Cinema

‘Você não estava aqui’, novo filme de Ken Loach, ganha trailer

O diretor de ‘Eu, Daniel Blake’ volta a olhar para a tragédia dos anônimos e a desigualdade social no mundo ‘uberizado’. Trailer é exibido com exclusividade pelo EL PAÍS

Trailer de 'Você não estava aqui'.

“Você não trabalha para nós, você trabalha conosco”. Essa máxima da economia uberizada é o ponto de partida de Você não estava aqui, novo filme do diretor britânico Ken Loach, que conta a exaustiva e difícil rotina de uma família —mãe cuidadora de doentes, pai entregador autônomo e dois filhos adolescentes— que tenta sobreviver na selva do livre mercado. Com previsão de estreia para 27 de fevereiro, e distribuído pela Vitrine Filmes, o longa acaba de ganhar um trailer, exibido primeiramente pelo EL PAÍS. O filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes, onde sua exibição causou uma grande comoção, a mesma de quando foi projetado no Festival de San Sebastián (Espanha) onde conquistou o Prêmio do Público de melhor filme europeu.

Abby e Ricky são um casal apaixonado e companheiro que tenta educar os filhos em meio às dificuldades econômicas. Ambos se esforçam para ser bons pais, mas trabalham tanto que, muitas vezes, só conseguem manter contato com a prole por telefone. Ricky é um homem acostumado a trabalhar duro. Com o serviço na construção civil, a família conseguiu economizar para comprar uma casa, mas isso coincidiu com o colapso dos bancos e o casal ficou sem alternativas para pagar a hipoteca.

É quando ele decide adquirir uma pequena van para trabalhar como motorista de entregas, um trabalho com o qual supostamente se pode ganhar muito dinheiro —ou pelo menos o suficiente para viver com dignidade. A esperança é a de “trabalhar feito como um condenado" por dois ou três anos, juntar o dinheiro da casa e, assim, voltar a viver uma vida minimamente normal.

Se em Eu, Daniel Blake (2017), com o qual ganhou sua segunda Palma de Ouro em Cannes, Loach conta a história de um homem bom abandonado pelo sistema mau, em Você não estava aqui o dedo acusador não encontra um alvo tão direto. O algoz não é o governo, a rede de saúde deficitária, o chefe sem empatia. Os vilões agora são os algoritmos que aceleram o ritmo —e a precarização— do trabalho ao ponto do intolerável, seja qual for a plataforma que promete o conforto de alguns às custas do sacrifício de outros.

É com o olhar voltado para esses profissionais autônomos, submetidos a normas draconianas impostas pelas empresas de comércio digital, que Loach constrói mais um espetáculo da injustiça social. O diretor não quer falar, no entanto, de escravidão —"A palavra escravidão tem outras conotações", disse em entrevista recente ao EL PAÍS—, mas sim de novas e terríveis formas de exploração, consequências da economia de livre mercado.

O diretor não quer apenas abordar o nível de exploração do trabalhador individual, mas as conseqüências para a sua vida familiar e como essa economia faz as relações pessoais se refratarem. “A classe média fala sobre equilíbrio entre vida profissional e pessoal. A classe trabalhadora está presa à necessidade”, lamenta Loach.

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