Televisão

Cao Hamburger põe o dedo nas feridas da geração Z

Globoplay estreia a série ‘As Five’, um ‘spin-off’ de ‘Malhação - Viva a diferença’, que cativou o público com cinco protagonistas que exploram os contrastes sociais, raciais e de gênero no Brasil

O roteirista e cineasta Cao Hamburger, criador de 'As Five', e as protagonistas da série, de esquerda à direita: Daphne Bozaski, Manoela Aliperti, Heslaine Vieira, Gabriela Medvedovski e Ana Hikari.
O roteirista e cineasta Cao Hamburger, criador de 'As Five', e as protagonistas da série, de esquerda à direita: Daphne Bozaski, Manoela Aliperti, Heslaine Vieira, Gabriela Medvedovski e Ana Hikari.Fabio Rocha

Crescer dói. Física e metaforicamente. Mas também é uma delícia. O crescimento é permanente, entre descobertas, rupturas, despedidas, a autonomia recém-conquistada quando se é uma jovem adulta, a sensação de controlar a própria vida e, ao mesmo tempo, pedir socorro aos pais quando os perrengues apertam. São essas dores e alegrias da geração Z — a fase dos 20 e poucos anos— que estão retratadas na série As Five, original da Globoplay, protagonizada pelas cinco amigas Lica (Manoela Aliperti), Benedita (Daphne Bozaski), Ellen (Heslaine Vieira), Tina (Ana Hikari) e Keyla (Gabriela Medvedovski), um spin-off que estreou na última quinta-feira da novela juvenil Malhação - Viva a diferença, que foi ao ar na Globo entre 2017 e 2018 e que é reprisada atualmente. “As Five é uma série sobre jovens adultas para adultos: os temas, a dramaturgia, as histórias, as cenas. Mas sempre com elegância, sensibilidade e humor”, diz ao EL PAÍS o roteirista e criador do projeto, o cineasta Cao Hamburger.

As Five nasceu do clamor —e pressão— dos fãs de Viva a diferença nas redes sociais, que sentiram-se órfãos não só das cinco amigas de realidades tão diferentes, mas dos temas atuais e urgentes que elas espelhavam. Pela primeira vez em mais de duas décadas, Malhação saiu do Rio de Janeiro e foi para São Paulo, com histórias de cunho social, explorando os contrastes de classes sociais —revelados, especialmente, nas diferenças entre escola pública e privada—, e as diversidades gênero e orientações sexuais. Foi também, por exemplo, a primeira vez que um casal do mesmo gênero (duas garotas) se beijou sem tabus às cinco da tarde na televisão aberta no Brasil. O típico casal protagonista de menino e menina foi substituído por cinco garotas como personagens principais: Keyla, uma mãe na adolescência, romântica e sonhadora; Ellen, uma jovem negra e de intelecto genial que sofre racismo; Tina, uma Julieta asiática do século XXI que enfrenta os preconceitos da mãe; Lica, rica e mimada, com traumas familiares e coragem para mudar o mundo e descobrir a própria sexualidade; e Benê, uma talentosa pianista com Síndrome de Asperger no espectro do autismo.

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Essas foram as personagens às quais o público foi apresentado no folhetim da tarde e que agora, passados seis anos na narrativa, voltam a se encontrar em As Five, mais maduras e com novas descobertas e desafios. O primeiro deles é repetir o êxito da obra que deu origem à série: a temporada de Malhação comandada por Cao Hamburger ganhou, no ano passado, o Emmy Kids International Award de melhor série, e registrou uma média de audiência de 22 pontos no Painel Nacional de Televisão, o que significa um alcance diário de 27,4 milhões de espectadores, uma marca que o programa não conquistava desde 2009.

A Globoplay não quis esperar para ver. O grupo de fãs das Five —fivers, como se definem— demonstrou um apoio tão incondicional no intervalo entre Malhação e a estreia da série, inclusive analisando e criando teorias sobre casa teaser e imagem lançada pela emissora ou postada pelas atrizes nas redes, que a segunda temporada de As Five já está em marcha. “Estamos terminando de escrever a segunda temporada. As gravações estão previstas para o meio do ano que vem. Está ficando muito bacana, as personagens cada vez mais amadurecidas e conectadas com o seu tempo”, adianta Hamburger, com exclusividade", ao EL PAÍS.

Ele próprio não é um entusiasta das redes, pessoalmente, mas utiliza-as para informar-se e pesquisar profissionalmente. “Procuro saber do que acontece por lá, das novidades, de como as pessoas se relacionam por lá... Sou um curioso profissional das redes. E usamos bastante nas tramas e na vida das personagens”, conta o roteirista e cineasta, que tem no currículo o sucesso geracional Castelo Rá-Tim-Bum (TV Cultura, 1994 – 1997), além das séries Cidade dos Homens (Globo, 2002 – 2005), Pedro e Bianca (TV Cultura, 2012) e dos longas O ano em que meus pais saíram de férias (2006) e Xingu (2012).

Depois da espera

Hamburger dizia que se as histórias que havia pensado contar em Malhação fossem, de fato, para o ar, ele se beliscaria, conforme contou em 2018 à repórter Marina Rossi. Mas ele conseguiu, e os adolescentes brasileiros puderam acompanhar uma narrativa próxima à sua realidade, fosse ela mais abastada ou mais humilde, em Higienópolis (bairro nobre da capital paulista) ou na Brasilândia (comunidade), em histórias que metem o dedo em feridas e tabus. Assédio sexual e o uso e abuso de drogas na adolescência, por exemplo, estavam presentes na novela e voltam também n’As Five, no contexto da vida adulta.

Tendo em conta a força narrativa dessas tramas e o cuidado estético já evidente no primeiro capítulo da série, em especial na agitada vida noturna de São Paulo —com direito a todos os efeitos de luzes e muito glitter— é inevitável lembrar de Euphoria, série da HBO estrelada por Zendaya e famosa por provocar muitos gatilhos ao tratar de depressão, ansiedade e dependência química entre jovens. O soco no estômago de algumas histórias contadas por Hamburguer, no entanto, têm mais peso pela proximidade com o público jovem brasileiro. Mais do que os beijos (na verdade, apenas selinhos) entre duas namoradas adolescentes, a forma como problemas estruturais como o racismo foram abordados superaram, em força, precisão e sutileza, narrativas do horário nobre. Estão lá , por exemplo,—e espera-se que esses temas sigam pungentes em As Five— o amigo negro que é detido por seguranças depois de sair da festa à qual foi convidado no bairro dos ricos e a angústia da mãe que não sabe se o filho ainda não voltou para casa porque pode ter sido alvo de uma bala certeira da polícia no meio do caminho.

No primeiro capítulo da série, se revela o preconceito velado quando, por exemplo, Ellen, mestranda em computação quântica no Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), é convidada a colaborar em um projeto apenas para dar seu “input da periferia”, pela sua vivência favelada. Outra referência à triste realidade brasileira é a figura de Keyla, agora mãe de um garoto de sete anos, que, em princípio, tinha duas figuras paternas (Tato e Deco, em Malhação), mas que se vê como mãe solo desempregada, dividindo os cuidados do garoto apenas com uma vizinha. É o Brasil dos pais ausentes —mesmo que você tenha dois.

Essas ausências no capítulo de estreia de As Five, aliás, são um dos seus pontos fracos. Já se sabia que, entre coadjuvantes, apenas Anderson (namorado de Tina, interpretado por Juan Paiva), Samantha (agora ex-namorada de Lica, vivida por Giovanna Grigio) e Guto (namorado de Benê, intepretado por Bruno Gadiol) continuariam na série, mas a falta de sequer uma menção a outros personagens importantes, como os pais e mães das jovens, cria uma certa expectativa frustrada e até confusão entre o público que já acompanhava a história. Já para quem é fiver de primeira viagem, faltou uma apresentação melhor das cinco protagonistas e um esboço do amadurecimento pelo qual elas passaram entre o final do Ensino Médio e o início dessa vida adulta.

O que compensa qualquer falha são as interpretações do elenco. Não surpreenderia, inclusive, se Daphne Bozaski, que vive Benê, fosse indicada a melhor atriz no Emmy Internacional, repetindo o feito de atrizes como Marjorie Estiano, nomeada por Sob Pressão. Longe de cair em clichês desrespeitosos, ela é sublime ao traduzir em olhares, movimentos de mãos e repuxadas nos lábios o desconforto social e a literalidade de algumas pessoas neuroatípicas (ou seja, pessoas neurodivergentes). Outro trunfo da série é levar o protagonismo feminino também para trás das câmeras, tanto na produção quanto na parte técnica, como destaque para as roteiristas Jasmin Tenucci, Luna Grimberg, Ludmila Naves e Francine Barbosa.

Como diz Cao Hamburger, trazer a urgência dessa diversidade, de todas as diversidades, “é falar da essência do mundo de hoje”. Ele lembra que essas jovens pertencem a uma geração considerada global, de pessoas criativas, empreendedoras e naturalmente colaborativas, que tinham tudo para muda o mercado de trabalho. Mas não foi bem assim. “Eles seriam o retrato da felicidade, escolheriam somente carreiras que lhe dessem prazer, que fossem relevantes, trabalhariam de forma saudável, produtiva, politicamente correta. Mas a crise econômica/política os atropelou. E o lado negativo das redes sociais foi aparecendo. Ansiedade, isolamento, depressão, narcisismo, intolerância às frustrações", lamenta. É a geração bem-intencionada, que quer ganhar o mundo, mas não sabe por onde começar.

Apesar de tudo, Hamburger se diz fã desses jovens que encontraram um mundo com perspectivas sombrias pela frente, mas se fortaleceram por isso. “Tenho certeza que serão os jovens que vão nos tirar do caos em que nos metemos. Acabam de mostrar isso nas eleições americanas”, afirma, esperançoso.


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