brotam numerosos ramos. Um deles é a história de Collingwood Ingram. “Quando vim morar na Inglaterra, entrei em contato com jardineiros e horticultores e rapidamente descobri a história desse homem que, no começo do século XX, se apaixonou pelas cerejeiras ornamentais japonesas e as introduziu na Inglaterra”, explica Abe. “Isso despertou muita curiosidade e eu quis investigar que tipo de pessoa era ele. Para Ingram, como darwinista, a diversidade era essencial. E quando ele viaja ao Japão em 1926, observa que muitas espécies estão desaparecendo e alerta para os perigos da perda de biodiversidade”.

Festa do Hanami à beira do rio Arakawa, na década de 1920, numa imagem da família Funatsu.
Festa do Hanami à beira do rio Arakawa, na década de 1920, numa imagem da família Funatsu.

De todas as histórias daquela viagem de Ingram ao Japão em 1926, a mais extraordinária tem a ver com a variedade taihaku ou akatsuki. O botânico inglês estava visitando Seisaku Funatsu perto do rio Arakawa. Tratava-se de um dos maiores especialistas nestas árvores do país e, escreve Abe, depois de lhe mostrar uma série de aquarelas de flores de cerejeiras, apresentou uma especialmente bela. “Esta cerejeira foi pintada pelo meu tataravô há 130 anos. Estávamos acostumados a vê-las perto de Kyoto, mas parece que foram extintas. Já não as encontro em parte alguma”, disse com nostalgia o sábio Funatsu a Ingram. E este respondeu: “Essa cerejeira cresce no meu jardim de Kent!”. Quando obteve um espécime híbrido após encontrá-lo no jardim de uma amiga, batizou a variedade de taihaku, “grande cerejeira branca”, mas descobriu durante aquela visita que o nome em japonês era akatsuki.

Levou quase cinco anos para conseguir que alguns galhos chegassem vivos ao Japão (era uma viagem longuíssima). Isso só foi possível ao enviá-los pelo trem Transiberiano, utilizando batatas cortadas para que retirassem água suficiente. Foi o princípio de algo muito mais importante: durante a II Guerra Mundial, quase todas as grandes cidades japonesas foram destruídas e, com elas as cerejeiras que faziam parte da paisagem urbana havia séculos. Já as cerejeiras que Ingram conservava em seu jardim de La Grange tinham sobrevivido ao conflito, e suas 129 espécies podiam se multiplicar por todo mundo. De fato, espaços como o bulevar National Mall em Washington e vários jardins reais abrigam cerejeiras que existem graças à obsessão daquele jardineiro inglês.

Collingwood Ingram em seu jardim de La Grange, aos 99 anos, em uma foto familiar.
Collingwood Ingram em seu jardim de La Grange, aos 99 anos, em uma foto familiar.

Antes de colecionador de cerejeiras, Ingram foi observador de pássaros e percebeu que a cada ano que passava (e morreu aos 101, em 1981, tendo tido portanto muito tempo para contemplar a natureza), menos espécies faziam ninhos em seu jardim de La Grange, no sul da Inglaterra. Sentiu – e se preocupou muito – que algo estava acontecendo na natureza. Neste ano no Japão aconteceu a sakura mais precoce em 1.200 anos (desde o ano 812 existem documentos que registram a data). A antecipação da florada das cerejeiras é um sinal adicional da crise climática que atinge o planeta. “É sem dúvida um indício do aquecimento global”, afirma Abe. “Para florescer, as cerejeiras precisam que faça frio pelo menos durante um mês. Para despertar, precisam ter passado um inverno com temperaturas inferiores a zero. Em longo prazo, se o aquecimento continuar avançando, haverá um momento em que as flores de cerejeira desaparecerão. É um efeito de muito longo prazo: as cerejeiras florescerão cada vez mais tarde, e é possível que um dia deixem de florescer totalmente”. Terão sobrevivido a ser um símbolo da barbárie imperial e da morte, mas não à crise climática que aflige o planeta.

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