Reprise de ‘Fina Estampa’ mostra um Brasil que não se espanta com machismo de seus personagens

Apesar da linguagem que também remete à homofobia, trama tem registrado recordes de audiência

Cena da novela 'Fina estampa'.
Cena da novela 'Fina estampa'.Globo

Com a paralisação das gravações de novelas devido à pandemia de coronavírus, os telespectadores do horário nobre da Rede Globo deixaram de acompanhar a novela Amor de mãe, para assistir Fina estampa, folhetim que foi ao ar entre 2011 e 2012. A obra mostra a história de duas mulheres, a rica e arrogante Tereza Cristina (Christiane Torloni) e a batalhadora Griselda (Lília Cabral) —também chamada de Pereirão— , que se encontram e acabam tornando-se rivais. A novela se desenrola com um toque mais leve que Amor de mãe, mas mostra que o Brasil deu um salto nos costumes na última década. A novela reprisada fala com um Brasil que ainda normaliza (ou normalizava?) o machismo e a homofobia. Um choque para o público fiel do horário nobre que se encantava com o enredo centrado na maternidade, exaltando o protagonismo feminino, as questões de gênero e o debate sobre racismo.

Na última terça-feira (07), foi ao ar uma cena em que o personagem Quinzé (Malvido Salvador) agredia verbalmente a ex-mulher Teodora (Carolina Dieckmann), em um salão de beleza, por tê-lo abandonado deixando para trás o filho pequeno de ambos. Quinzé gritava com a mãe de seu filho, e a chamava de “piranha”, “biscate”, “ordinária”. “Vou fazer você se arrepender. Vou te fazer sofrer tudo o que eu sofri. Tu vai (sic) se sentir humilhada toda vez que se olhar no espelho”, bradava o personagem, enquanto as demais pessoas presentes observavam em silêncio. Quando os seguranças do local intervieram, pedindo-lhe para deixá-la em paz, ele ameaçou: “Paz é uma coisa que essa piranha nunca mais vai sentir na vida”.

A cena não rendeu nenhuma discussão acalorada nas redes sociais sobre violência de gênero e machismo à época em que foi ao ar por primeira vez na televisão. O Brasil ainda normalizava essa temática, embora o incômodo fosse sempre latente. Fina Estampa retrata, inclusive, um ícone de uma mudança social que afetou até mesmo o modus operandi da Rede Globo. O ator (até então galã) José Mayer, que aparece todas as noites no porta-retrato da sala de Griselda, representando a imagem de seu ex-marido, foi obrigado a sair do ar na emissora em 2017 e caiu no ostracismo no meio artístico depois que uma figurinista da emissora o denunciou por assédio sexual. Foi um escândalo na época, que veio a reboque da primavera feminista que o Brasil experimentou dois anos antes, com passeatas de mulheres nas ruas, e campanhas como o #meuprimeiroassedio nas redes sociais. O movimento de mulheres, que cresceu nos últimos anos no país, já não faz concessões a violências com essa.

Em sua edição original, Fina estampa foi alvo de críticas da comunidade LGBTQ+ por conta do personagem Crô (Marcelo Cerrado), mordomo de Tereza Cristina, cujo arquétipo é o da bicha louca, o gay afeminado, cujo único propósito é servir de alívio cômico no folhetim. Desta vez, no entanto, a Rede Globo fez alguns cortes para se adaptar à época em que a novela está sendo exibida.

Na quarta-feira, 1º de abril, uma cena com falas homofóbicas direcionadas a Crô não foi transmitida. Na sequência em questão, uma das personagens diz a ele: “Viado adora uma baixaria!”. Nos idos dos anos 2010, a caricatura funcionou e o personagem acabou ganhando dois filmes, um spin-off raro no gênero de telenovelas. Hoje, essa linguagem nada tem a ver com as narrativas apresentadas pelas novelas e séries da emissora, que foram obrigadas por pressão social – e debates acalorados diariamente nas redes por movimentos sociais organizados — a prezar cada vez mais pela igualdade.

Por que, então, Fina estampa foi a escolha da Globo? Trata-se de uma novela do horário das nove, sucesso de audiência e gravada em alta definição (HDTV) em formato de tela 16:9 —ou seja, de 2009 para cá— e com temática branda e familiar. Uma fuga da cruel realidade atual, sem textos muito elaborados ou dramas densos que, em tese, não tocam em tabus sociais. E tem ainda o apelo da personagem de Lília Cabral, a mulher e mãe batalhadora que luta para sustentar a família sozinha. No momento em que o Brasil tinha a primeira mulher a ocupar a Presidência da República, Griselda, que trabalhava como uma espécie de marido de aluguel, fazendo obras e reparos, discutia qual o papel da mulher na sociedade. Ao mesmo tempo, ela representava o crescimento da chamada classe C, uma realidade daquela época.

Apesar de dialogar com esse Brasil de outros tempos, Fina estampa superou a audiência de Amor de mãe. Com duas semanas completas no ar, a novela está com 34,1 pontos de Ibope na Grande São Paulo, um desempenho bem acima dos 29,7 conquistados pela antecessora em seus 12 capítulos iniciais. Além disso, a reprise superou a média de 33,2 pontos das quatro últimas semanas de Amor de mãe. É verdade que a reprise se beneficia da quarentena, quando mais televisores estão ligados, e o confinamento obriga a ficar em casa. Também se beneficia do aumento da audiência do Jornal Nacional, que teve seu melhor mês de março em oito anos, em função da cobertura aprofundada para a crise do coronavírus. A inércia acaba ajudando a deixar a televisão ligada. Está ensanduichada também com uma edição barulhenta do Big Brother Brasil.

Mas fica a dúvida se o ócio obrigatório nesse horário aumenta sua visibilidade em tempos de desânimo coletivo, ou se o Brasil baixou a guarda temporariamente para bandeiras que se fortaleciam num momento em que é preciso pensar mais na preservação da vida e dos empregos em meio à pandemia. “Essa grande audiência demonstra uma aceitação dessa narrativa e de como ela é conduzida”, avalia Valéria Vilas Boas, pesquisadora de televisão e professora da Universidade Federal de Sergipe. “A gente tem avanços nos discursos feministas, nos discursos de igualdade, mas esse ainda é um Brasil real∏, completa. Para ela, houve uma transformação no debate sobre direitos da mulher desde que a novela foi ao ar pela primeira vez. “Mas também temos um recrudescimento de discursos radicais e misóginos, por exemplo”, pondera.

Thiago Ferreira, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), concorda com a análise. “Esse Brasil da violência contra a mulher e de uma representação simbólica do homossexual ainda de um ponto de vista muito caricatural, que não deixa ver a diversidade de vivências LGBTQIA+, continua existindo. A gente vive em um país cheio de contradições. Os aspectos culturais desses vários tempos estão coexistindo”, diz ele. “Temos tramas como Amor de mãe, mas ainda há espaço para que narrativas como a de Fina Estampa dialogue com tantos espectadores”, completa.


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