“Nosso filme olha para o caos da vida dominada pela tecnologia. É sobre essa falsa ilusão de liberdade”

Paul Laverty, roteirista de ‘Você não estava aqui’, novo filme dirigido por Ken Loach em cartaz no Brasil, fala sobre a uberização da vida. “É preciso um cinema que desafie o poder de um modo radical"

Cena do filme 'Você não estava aqui', de Ken Loach.
Cena do filme 'Você não estava aqui', de Ken Loach.

O que acontece em uma família que divide um espaço em que as pessoas estão quase sempre a poucos passos de distância, mas mal se veem? Essa foi a questão que fez com que o diretor e roteirista Paul Laverty, amigo e colaborador de toda a vida de Ken Loach, escrevesse a história de Você não estava aqui, longa que estreou no Brasil nesta quinta-feira. O filme mostra a difícil e exaustiva rotina de um pai de família entregador autônomo —como os da Amazon ou de outras plataformas de serviços delivery—, uma mãe cuidadora de idosos e dois adolescentes que tentam sobreviver na selva do livre mercado.

Em mais um exercício de análise dos efeitos da mecânica social sobre as pessoas, a dupla Laverty e Loach —pais do aclamado Eu, Daniel Blake— acompanha o calvário que o empreendedorismo neoliberal impõe sobre Ricky Turner ( interpretado por Kris Hitchen), o pai que “trabalha feito um condenado”, em jornadas de 14 horas, sem tempo sequer para ir ao banheiro, e sua família. Os vilões são os algoritmos que aceleram o ritmo —e a precarização— do trabalho ao ponto do intolerável, seja qual for a plataforma que promete o conforto de alguns às custas do sacrifício de outros.

É a uberização da vida. Mas o filme “não é um manifesto político”, garante Laverty, em entrevista ao EL PAÍS, ao outro lado do telefone, na pequena cidade da Escócia em que vive. “É uma tentativa de olhar para o caos da vida moderna, dominada pela tecnologia, que, muitas vezes, promete nos libertar, mas nos escraviza. É sobre essa falsa ilusão de liberdade”, explica.

Essa promessa vazia se expressa no discurso do empregador de Ricky: “Você não trabalha para nós, você trabalha conosco”. O filme desmonta camada a camada essa ideologia. “Vendem a ideia de que você é um guerreiro empreendedor, um soldado da sua própria vida, mas, na verdade, você está se escravizando. É uma sociedade em que não conseguimos nem cuidar dos nossos próprios filhos”, diz Laverty.

Ken Loach, evita, no entanto, falar em escravidão moderna. “A palavra ‘escravo’ tem outras conotações”, argumenta o diretor britânico, que entende que a tecnologia é neutra. “O risco é quando ela é usada para controlar o trabalhador, como no filme”. No longa, os clientes monitoram por um dispositivo cada segundo do trajeto de Ricky, que tem direito a paradas de apenas dois minutos. "Não é um problema da ciência, mas sim de quem controla essa ciência, dos proprietários da tecnologia”, afirma Loach.

Ainda que Você não estava aqui não mencione nenhuma empresa específica de comércio digital, fica quase explícita a crítica a maior delas, a Amazon. De fato, no processo de escrita do roteiro, Paul Laverty entrevistou um ex-motorista da empresa no dia em que seu proprietário, Jeff Bezos, tornou-se a primeira pessoa a faturar cem bilhões de dólares na lista de super-ricos da Forbes.

“Esse modelo de negócio de entregar tudo na casa das pessoas é irracional, prejudica as relações em comunidade, prejudica o meio ambiente. O capitalismo é mestre em esconder seu lado feio, em esconder a dor”, afirma Laverty. Apesar de sua tradição cinematográfica de forte crítica social, o roteirista e diretor não acredita que os filmes possam mudar a realidade. “As histórias ajudam as pessoas a enxergar as coisas, mas as coisas só mudam quando as pessoas têm acesso ao poder. Meu objetivo é fazer filmes que desafiam o poder. Infelizmente, a maioria dos filmes que assisto só reforçam o poder, reproduzem estereótipos, glorificam a riqueza. É preciso um cinema que desafie o poder de um modo radical”, diz ele, que elogia o trabalho do brasileiro Fernando Meirelles. “Vi Dois Papas, é muito bom”.

O próprio Laverty diz não usar serviços como os da Amazon —"Só comprei um livro uma vez, há anos"—, mas não condena quem o faz. “Sou da velha guarda, gosto de usar transporte público, andar de bicicleta, ir ao supermercado. Mas é verdade que tenho todas as facilidades de viver em uma cidade pequena”, matiza.

Como em toda a cinematografia de Laverty e Loach, a estética de Você não estava aqui é espartana, não usa de muitos artifícios para comover. Destaca-se a filha caçula da família, Liza Jane (vivida pela atriz Katie Proctor), de 11 anos, que parece buscar sinais de vida humana em meio à quietude da casa. Ela sabe que seus pais e irmão estão por aí, em algum lado, pelas pistas dos pratos com restos de comida e as roupas jogadas pela casa. Seu irmão mais velho, Seb (Rhys Stone), de 16 anos, se sente livre e rebelde, tudo o que seu pai não pode ser. E é na figura da mãe, Abby (Debbie Honeywood), que se desdobra entre os muitos ônibus que pega para chegar aos trabalhos, o cuidado de idosos e a preocupação com os filhos —com quem praticamente só fala por telefone— que o espectador vê o colapso emocional como consequência do uberliberalismo.

O impacto de Você não estava aqui já faz eco, pelo menos do outro lado do oceano. "Tenho recebido mensagens de pessoas falando que sindicatos, igrejas, empresas, praças de prefeituras estão fazendo exibições públicas do filme. Isso me deixa feliz. Tem gente que veio me dizer: ‘Poxa, agora eu ofereço um copo de água quando alguém vem fazer uma entrega na minha casa, pergunto se a pessoa quer usar o banheiro”, comenta Laverty.

Perguntado sobre a leva de filmes de crítica social no último ano, principalmente com o triunfo do longa coreano Parasita nas premiações internacionais, o diretor e roteirista surpreende: "Tenho certeza de que você vê muito mais cinema do que eu. Eu só estou preocupado em fazer filmes e cuidar das crianças”, ri.