“A palavra é um trampolim para alcançar outras linguagens na arte”

O músico e poeta Arnaldo Antunes coleciona expressões artísticas e prefere fazer tudo acompanhado do máximo de pessoas possível

Arnaldo Antunes em casa, em São Paulo.
Arnaldo Antunes em casa, em São Paulo.Eduardo Anizelli (Folhapress)

O compositor, cantor, poeta e artista visual Arnaldo Antunes, 55, fez muita coisa sozinho ao longo de seus 38 anos de carreira. Mas sua história mostra que ele gosta mesmo é de conviver com o máximo de pessoas possível: na família – primeiro de muitos irmãos e hoje de muitos filhos –, nas inúmeras parcerias musicais, nas antologias poéticas da qual fez parte e nos projetos multimídia em que explorou o vídeo e associou diversas linguagens, sempre fazendo da palavra escrita o material constante de sua(s) arte(s).

Arnaldo conquistou fama nacional na música primeiro com os Titãs, grupo indissociável da história do rock brasileiro, e a consolidou com uma carreira solo que já tem mais de 23 anos e inclui uma série de projetos e colaborações com outros artistas. Com sete discos pelos Titãs, 13 em carreira solo e três parcerias especiais, entre os quais está o fenômeno mundial com o trio Tribalistas, indicado a cinco estatuetas do Grammy em 2003, fez não só rock, mas samba, pop, música para dança, música infantil e música, enfim, que não caberia em um só gênero. Chegou a se apresentar, ao mesmo tempo, com o sambista Arlindo Cruz e a funkeira Anitta e defende que “a música é um território de liberdade”.

A política nunca foi objeto de seu trabalho – não em mensagens partidárias ou panfletárias –, mas nunca deixou de fazer parte dele. "Quem trabalha com arte trabalha com micropolíticas. Não usamos nosso trabalho para uma ideologia ou uma transformação pragmática. Estamos pensando em transformar a consciência das pessoas”, diz. É um homem que só pensa e só fala no plural.

Pergunta. Você vem de uma família de sete irmãos e tem quatro filhos. Isso de nunca estar sozinho influenciou seu trabalho de alguma maneira?

Resposta. Sempre gostei dessa bagunça, de ter muita gente em casa – irmãos e amigos. Era uma casa muito viva. Lembro do meu pai tocando piano no fim de semana – e ele toca até hoje, apesar de ter seguido a carreira de engenheiro. Foi uma coisa excitante na minha infância, a casa cheia. E acho que acabei reproduzindo esse modelo, com meus quatro filhos. Aprendo com eles tanto quanto eles aprendem comigo. Principalmente quando eram pequenos, eu pegava muita coisa da convivência com eles. Fui influenciado por esse olhar virgem, que faz analogias e repara em coisas evidentes em que ninguém estava reparando.

P. São Paulo é a sua cidade, mas você chegou a morar no Rio de Janeiro. Essa passagem por um ambiente diferente teve algum impacto em você?

R. Morei apenas um ano no Rio, em 1979, com 19 anos. Foi um certo parênteses na minha vida. Meus pais mudaram pra lá, e eu tive de ir junto, mas depois decidi voltar pra São Paulo no ano seguinte. Foi interessante morar em outra cidade, conhecer outras pessoas. Voltar para São Paulo foi uma maneira também de sair da casa dos meus pais sem muito conflito. Acabei voltando casado. Conheci minha primeira esposa no Rio, e viemos morar juntos.

P. Não todo mundo tem a sorte de estudar em escolas que despertam interesses artísticos, mas você conta que ’s colégios onde estudou abriram seus horizontes. Esse foi o começo de tudo?

R. Eu não gostava de estudar até o meio do ginásio, porque estava em um colégio muito tradicional. Eu associava estudo a decorar a matéria. Aí mudei para um colégio ligado à PUC-SP, o São Domingos, e passei a adorar a escola, senti que o caminho era entender, não memorizar. Foi revelador. Era uma escola que estimulava muito as artes visuais, a redação, etc. Depois mudei para o Colégio Equipe, que expandiu mais esse horizonte de criação: tinha três modalidades de português, quatro de arte e assim por diante. Na mesma época, comecei a me aproximar dos meus futuros companheiros do Titãs, escrever meus primeiros poemas, ter aula de violão e compor… Aí entrei na faculdade de Letras, na USP, e comecei fazer música mais a sério. Terminei largando a faculdade quando os Titãs começaram a fazer muitos shows pelo Brasil.

P. Você é um artista muito plural, mas a palavra atravessa o seu trabalho. Como isso se dá?

R. É uma matéria comum a tudo o que eu faço. Não sou um artista plástico, mas faço poemas visuais. Não sou um músico instrumentista, mas faço canções. Tem sempre a palavra envolvida, entoada, resgatada por elementos visuais. A palavra com esse perfil de trampolim, para que eu alcance outras linguagens e explore esses atritos entre o verbal e o visual. Paralelamente à minha carreira musical, primeiro com os Titãs, depois solo, fui também trabalhando exposições, livros de poemas e tal. Tudo isso andou junto. Em alguns momentos, elas inclusive se misturaram, como na época do dvd Nome (1993), que eu juntei os poemas e as canções numa terceira linguagem, que é a do vídeo. Tem sempre um trânsito, um contrabando de uma área para a outra.

P. Então, pra você, a música não ganha da poesia, nem o contrário.

R. Não, porque aconteceram pra mim ao mesmo tempo. Cresci numa época – os anos 70 – em que a poesia estava muito próxima da música popular. Você tinha o contato dos Tropicalistas com o Augusto e o Haroldo de Campos, o Décio Pignatari, o pessoal da poesia concreta… Poetas como Waly Salomão e Torquato Neto, que já eram letristas de canções e trabalhavam com artes gráficas… Existia esse universo todo muito próximo na minha cabeça.

P. Você acaba de participar pela segunda vez da Festa Literária de Paraty e de lançar um novo livro de poemas. Tanto a sua presença como o livro em si foram um sucesso. O que você acha da poesia recuperar certa popularidade, ao menos nesse contexto?

R. Acho bacana. Claro que, em termos de popularidade, a poesia ainda é minoritária, não como a música popular – que acaba sendo uma arte que faz parte da cultura de massas, passa no rádio e na televisão e tal. A poesia é para um público reduzido ainda, mas num evento literário como a Flip, que é o de maior visibilidade no Brasil hoje em dia, é significativo que os livros mais vendidos sejam de poemas. Uma notícia auspiciosa. E minha mesa com a Karina Buhr, mediada pela Noemi Jaffe, que conheço há muitos anos, foi um prazer. Exploramos esse território comum, por sermos ambos artistas da música que produzem poesia, o que deu um bom vínculo. Além de bater um papo comum sobre nossa relação com as palavras, teve momentos em que a gente pôde cantar a capella, escrever poemas e tudo isso.

P. Para muitos, você é indissociável dos Titãs, mesmo tendo feito tantas composições e participado de outros projetos musicais. O que você acha de ser mais conhecido pela música?

R. Estou em carreira solo desde 1992. Fiquei nos Titãs dez anos, mas já faz 23 anos que saí. Lancei muitos discos nesse meio tempo e rolaram muitos projetos paralelos também, como os Tribalistas, o disco Corpo, que fiz para o Grupo Corpo, o Curva da Cintura, que gravei com o [artista africano] Toumani Diabaté em parceria com o Edgard Scandurra, o Pequeno Cidadão, que é um projeto infantil. Enfim, nunca parei com a música e acho que acabo sendo mais conhecido por isso, até porque é uma atividade que tem mais visibilidade do que a poesia e as artes visuais. Mas continuo desenvolvendo as três vertentes [música, poesia e artes visuais], porque elas me interessam. Procuro não priorizar nenhuma na hora da minha criação escoar.

P. As crianças também são suas fãs, por causa do seu trabalho em música infantil. O impulso para isso veio dos seus filhos?

R. Na verdade, começou a acontecer quando eu fiz uma música para o programa Castelo Rá-tim-bum sob encomenda, Lavar as mãos. Ela se tornou um sucesso e, aí, a convite do Paulo Tatit, que tocava comigo no começo e depois criou o Palavra Cantada, fiz várias canções para esse projeto dele, que cresceu muito. Mais recentemente surgiu o Pequeno Cidadão, com o Scandurra, a Taciana Barros e o Antonio Pinto, e juntos fizemos o primeiro disco e uma série de shows. Pelo fato de sermos todos músicos e pais, acabamos tendo um repertório informal, familiar, de música para comer, dormir, brincar… Enfim. Resolvemos juntar esse material e fazer um disco infantil. O grupo já tem um segundo disco, do qual não fiz parte, porque não conseguia dar conta de tudo.

P. Como você explica o sucesso estrondoso dos Tribalistas, inclusive fora do Brasil? Tem como ele se repetir?

R. Foi um projeto que surgiu muito espontaneamente. Eu estava gravando um disco, Paradeiro, e convidei o Carlinhos Brown para co-produzir. Também convidei a Marisa [Monte] para cantar uma canção do disco comigo. A gente acabou se reunindo durante uma semana na Bahia e fez muita música ali. Decidimos gravar esse material depois, porque foi mágico: a gente fez umas 20 músicas. Aí um ano depois conseguimos espaço na agenda de cada um para gravar Os Tribalistas. Tudo muito natural, e acho que grande parte do sucesso que houve foi graças a isso. A própria informalidade e a intimidade entre a gente acabou passando essa áurea – vamos dizer assim – do disco, e isso foi muito cativante para o público em geral. Mas foi uma surpresa pra nós mesmos a recepção do disco dentro e sobretudo fora do Brasil, em países como a Itália, a Espanha e Portugal. Em vários lugares, as músicas entraram em primeiro lugar nas listas do rádio. Foi uma vendagem expressiva também. Mas não tem Tribalistas 2, nem nada disso. Pode até vir a acontecer, mas não tem nenhum projeto.

P. Foram muitas as colaborações ao longo da sua carreira, e recentemente você se apresentou no projeto Inusitados ao lado do sambista Arlindo Cruz e da funkeira Anitta. Você acredita que, na música brasileira, só acrescentamos as novidades ou há estilos que vão ficando para trás?

R. Acho que a música é um território de liberdade e que se faz coletivamente. Esse aspecto coletivo da música popular acaba propiciando esses encontros. Gosto muito de fazer música em parceria. É um desafio de adequação à linguagem da outra pessoa, que tem processos de composição diferentes, e isso acaba me levando a fazer coisas que não faria sozinho.

P. Na Flip, o tema da crise que vivemos no país surgiu na mesa da qual você participou e é mesmo difícil ficar alheio. O que você opina a esse respeito?

R. É uma questão muito abrangente, falar do Brasil hoje em dia. Acho que a gente está vivendo um período sombrio politicamente. É muito sinistra essa coisa do Legislativo criar uma situação de ingovernabilidade para o Executivo. Fica o Governo do PT refém do PSDB. A política está sendo feita por um desejo de poder, em vez de ser algo que pense no bem estar da população. Por mais que se discorde da Dilma, que pra mim fez uma campanha muito truculenta – na época da eleição, a minha candidata era a Marina Silva –, acho que essa situação de inviabilizar a governabilidade da administração dela é sinistra. Essa ideia de impeachment é muito sinistra. O PT está colhendo o fruto de alianças que fez por conveniência e não por uma afinidade com as causas e os ideais do tempo em que tinha uma tradição e buscava uma igualdade maior. A gente vive um momento de desmoralização do PT, mas eu desejo que se saia dessa situação de uma maneira positiva, que se pense mais na população e no país e não apenas em trocas de favores.

P. Você considera o seu trabalho político?

R. Falei agora como cidadão, mas não tem como não ser um trabalho político. Mas é uma visão totalmente diferenciada de algo partidário, panfletário ou comprometido com mensagens que vão almejar alguma ação política no sentido tradicional. Quem trabalha com arte trabalha com micropolíticas. Não estamos pensando em usar nosso trabalho para uma ideologia ou uma transformação pragmática. Estamos pensando em transformar a consciência das pessoas.