Música brasileira

Arnaldo Antunes: “A indignação é constante, mas não se sobrevive à cultura do ódio com mais ódio”

Cantor, compositor e poeta fala ao EL PAÍS sobre o show que fez na Galeria Psicoativa de Tunga, e reflete sobre revolta, afeto e inércia em meio à quarentena de mais de um ano

Arnaldo Antunes na Galeria Psicoativa de Tunga, no Inhotim.
Arnaldo Antunes na Galeria Psicoativa de Tunga, no Inhotim.Luisa Conti

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Indignação e afeto. São os dois sentimentos que têm marcado os dias do cantor, compositor e poeta Arnaldo Antunes (São Paulo, 1960). Isolado em convívio familiar, o artista tem lido bastante —desde Machado de Assis e grandes romances a livros sobre estética— e visto alguns filmes ao lado dos filhos, como uma forma de “lazer para reunir todo mundo.” Ele não se aliena, no entanto, das notícias sobre a gestão governamental da pandemia de covid-19 e os constantes ataques aos direitos dos povos indígenas. “A indignação é constante, a gente se revolta a cada dia com um Governo que está destruindo tudo, mas a gente não sobrevive só respondendo à cultura do ódio com mais ódio”, diz ele em entrevista por vídeo ao EL PAÍS, em um cômodo de sua casa, em São Paulo, cujas paredes estão repletas de CDs, livros e vinis, do chão ao teto.

Antes de voltar à capital paulistana, Antunes passou alguns meses em um sítio no interior do Estado, dedicando-se às atividades domésticas, a uma horta e à alimentação dos bichos. “É muito importante cultivar o gosto pelas coisas boas, a natureza, a arte e a cultura, que estão sendo tão ameaçadas...”, afirma, em uma conversa cheia de reticências.

Como muitos mortais durante a pandemia, Antunes tem alternado períodos de não conseguir fazer nada, “nem mesmo as coisas mais simples, como responder um e-mail”, e outros nos quais se refugia em seu trabalho. “A única reação possível é fazer música, fazer poesia, porque fazer cultura hoje em dia já é, em si, uma subversão.” Foi com esse espírito que ele gravou o show O real resiste —seu último disco, lançado no ano passado— na Galeria Psicoativa de Tunga, no museu Inhotim, que foi exibido em 29 de maio.

Visivelmente emocionado e ao lado do pianista Vítor Araújo, Antunes interpretou temas e poemas do seu repertório mais recente e mais antigo, enquanto passeava pela galeria que acolhe as obras do artista plástico Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, o Tunga, que morreu há exatos cinco anos e que foi seu amigo e parceiro de criação. “Fazer [o show] ali, naquele templo do Tunga, me despertou uma emoção muito especial. Aquilo me trouxe muitas lembranças da pessoa do Tunga e da convivência com ele, além da atmosfera do lugar, que tem, essa coisa singular de criar relações entre elementos que acabam constituindo quase que uma cultura ali, cheia de estranhamentos mas também reconhecimentos...”, descreve.

Arnaldo Antunes lembra que conheceu Tunga nos anos oitenta, quando convidou-o para participar da revista Kataloki, que o cantor e compositor editava na época. O encontro pessoal só aconteceria, no entanto, anos depois, na casa de algum amigo em comum. “Eu tinha publicado um texto sobre linguagem e ele tinha lido. Começamos a conversar sobre linguagem e intercâmbio de diferentes saberes, saber científico, filosófico e estético, algo muito caro a ele... Foi uma conversa encantadora logo no primeiro encontro”, lembra. Nas reuniões seguintes nasceram colaborações em músicas, poemas e desenhos, sendo a performance Tereza, cuja melodia e letra foram compostas por Antunes, uma das mais marcantes —ela está presente, inclusive, na Galeria Psicoativa do Inhotim. A última vez em que se viram foi durante a gravação do DVD Ao vivo lá em casa, em 2010, quando o cantor reuniu em seu quintal amigos como Erasmo Carlos e Jorge Ben Jor para um show em comemoração de seus 50 anos. “Naquela ocasião, Tunga me deu de presente um desenho emoldurado...”, lembra, enternecido.

O artista conta que a grande emoção do show no Inhotim também se deve ao fato de estar há quase um ano e meio longe dos palcos —ele fez três lives em 2020. O coronavírus obrigou-o a cancelar todas as datas da turnê do último disco e ele confessa que a situação deixou-o “imobilizado”. “Essa coisa de fazer show acaba me nutrindo de um descarrego de energia do qual eu careço muito”, explica. Apesar disso, Antunes resistiu, inicialmente a fazer os tais shows online. Estranhava assistir no computador ou celular um artista sentado na cadeira de casa, “com a mesma roupa de todo dia”, olhando para a câmera. Ele cedeu quando veio o convite da Virada Cultural de São Paulo para se apresentar no Teatro Municipal da cidade. “Eu só topei fazer pela oportunidade de fazer num palco, com cenografia, projeto de luz, figurino... E aquele teatro vazio, o que também é um retrato desolador do momento que estamos vivendo”, conta. Ele se diz muito grato por essas experiências, mas ainda não se acostumou ao silêncio que pesa depois de cada canção.

Ritmo

Indignação e afeto também são os ingredientes principais do álbum O real resiste, repleto de delicadezas instrumentais e letras que celebram o amor familiar —sua mulher, a artista plástica Márcia Xavier, assina com ele Luar arder e De outra galáxia, e sua filha Celeste canta Na barriga do vento, uma “canção sobre a emancipação dos filhos” nascida nos camarins da turnê dos Tribalistas— mas também denunciam as durezas do mundo. A faixa que dá título ao disco fala (e renega) de autoritarismo, xenofobia, homofobia e terraplanismo. “Essa música fala desse momento de indignação e perplexidade que estamos vivendo desde a eleição de 2018, talvez desde o golpe de 2016 [o impeachment de Dilma Rousseff], mas é uma música que, de certa forma, crê numa resistência possível a esse estado de coisas ao reivindicar o real para si”, explica.

Outras faixas nascem de vivências mais doces, como a viagem de seis dias que fez em 2018 a uma aldeia do povo Yawanawá, no Acre. Língua índia, cujo gérmen já existia em melodia, foi escrita lá, assim como Dia de oca, que o artista cantou por primeira vez com todos da aldeia. “Foi um convívio muito especial. Esses povos têm uma riqueza muito grande de saberes, de arte, de ciência, medicina, de generosidade e a coisa amorosa... Essas músicas são uma expressão de gratidão à vivência na aldeia, mas que sejam também denúncia desse período em que os indígenas são tão ameaçados pelo garimpo ilegal, pelo desmatamento, pela grilagem”.

Resgatar experiências como essa, voltar a colaborar com amigos como César Mendes e Marisa Monte e escrever foram coisas que o salvaram da “inércia”. “Fiquei muito imobilizado também porque achava que era um momento de autorreflexão. Eu ficava vendo todo mundo querendo levar o mesmo ritmo de vida de antes, só que online, e achava tudo isso uma incapacidade de parar. Para reflexão, contemplação, leitura... Cuidar de outras coisas que não sejam trabalho. Achava que era um apelo que a vida, o destino, o planeta estavam nos fazendo”. Nessa tentativa de diminuir o ritmo, Antunes mergulhou no livro Algo antigo (Companhia das Letras), que havia considerado pronto no final de 2019 e pretendia publicar em 2020, mas adiou. Na revisão, acabou excluindo poemas e incluindo outros, mudou a ordem deles e refez a versão gráfica de vários. Quarentena foi um dos acréscimos e versa assim:

o tempo

parece que passa cada vez mais

rápido e mais lento

ao

mesmo tempo

“Sou grato à quarentena, em certa medida, porque a versão do livro que foi publicada ficou muito melhor do que aquela que eu tinha dado como pronta no final de 2019″, sorri.

O artista, que tomou a primeira dose da vacina contra a covid-19 em 11 de maio, diz sentir-se grato não apenas pela existência do imunizante, mas pela oportunidade de exercitar a solidariedade. “Se as pessoas não se preocupam consigo mesmas devem se preocupar com o fato de, ao tomar a vacina, colaborar para que outros não se contaminem através de você. É o mínimo que a gente pode fazer pela saúde coletiva”, alerta. E no seu carrossel de sentimentos, a esperança parece ter sempre espaço: “Estamos vivendo oportunidades de conscientização que podem contribuir para uma mudança no mundo. Acho que [a pandemia] é um alerta para cada um de nós contribuir com um nível de consciência nesse oceano de desrazão”. Como reza a letra de O real resiste: é só pesadelo, depois passa.


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