Dia Internacional da Mulher 2020

Por que as mulheres, sempre relegadas à cozinha, não são as chefs estrelas da gastronomia?

Em ‘Fominismo’, jornalista francesa esmiúça o paradoxo das mulheres, segregadas historicamente ao papel de cozinheira das famílias, hoje sem reconhecimento nos grandes restaurantes

Mulher produz pão no campo de refugiados Mberra.
Mulher produz pão no campo de refugiados Mberra.Juan Ramón Robles

Por que a quantidade mulheres chefas de cozinhas reconhecidas em prêmios e listas internacionais, como o Guia Michelin e World’s 50 Best Restaurants, é infinitamente menor que a de homens? Por que na série da Netflix Chef’s Table há tantos chefes homens e menos da metade de mulheres? Por que as mulheres, diferentemente de outras fêmeas entre os mamíferos, são, normalmente, menores que os homens? Quantas mulheres trabalham na cozinha e quantas são reconhecidas por serem chefs? Por que, afinal, somos coadjuvantes em um lugar onde historicamente exercemos o papel principal?

“Por que as mulheres, detentoras de um saber há anos transmitido de mãe para filha, não ocupam as cozinhas dos restaurantes?” Assim, de maneira direta, a jornalista e pesquisadora francesa Nora Bouazzouni inicia seu livro Fominismo – quando o machismo se senta à mesa (editora Quintal). Na publicação, lançada em 2017 na França e no ano passado no Brasil, a autora se arma de dados e informações coletados ao redor do mundo para destrinchar a paradoxal relação das mulheres com a comida.

Ainda que as mulheres tenham sido as responsáveis por cozinhar e garantir a mesa posta ao longo dos séculos, são também elas que não recebem o reconhecimento profissional à frente de uma cozinha – ou de uma mesa de jantar. “Seja pela divisão do trabalho, pela segregação alimentar ou pela orientação das práticas de consumo por meio de proibições, discriminações ou ditames estéticos, a comida serve para manter as mulheres no lugar que lhes foi designado, há milênios, no espaço ou na sociedade”, questiona a autora. “No meio da gastronomia, as mulheres continuam sendo impedidas por injustiças estruturais ou discriminações sistêmicas: machismo, assédio, bancos reticentes a lhes ceder empréstimos, redes de contato femininas menos desenvolvidas, licença paternidade mínima, ou mesmo inexistente...”, disse Nora, de Paris, por e-mail ao EL PAÍS. “Elas têm frequentemente menos tempo, menos condições e menos poder que os homens, o que as torna menos disponíveis, ou seja, menos visíveis em termos midiáticos -- penso sobretudo nas competições do tipo Top Chef e Masterchef, nos food festivals, cujas programações estão longe de serem igualitárias, ou ainda nos jurados, que são frequentemente 100% masculinos”. Na edição brasileira, há uma mulher, Paola Carosella, e dois homens, Henrique Fogaça e Eric Jacquin.

Mas Nora não fala somente sobre o reconhecimento profissional das mulheres à frente de uma cozinha. De acordo com levantamento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), mencionado no livro, as mulheres constituem por volta de 43% da mão de obra agrícola no mundo, mas representam menos de 20% dos proprietários fundiários de terra. “Pelo mundo todo, as mulheres são responsáveis por uma segurança alimentar que elas mesmas não usufruem”, diz Nora. É por isso que programas desenvolvidos em regiões secas e semi-áridas para a construção de cisternas priorizam as mulheres. Do sertão do Brasil, ao deserto do Senegal, quando a busca pela água ganha uma solução, sobra tempo para que as mulheres, responsáveis também por isso, se organizem politicamente, trabalhem e até garantam independência econômica.

Além dessas questões que surgiram com a modernidade, a autora volta aos primórdios para mostrar que às mulheres foram oferecida a comida de pior qualidade, com menor quantidade de gordura, historicamente. E que essa pode ser uma das razões para explicar por quê a mulher ao longo da evolução foi diminuindo, até chegar ao conceito de que as mulheres são mais fracas ou ao mito de que “homens precisam comer mais carne”. Segundo a autora, existe uma tendência, mesmo que inconsciente, de oferecer menos alimentos às meninas do que aos meninos. Mas não há uma explicação fundamentada para isso.

Fominismo faz pensar sobre o jeito que comemos e por que comemos dessa forma. “É claro que se alimentar é um ato político”, diz Nora. “Eu acho que todo ato é político, quer estejamos conscientes dele ou não, quer tenhamos escolhas ou não. Viajar, se vestir, se alimentar... Por outro lado, não se pode permitir que a responsabilidade da mudança seja incumbência unicamente das mulheres!”